Lidando com o Machismo Literário: Proposta de Exercício

Lidando com o Machismo Literário: Proposta de Exercício


O Mês das #MulheresdaLiteratura passou, mas eu tenho esse comichão na pele que diz que eu preciso continuar falando sobre o assunto. Porque não é algo que vai passar só porque algumas pessoas falaram "Ah, sim, é verdade, existe machismo na literatura também.". Então precisamos falar de como esse machismo literário não se limita aos autores, mas também penetra nos personagens e nos leitores, moldando a nossa concepção da história. E é por isso que eu surgi com essa proposta de exercício

Por mais mente aberta que você seja, precisa lembrar que somos produto de uma sociedade machista e que o preconceito está enraizado em tudo que a gente faz. Que a desconstrução é um processo longo, diário e muitas vezes desgostoso. É normal o processo te deixar com raiva, quando você não quer aceitar que a sua atitude X é preconceituosa ou sexista, porque a verdade te liberta, mas primeiro te enfurece. Então não estou aqui para julgar ninguém, mas sim propor algo para repensarmos a forma como consumimos literatura e como formamos nossa opinião.

Será que estamos realmente sendo críticos com o que lemos ou estamos sendo influenciados pelos nossos preconceitos de uma forma mais profunda do que imaginávamos?

Lidando com o Machismo Literário: Proposta de Exercício


Então o que eu quero é que da próxima vez que você ler um livro com uma protagonista feminina que você acha muito chata e cheia de mimimi ao lado de um protagonista masculino com passado problemático e problemas de possessividade e toda a cartilha clássica de protagonistas torturados, pare e pense: eu odeio ela pela forma que a sua personalidade foi desenvolvida ou porque ela é uma vítima de abuso?

Pegando como exemplo Belo Desastre, aquele livro que eu odeio inteiramente, temos Abby e Travis. E não me leve a mal, eu não gosto dos dois. Acho a Abby bem sem sal, com a personalidade rasa e ambos são construídos com muitas familiaridades as fanfics. Mas o meu maior problema é com o Travis, simplesmente porque metade do que faz a Abby ser chata na trama é a forma como ela reage ao Travis, que é agressivo, possessivo e manipulador (como esquecer toda a manipulação emocional no final do livro?).

Se você pega a Abby e coloca ela em uma trama com um cara tipo o Lucas, de Easy, você eleva a personagem. Porque você não precisa ficar vendo a forma como ela se escapa de investidas indesejadas ou a forma como os desejos dela são manipulados por ele. Lucas, apesar do passado, entra em um relacionamento para somar, não subtrair ou dividir.

Agora, se você pegar a Bliss, de Perdendo-me, que é uma protagonista alegre, atrapalhada, engraçada, desenvolvida de uma forma que você se conecta e se apega e se relaciona, e joga-la ao lado de Travis, não é ele que vai ser elevado, mas ela que vai ser rebaixada. Justamente por ter que transformar as atitudes agressivas dele em romance.

Lidando com o Machismo Literário: Proposta de Exercício


O que eu quero com essa proposta, é que a gente pare, ao fim da leitura, e escrutine porque não gostamos de algo. E isso é um exercício que eu vou passar a fazer mais, também. Ninguém é obrigada a gostar de protagonistas como a Abby, claro. Eu não gosto. Porém, reconheço que parte desse desgosto indiretamente vem da relação dela com o Travis. Geralmente as mulheres são as primeiras a serem atacadas em situações como essa. Elas geralmente são o ponto de vista pelo qual a história é contada e é comum, quando não gostamos da história, jogar sobre ela toda a culpa e esquecermos que o protagonista masculino pode ser, em grande parte, o culpado pelo desgosto também. E vamos nem esquecer das vezes em que isentamos o pobre coitado do ome ogro abusivo, tão "gostoso e ~ciumento, quem não queria um cara gostoso daquele com ~ciumes???", que merecia muito mais do que a protagonista feminina que tem.

Então, essa é a minha proposta de exercício: parar de achar que só porque um cara é gostoso que ele tem o direito de fazer o que quiser e analisar realmente se a história é ruim porque a mocinha é um porre, apenas, ou se o mocinho contribui para isso.

Afinal, já passou da hora de começarmos a desconstruir a ideia de que a culpa por um romance ser ruim é da mocinha né? Vamos analisar cada caso como um caso!

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COMENTÁRIOS

11 comentários:

  1. Oi, Bianca!
    Amei esses unicórnios todos!
    Belo Desastre tem um lugar cativo no coração por ter sido o primeiro NA e livro em inglês que li na vida. Mas realmente a história é totalmente de uma relação abusiva, infelizmente.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe da promoção #Sorteio1KSeguidores

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    1. Oi, Luiza!
      Eu queria muito ter gostado de BD porque, a principio, achei que seria um romance disfuncional, uma coisa que ia pegar fogo e depois ia acabar. Mas ai foi como foi e que baita decepção da vida, viu? :/

      bjs

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  2. Não concordo totalmente. É verdade que se a Abby fosse colocada com o Lucas ela não seria burra na parte da manipulação,mas porque o Lucas é um cara legal. Já com Travis era perceptível a burrice por parte da Abby por aceitar tudo aquilo. Isso me deixava zangada, mas não só por isso. A maneira como ela agia com o outro cara que gostava dela também me irritava. Então eu não culpo o Travis por a Abby ser odiada, eu culpo ele por outras coisas, mas não pela burrice da parte dela.

