Coluna da Skeeter: Literatura Estrangeira x Literatura Nacional Clássica x Literatura Nacional Contemporânea



Nos últimos anos o mercado editorial tem sofrido um boom e as vendas disparado. De acordo com o site do O Globo, que recentemente publicou uma matéria sobre isso, o fato deve-se aos jovens leitores que, agora, transformaram a literatura, também, em uma maneira de agregar status e criar tribos. De acordo com a matéria, os autores preferidos destes novos leitores - que podem ler livros de 500 páginas em dois dias! - são John Green, Cassandra Clare e Rick Riordan. E embora eu pudesse escrever sobre diversos pontos dessa matéria, vou me manter aos autores mesmo: todos estrangeiros.


Não quero, de forma alguma, desmerecer o trabalho deles, até porque sou muito fã da Cassandra e do John, mas o que realmente me chama a atenção é que nenhum deles chegou a citar um autor nacional como seu preferido.

Não acho que devemos separar nossas preferencias por nacionalidade, até porque eu só passei a fazer essas distinções depois que entrei para a blogosfera. Antes disso eu consumia livros nacionais como qualquer outro: baseada na tríade capa + nome + sinopse. Por não acreditar que devemos fazer distinção entre a nacionalidade do autor na hora de escolher um livro, foi que eu fiquei surpresa – e isso não é de agora - com o fato de que muitos leitores julgam o livro simplesmente pelo país de origem do autor.

Isso fez com que eu me perguntasse se a literatura contemporânea nacional é realmente ruim, ou se são as massas - literárias, que fique claro - que ainda são bastante ignorantes a respeito dela.

Acredito que hoje em dia está fácil se tornar um autor publicado – novamente, sem querer desmerecer o trabalho que dá criar, escrever e publicar, que eu conheço de perto. Você tem a opção de correr atrás de editoras como a Gutenberg, de pagar e sair por selos como o Talentos da Literatura Brasileira, pode sair por editoras menores como Modo e Literatra, ainda pode sair pelas editoras por demanda como a Editora 42 e a Wish, utilizar gráficas Offset para imprimir uma determinada quantidade de livros, ou publicar de forma digital na Amazon (e vou apenas mencionar como alguns autores recorreram a meios como crowdfunding para bancar a publicação, como Thiago Toy, autor de Terra Morta, fez recentemente). Meios para expor o seu trabalho ao mundo não faltam e confesso que, na minha opinião, não acho todos incrivelmente maravilhosos. É claro que você vai encontrar alguns livros "ruins" ou que não atendam as suas expectativas dentro da literatura nacional (contemporânea ou clássica), assim como vai encontrar isso nos livros estrangeiros. Afinal de contas, gosto é gosto e cada um tem suas particularidades.

A diferença entre o estrangeiro e o nacional é que antes de chegarem ao Brasil, os estrangeiros, muito provavelmente, já eram best-sellers. Ou seja, já haviam recebido o selo de aprovação de uma grande parcela de leitores que funcionam como um focus group para as editoras de outros países. Enquanto os nacionais, não.

Além do "complexo de vira-lata" que o brasileiro tem - e, diga-se de passagem, não só com a sua literatura - ainda carregamos muito do estigma da literatura clássica nacional. A linguagem difícil de Machado de Assis e companhia, as leituras obrigatórias e forçadas da escola... Livros que, muitas vezes, não são indicados para jovens de 11 ou 12 anos, mas que mesmo assim são passados.

Fato é que as pessoas parecem desconhecer a diferença básica entre a literatura clássica e a literatura contemporânea. Muito do que se tem publicado hoje no Brasil encaixa-se na categoria de entretenimento, enquanto muitos dos livros clássicos encaixam-se na categoria erudita. A leitura de entretenimento é fácil, tem uma linguagem simples e exige pouco esforço mental dos leitores; tudo é exposto claramente para ele. Já a leitura erudita é mais complicada, pode utilizar palavras que nem sempre fazem parte do nosso cotidiano, além de exigir um esforço mental maior dos seus leitores.

