Resenha: Rio 2054 - Filhos da Revolução

Rio 2054 é uma distopia brasileira criada pelo jornalista Jorge Lourenço e lançado em 2013 pelo selo nacional da Novo Século, a então Novos Talentos da Literatura Brasileira (hoje chamada de Talentos da Literatura Brasileira).

Sinopse: Rio de Janeiro, 2054. Três décadas após uma guerra civil que começou com a disputa pelos royalties do petróleo, a cidade se vê alvo de uma nova ameaça. Um velho jogo de intrigas e espionagem industrial entre as multinacionais que controlam a cidade ganha novos contornos quando uma perigosa jovem com poderes psíquicos surge nos guetos. Alheio a tudo isso, Miguel é um jovem sem grandes pretensões. Morador de uma região abandonada no pós-guerra, ele sobrevive catando restos de tecnologia e tem uma vida despreocupada. Sem saber o que o destino lhe reserva, ele é convidado para assistir a um duelo de motoqueiros e acaba se tornando o pivô de uma disputa que pode mudar o Rio para sempre. Num lugar onde o bem e mal se confundem, Miguel terá que desvendar os segredos de uma misteriosa inteligência artificial e, para proteger aqueles que ama, bater de frente com as poucas pessoas dispostas a salvar o que resta do Rio de Janeiro. Sem saber que lado escolher, caberá a ele decidir o futuro de uma cidade partida pela ganância.
A guerra pelos royalties do petróleo do pré-sal reduziu o Rio de Janeiro a um cenário distópico e dividiu a cidade maravilhosa entre pobreza e riqueza – uma linha ainda mais marcante do que a já existente. De um lado as Luzes, no Rio Alfa, a parte rica da cidade. Do outro, os Escombros, a parte pobre e negligenciada pelo resto do mundo, localizada na parte baixa, no Rio Beta.

Depois da guerra civil o Rio de Janeiro foi isolado do resto do país e tornou-se uma Zona de Internacionalização da América Latina e, para sair dos Escombros, é necessário um passaporte e um visto. Muitos podem entrar, mas poucos podem sair.

A ZI da América Latina é controlada por uma tríade estrangeira: a Alford Tech, uma empresa de tecnologia francesa; a Spartan, uma empresa de segurança, e a Fiume Energy, corporação italiana. De dentro da Torre Alfa, toda a cidade é administrada por uma Inteligência Artificial chama Alfonse, pertencente a Alford Tech.
Os Escombros são dominados por traficantes e gangues de motoqueiros, que batalham entre si em busca de fama e reconhecimento para que, desta forma, caiam na graça das empresas das Luzes e sejam contratados por elas para executar todo o tipo de serviço sujo.

Rio 2054 - Distopia Brasileira

É nesse contexto que Jorge Lourenço nos apresenta Miguel, um rapaz nascido e crescido na parte baixa do Rio, que ganha a vida com incursões ao centro abandonado da cidade em busca de peças para próteses mecânicas. Seu bom amigo Nicolas, um negro franzino e filho de um médico, que aprendeu o que pode sobre a profissão do pai para exercer a atividade. Nina, sua ex-namorada, uma viciada obcecada em mudar-se para as luzes. E Anderson, um amigo de infância e líder de uma das gangues de motoqueiros da cidade, os Engenheiros.

A história realmente começa quando os boatos de uma nova e violenta gangue se espalham pelos Escombros. Dizem que sua líder, Angra, possui poderes mentais e é imbatível. Em uma virada do destino, a Éden – gangue de Angra – acaba enfrentando os Engenheiros e Anderson sai bastante ferido. É nesse momento que Miguel descobre um poder sem igual guardado dentro de si e, com o terror que Angra tem espalhado pelos Escombros e preocupado as Luzes, ele precisa decidir-se entre aliar-se aos motoqueiros e derrotar a mulher, ou voltar para sua vida normal.

Tudo muda quando ele descobre, no centro abandonado da cidade, uma IA real demais para ser ignorada, necessitada de um tipo de bateria que só pode ser conseguida com muito dinheiro – o tipo de dinheiro que ele pode conseguir se se aliar aos motoqueiros.

