O Estupro dos Outros - Coluna da Skeeter

Estatísticas mostram que uma em cada cinco mulheres vai sofrer algum tipo de abuso ao longo da vida. Eu sempre penso no estupro dos outros e esqueço que eu posso ser a próxima.


Acho que você está se perguntando o que o assunto tem a ver com livros, certo? Então eu explico rapidinho: foi um livro que me fez pensar sobre o tema.

O estupro na literatura não é novidade e pode aparecer tanto de forma explicita, como implícita. Os dois primeiros livros do autor Khaled Hosseine trazem o assunto, em O Caçador de Pipas um personagem masculino é estuprado, em A Cidade do Sol, são duas personagens femininas. Ao longo da série Outlander, pelo menos um personagem masculino e dois femininos são estuprados. Em As Crônicas de Gelo e Fogo o estupro marital que Cersei sofre, assim como o possível de Lyanna, fica bem implícito - bem como vários outras tentativas e atos levados a cabo. No NA Easy o estupro é um dos temas centrais, no oitavo livro da série erótica A Irmandade da Adaga Negra também, com ambos os personagens principais passando pela experiência. As Vantagens de Ser Invisível e Cartas de Amor aos Mortos tratam sobre abuso sexual, assim como em Senhores do Submundo. A tentativa de estupro (e o ato em si) aparece em Os Instrumentos Mortais. Meu Nome é Salma, Fale!, Preciosa, Dark Swan - Thorn Queen, entre tantos outros que também trazem o tema.

Esse texto é para dizer que eu acho que devemos parar? Não mesmo! Quem aqui já leu um livro com esse tipo de situação acontecendo com um personagem querido - ou mesmo que você pouco conhecia - e se sentiu ultrajada? Enojada? Revoltada? Triste e afetada? Se podemos sentir esse tipo de empatia por um personagem fictício, podemos sentir por pessoas reais que não conhecemos, certo? É isso que esse tipo de representatividade trabalha na nossa cabeça. Não é só um elemento de choque que o autor usa, uma forma de envolver emocionalmente o leitor ainda mais. É um elemento em comum entre o nosso mundo e a fantasia que estamos lendo. É uma forma de instigar você a perceber como é errado, a reagir da mesma forma na vida real.

E não foram esses livros que me fizeram pensar sobre o tema. Foi um outro, que não vou revelar título ou autor para não acusar ninguém injustamente, já que é sobre uma percepção minha.

No livro que li há pouco, uma jovem garota é mantida em um local onde passa por diversos tipos de tortura, uma delas o estupro. Um tempo depois ela é "salva" por uma pessoa, que a prende em outro lugar e também passa a estuprá-la - até que ela se apaixona por essa pessoa. Quando a pessoa morre e ela precisa fugir, a garota volta a ser estuprada diversas outras vezes.

Eu achei dezenas de erros amadores que poderia apontar no livro, mas nenhum deles me incomodou como o estupro. Eu esperava muito mais da autora e fiquei chocada quando ouvi dizer que ela mesma havia sido vítima de um crime semelhante. Primeiro, achei que faltava tato ao tratar do assunto, mas depois tentei me convencer de que tratar sobre ele tão brutalmente era apenas mais um dos elementos choque. Como eu já falei ali em cima, o estupro é um elemento de choque, de envolvimento emocional entre o leitor e o personagem, por ser algo tão íntimo. Ele é poderoso. Mas esse livro tirou o poder dele.

Tirou o poder dele se colocar como um crime, como algo errado, como algo que deveria chocar, aterrorizar, enojar, magoar, revoltar. Depois de tantas vezes, ele se tornou banal. Você virava a página e lá estava a personagem sendo estuprada. "De novo?" me perguntava. Fiquei revoltada, sim, com a forma banal como foi tratado, como algo sem importância. Mesmo que dentro do livro, naquela realidade, fosse algo banal e sem importância, não é para a realidade da pessoa que está lendo e que pode muito bem ser uma vítima. Desmerece o sofrimento dela, desmerece a dor dela, reforça a ideia de que é "normal", e daí se aconteceu com ela? Vai que ela mereceu, certo? Se é tão comum...

Errado! Porque ninguém merece, ninguém pede - aliás, dizer que pede pelo estupro ou que "deixaria estuprar" é a coisa mais ridícula que eu já ouvi no mundo, quando você pede ou deixa significa que você dá consentimento e se você consente, não é mais estupro! Eu duvido muito que a menina de cinco anos que foi estuprada e morta pelo padrasto estava pedindo por isso, ou que a cadela de rua que foi estuprada por mais de dois homens estava seduzindo eles, ou que a universitária que foi estuprada em seu próprio alojamento na faculdade "pediu" por isso.

Até porque, não se engane, estupro não tem nada a ver com sexo e sim tudo a ver com poder, humilhação, dominação. É pra mostrar que o estuprador tem poder sobre você, que você não tem mais domínio sobre o próprio corpo, é humilhante e degradante. Não é sexo, para nenhuma das partes.