Assim como existem clássicos internacionais – e eruditas – como os livros de Dostoiévski, Eco, Nabovok, existem os nacionais que seguem a mesma linha e, nem sempre, são os mais indicados para tentar inserir alguém no mundo literário. É mais fácil você tomar gosto pela literatura através do entretenimento e ir aprimorando seu gosto, do que iniciar por um livro mais exigente e de leitura mais lenta.

Clássicos devem ser lidos? Com certeza! Devem ser forçados goela abaixo pelas escolas? Não mesmo. Quem aqui faz qualquer coisa de bom grado por obrigação? A própria palavra obrigação já tem uma conotação negativa, parece um fardo e algo que você não vê a hora de se livrar. Então, que tal ao invés de forçar as crianças a lerem os clássicos, não começamos incentivando-as a conhecer a literatura mundial, a tomar gosto pelos livros?

Vejo muita gente que chega a se referir a Literatura Brasileira/Nacional como gênero literário e, para mim, isso só reforça a falta de conhecimento que recebemos nas escolas. A nacionalidade de um livro não é o gênero dele e todo país vai ter seus livros clássicos com vocabulários do passado, e esse é justamente um dos atrativos deles.

Que tal, ao invés de empurrarmos uma Helena para uma turma do 5ª ano, colocarmos uma fantasia nacional como as tantas que tem saído hoje em dia? Que tal falarmos sobre desenvolvimento de personagens, construção de narrativa com algo leve e fácil, antes de apresentarmos as crianças a Bentinho e Capitu, Carolina e Augusto, Lúcia? Afinal de contas, sempre começamos pelo mais fácil, para termos uma base, antes de avançarmos para o mais difícil, evitando assim nos perdermos. Porque não fazer isso com a literatura, também?


Quem sabe assim possamos, em um tempo futuro, ter mais autores nacionais nas listas de mais vendidos no país e menos pessoas tenham calafrios ao ouvir sobre “clássicos nacionais”.

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A coluna da Skeeter é uma coluna colaborativa do blog. Se você quiser participar da seleção, envie seu texto para equipesomaisum@gmail.com. O anonimato é garantido.

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COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Eu acho que as massas são ignorantes sim, a respeito da literatura contemporânea nacional. Mas o que vc disse é verdade, está praticamente fácil publicar um livro hoje em dia, e qualidade nem sempre é a preocupação dos envolvidos =/
    Pra mim o que importa é a tal da tríade, não importa de onde veio o livro, eu só quero mergulhar em uma boa história.
    Ainda acho que a escola tem um papel muito importante nesse aspecto da formação de leitores. Infelizmente tudo acaba tendo um caráter obrigatório, os professores empurrando clássicos sem um planejamento ou desenvolvimento do hábito no leitor.
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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    1. Concordo, qualidade nem sempre é a preocupação deles e acho que isso assusta um pouco os leitores também, se você pega um livro ruim, você dá outra chance, afinal de contas, o problema pode ser você. Mas se você pega dois, três... Ai não, né? Mas acho que é questão de saber procurar mesmo, e não aceitar qualquer coisa só porque quer incentivar a literatura nacional. Críticas construtivas também servem de incentivo!

      Obrigada pelo comentário, Carol!

      bjos

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  2. OLá tudo bem?
    Eu como blogueira também tenho visto muita gente confundir ou julgar autores pela sua nacionalidade ou pelo sucesso que ele está fazendo sem nem mesmo ter lido o livro. Acho que é hora das pessoas começarem a pensar mais antes de julgar para que tudo se desenvolva. E é claro que temos autores nacionais maravilhosos como também internacionais, mas não é a sua nacionalidade que o faz melhor ou pior que o outro.
    ótima matérias.
    Abraços!
    seforasilva.blogspot.com

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    1. Exato, Sefora. Concordo com tudo, sem tirar nem por! Que bom que gostou do texto!

      bjos

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