Desde o começo o autor deixa bastante claro a índole honesta da personagem e abre margem para o conflito que vem a seguir, Miguel faz o necessário para garantir que Alice – a inteligência artificial – consiga sua bateria e, desta forma, entra em conflito com sua própria consciência.

Preciso admitir que não gostei do Miguel. No começo a irritação foi bem leve, se acentuando apenas quando Nina estava por perto, mas ao longo das páginas ela cresceu bastante. Os motivos são pessoais, claro, uma vez que ele não é o tipo de personagem que comumente gera empatia para mim. Miguel toma diversas atitudes que podem trazer consequências desastrosas – e as vezes realmente trazem – mas de uma maneira surpreendente, ele nunca é culpado de verdade por elas.

Ele é o tipo de personagem com carta branca para dizer e fazer o que quiser, sem enfrentar as consequências disso, na verdade. As pessoas sempre entendem seus motivos e sempre o ajudam com um sorriso, como se fosse completamente normal e aceitável o tipo de risco no qual ele os coloca.

Outro personagem que me deixou bastante incomodada foi Nina. Desde o começo eu tentei entender o propósito dela na história e, é claro, ela representava uma parcela da sociedade bastante compreensível: ela queria a segurança das Luzes a qualquer custo. O problema que eu tive com ela começou com sua relação com o Miguel, onde uma hora ele não podia se importar menos com ela e, na seguinte, estava morrendo de ciúmes. Mas o pico mesmo foi ao perceber que ela estava ali para servir como a donzela em perigo, sem um ponto muito marcante ou importante. Se a Nina não existisse, sua falta não seria sentida.

Porém, acho que os dois foram os únicos personagens que realmente não me tocaram. Embora o Jorge tenha deixado os secundários bem em segundo plano e preferido usar eles apenas como auxilio ao Miguel, eles me cativaram. Acho que é porque ele deixou muito no ar, deixou muita coisa para a nossa imaginação e a minha foi bem fértil.

Anderson me ganhou desde o começo, assim como Angra. O embate deles no início do livro foi uma das minhas partes preferidas, de tirar o folego! Marcante.

- Quem é você? – berrou, para se fazer ouvir sobre o ronco dos motores.
- Eu sou a retribuição. – limitou-se a responder, sorrindo.
Ele é um cara tranquilo e amigável, apesar da aparência destrutora. E Angra é o tipo de antagonista com o qual você consegue facilmente se relacionar. Quanto mais eu lia, mais eu queria saber sobre ela. A rebeldia, a revolta, os propósitos, o objetivo. Ela era intrigante, por vezes cruel, mas eu não pude deixar de amar.

- A verdadeira pergunta, Lúcia, não é o que você é, mas o que pode ser para esse mundo.
- E o que eu posso ser?
- A retribuição.

Fred e Juan também – embora eu ainda ache que o meu amor por Juan se deva ao fato de que Jorge se referia a ele como um viking. Fred tem uma missão, um objetivo, e vai atrás disso. Sem muito envolvimento emocional, seco. Meio mercenário eu diria. Adorei a crueza dele. O Juan já era um pouco mais emotivo, esquentado. Parecia um pouco mais real do que o Fred, parecia se importar mais. E me fazia sorrir bastante.

O Comandante e Alice foram uma surpresa sem igual. O Comandante me confundiu durante toda a história, sem me deixar saber de que lado ele realmente estava. E descobrir quem era ele foi o primeiro dos pontos altos da história, pra mim. Ele poderia ter sido um pouco mais explorado, acredito. Mas nada que um conto não resolva.

Já a Alice começou como uma curiosidade e acabou em um amor e forte desejo de que ela pudesse se envolver com o Anderson. Sou muito fã de romance, também, e embora eu não ache que uma distopia deva ter ele como objetivo principal, senti falta. Um romance nas entrelinhas, nos olhares e nos toques. O “triangulo” entre Miguel, Nina e Alice não me convenceu de verdade, podia ter passado sem.