E foi ai que o bendito livro e as benditas estatísticas me deixaram pensando. No meu convívio familiar direto, que eu vejo e interajo todos os dias, somos cinco mulheres. Fui obrigada a me perguntar qual das quatro já tinha sido abusada ou qual das cinco seria até o fim.

Fui obrigada a imaginar o depois. O depois imediato, sabe? Pra onde você vai? Quem você chama? Como você chega em casa? Da onde tira forças para se levantar - literalmente - e voltar para casa? Como você enterra essa experiência, para não falar? Como? Onde? Com quem?

Como uma pessoa que diz ter passado pela experiência pode escrever sobre o estupro e tirar o poder de revoltar dele, entregando-o de volta nas mãos do estuprador? Como ela consegue banalizar algo que eu choro só de tentar imaginar - e ter a certeza de que não chega nem perto da coisa real?

Por incrível que pareça, nos últimos anos os índices de estupro no Brasil aumentaram. Fiquei chocada, voltei a pensar na minha família e em quem de nós (ou quantas de nós) iria passar por isso, ser mais um número, representar mais um pontinho no gráfico das autoridades, na cabeça da sociedade.

Fui pesquisar e não precisei ir muito longe para descobrir. O senso comum já diz que a grande maioria das vítimas de abuso sexual não relata os casos por medo ou vergonha (por causa daquele poder que falei lá em cima, que o estupro dá, do domínio que ele tira da vítima) e isso já bastou para responder a pergunta de "como foi aumentar?".

Se ninguém denúncia, como vão encontrar os responsáveis? Como vão impedir que eles façam novas vítimas? Como vão impedir que o estupro dos outros, se transforme no meu?

A todas as garotas e garotos (eu sei que vocês existem e eu sei que vocês sobrevivem!) que passaram por isso, a todos os leitores do blog, eu só tenho a dizer que eu amo vocês, vocês são livres e eu respeito a dor de vocês.


Para a autora eu já não tenho mais nada a falar. Vou esquecer que li seu livro agora.


Beijos,
Skeeter.
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A coluna da Skeeter é uma coluna colaborativa do blog. Se você quiser participar da seleção, envie seu texto para equipesomaisum@gmail.com. O anonimato é garantido.

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COMENTÁRIOS

5 comentários:

  1. Coluna sensacional!

    Tudo foi bem colocado!

    Concordo totalmente com você: não se pode banalizar um assusto desses, pois infelizmente mulheres e homens viram estatísticas diariamente.

    Parabéns por ter coragem e a sensibilidade de escrever sobre esse assunto.

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  2. Pensei agora sobre o tema e reparei que já li vários livros em que acontecem estupro. E o triste é que isso não é algo apenas literário, acontece muito na vida real.
    Parabéns pelo texto.

    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de maio. Você escolhe o livro que quer ganhar!

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  3. Oi gente,

    Olha, fiquei completamente incomodada com a banalização do assunto no livro e olha que nem sei qual é, só sei que eu iria abandonar a leitura e queimar (sou dessas leitoras, revoltadas, que joga o livro no chão e pisa em cima quando ele é ruim ou tem alguma coisa que caga totalmente a história).
    Foi um ótimo texto e você conseguiu me passar totalmente sua indignação D:

    Beijos
    www.livroterapias.com

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Primeiramente, parabéns pelo texto. Como sempre, Skeeter provando o talento que tem. <3

    Sobre o livro (o que você não quis divulgar o nome), acho que o li também. Não sei se é o mesmo que estou pensando, mas, pelos detalhes, deve ser sim, e devo dizer que fiquei totalmente enojado com algumas partes dele.
    A sinopse prometia uma obra tão bem trabalhada que a raiva só foi crescendo com o tempo, enquanto prosseguia com a leitura. A começar com a falta de descrição em vários momentos. As coisas simplesmente aconteciam, passavam, como se não fosse nada demais. Não existia sentimento nos personagens, ou um cenário bem bolado. Dou valor a essas coisas, MUITO valor, e quando chegou no capítulo do estupro e a autora continuou dando pouca atenção ao emocional dos personagens, eu simplesmente desisti do livro.
    A coisa simplesmente "rolou". A descrição do que a moça sentia foi crua, distante. Entendo que não é necessário muitos detalhes nisso, até porque é um tema de dar ânsia em qualquer um, mas o que me pareceu foi que a personagem ficou "ah, já acabou?" enquanto jogava cartas. Como se tivesse, sei lá, cortando pão ou algo parecido. Não me pareceu um capítulo feito pra aprofundar a dor da personagem, mas sim pra impressionar o leitor. SÓ pra impressionar o leitor. E acabou ficando uma bosta.
    Respeito sim a autora, principalmente por saber que ela segura essa barra de ter sofrido o mesmo crime ( oque é tenso pra caramba, nem dá pra descrever o ódio que sinto por ela), mas o livro decepcionou sim. Faltou compaixão nos personagens, faltou descrição dos momentos, faltou coerência entre o que o "governo opressor" cobrava dos moradores e o que ele fazia pra manter aquela ordem.

    Enfim. Novamente, parabéns pelo texto. Espero pelos próximos. <3 :3

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