O livro também traz Kazuo, um japonês com poderes especiais e cuja importância na história eu estou procurando até agora. Não entendi o objetivo do personagem, mas li sobre um segundo livro no universo de Rio 2054, que se passará em São Paulo. Espero encontrar alguma relevância para ele por lá – aliás, se você quiser mais informações sobre a continuação e a segunda edição de Rio 2054, pode acessar a fanpage do livro.

Rio 2054 também me lembrou um pouco da discussão de Gênesis, do Bernard Beckett, a respeito das IA e o que podemos considerar como vida ou não. O livro de Beckett puxa completamente para o lado de “o que realmente é ser humano” e o do Jorge é um pouco superficial na discussão, até porque não é o tema central, mas apreciei o fato dele não ter ignorado uma questão tão polêmica e confusa como essa.

- Sinceramente, não sei se ela se quer existiu. Talvez tudo isso seja um rastro de alguma coisa escrita no meu disco rígico, a assinatura do meu criador, do impulso que gerou o meu fantasma.
- Fantasma – ele sussurrou – você então acha que é um fantasma?
- Eu não sei o que sou. Qual o seu nome?
- Meu nome é Miguel.
- Você sabe exatamente o que é? Você se compreende por completo?

O que não dá para negar sobre Rio 2054, porém, é o enredo. Desde o primeiro momento em que coloquei os olhos na sinopse, eu soube que o enredo seria digníssimo. A guerra civil, o petróleo, a segregação social, o avanço tecnológico e as IA... Jorge esteve em uma linha muito tênue entre a realidade e a fantasia e confesso que eu posso, sem nem piscar, imaginar o mundo caminhando para a sociedade que ele ali descreveu.

O avanço tecnológico é cada vez mais rápido, aparatos considerados de ponta em 2013 já são ultrapassados e acontecimentos recentes no país mostram como estamos regredindo, ao mesmo tempo em que evoluímos. Não podemos negar que somos especialistas em fechar os olhos para os maus tratos, para o preconceito e para a pobreza, e muito menos ignorar o fato de que muitas empresas têm mais poder dentro do nosso país do que o próprio governo.

A primeira vez que peguei Rio 2054 nas mãos eu tinha uma expectativa completamente diferente da realidade do que li, Jorge surpreendeu em todos os aspectos – mesmo que em alguns lugares mais positivamente do que em outros. Eu jamais teria sonhado com o mundo que ele me descreveu, e ao mesmo tempo, foi fácil demais aceita-lo. Um pouco assustador, eu diria.

O enredo final, também, foi uma grata surpresa. O plot twist foi inesperado, embora pudéssemos encontrar algumas dicas a respeito dele durante o livro. O final não saiu muito do esperado, mas para ser sincera, não diminui o crédito do autor.


Título: Rio 2054 - Filhos da Revolução
Autor: Jorge Lourenço
Editora: Novo Século (selo nacional)
Nota: 3,5

Para saber mais: Skoob | Autor | Buscapé

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COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Awwn, eu tenho autografado mais ainda não comecei a ler. Conheço o Jorge e tenho fotos com ele, muito simpático, merece todo sucesso do mundo, assim como o seu blog. Amei, beijos ♥

    http://leitoresesuasmanias.blogspot.com.br

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    1. Jorge tem talento e só tem a crescer, merece sucesso sim.
      Obrigada pelo comentário, Juliana!

      bjos,
      Bianca

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  2. Parece ser bem interessante o livro, e ainda contanto um história do no Brasil o que deixa o livro bem mais atraente também. Adorei a capa, ficou muito bem produzida. Não sei se você conhece, mas tem um livro que também tem uma história aqui no Brasil e fala de um futuro alternativo também, depois dá uma procurada pois é bem interessante, se chama "2363 - O Futuro como você nunca imaginou". Parabéns pelo blog :D
    Beijos!

    Jackson - http://tronodelivro.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Jackson!
      O livro é bem interessante, sim. Vale a pena pela contextualização e história geral. Não conhecia esse livro ainda não, vou dar uma olhadinha no google. Obrigada pela dica :)

      bjos
      Bianca

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