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    1. Oi, Esther!
      Então, como eu falei, acho a Abby bem sem sal e sem graça, ela toma algumas decisões bem bestas por si só. É verdade que eu acho que 70% do fato dela ser um porre é por causa do Travis, mas sozinha ela não seria uma heroína badass também. Meu problema é realmente com o fato de que todo mundo aponta o dedo para ela e esquece que o Travis é tão ruim quanto. Todo mundo fala da Abby chata, e idolatra o Travis. Por que? Ele é um cara que só vem para arrastar ela pra baixo, não vejo nada de "ai que amor" na obsessão dele, na manipulação e tal.
      A Abby é uma personagem que não cativa? É. Isso fica ainda mais realçado pelo Travis? Fica. Pra mim o romance dos dois é um grande culpado sim. Se ele não existe, ela seria bem mais suportável pra mim.

      bjs

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    2. Em relação ao fato de que não é certo culpar só ela eu concordo. O romance ficou odioso pelo fato de ele ser um troglodita e ela aceitar tudo de bom grado. E é aí que está o ponto, ela sempre teve escolha, ela não precisava ter passado por tudo aquilo, ela não precisava ter aguentado ele, mas ela quis, eu via uma personagem que por mais que às vezes tenha se imposto no final ela aceitava tudo.
      Com um personagem como ele, ela demonstrou o quanto era burra, esse lado dela nunca teria sido revelado se ela estivesse com um personagem legal.
      Mas, no final, o meu desgosto por ela era pelo fato de ela nunca ter sido fiel a si mesma. Uma pessoa fiel a si mesma não passa por isso.

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  3. exatamente como vc disse, a culpa do romance ser ruim as vzs leva em conta mt coisa, mas tb leva em conta como a mocinha responde, tipo belo desastre, pegando como exemplo, abby se rebaixa a travis, qm sabe se ela n tivesse uma personalidade mais forte seria diferente, entao a culpa eh basicamente dos dois...
    e infelizmente vc citou um so exemplo, mas a literatura atual contempla varios exemplos de personagens machistas que sao exaltados pelas mulheres, pq traz uma adrenalina que te tira do mundo real..

    perolasdelivros.blogspot.com

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  4. Gente...resumindo tudo isso. E falando sobre o Travis e a Abby que é o exemplo aqui. Eu não acho justo culpar o Travis pelas escolhas da Abby, como eu disse, irei culpá-lo pelas escolhas que ele fez, pelo personagem que ele foi.
    E eu não vou avaliar a Abby pela personagem que ela poderia ter sido só para justificar suas escolhas, não, irei avalia-lá pela personagem que ela se mostrou nessa história.

    Em geral, as histórias são relativas e nós devemos avaliar o que está sendo mostrado e as escolhas de cada personagem.

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  5. Oi, tudo bem?
    Realmente alguns personagens são machistas, possessivos e extremamente ciumentos, porém isso é minimizado, pois é tratado como algo normal para o cara ser suuuper romantico, quando na verdade só estraga o romance da história.
    Gostei do exercício e com certeza vou praticar!

    Beijos
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  6. Deuzoooo!!! Toca aqui amiga, também DETESTO Belo Desastre <3 e me sinto tão só nesse mundo hostil onde tantas migas amam esse livro! Não acho só o Travis e a Abby chatos, o pior em Belo Desastre é a forma como a autora coloca mulheres que praticam sexo sem compromisso, elas são o TEMPO TODO chamadas de vadias! As "vadias" que aceitam transar sem compromisso no sofá do Travis... A Abby é diferente por isso é tratada com respeito \o/ Oi! Respeito é condicional? Sempre achei que era um direito de todas e todos!

    Também achei pertinente a sua proposta de exercício. Eu sou uma pessoa com muitas duvidas e poucas - quase nenhuma - certezas. Amo a constante urgencia por desconstrução.

    Jaci
    #DoQueEuLeio

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  7. Oi, Bi

    Olha, me abraça, porque eu ODEIO BD com todas as minhas forças. hahahahaha Um dos piores livros que já li! Concordo plenamente com o que você disse, alguns relacionamentos simplesmente despertam o pior nas pessoas. Na época que li BD ele tinha acabado de ser lançado, então a hype tava daquele jeito... e na época o Skoob ainda tinha a opção de dar deslike nas resenhas... menina, vc não tem noção da chuva de deslike! E eu falei #apenasverdades! Hahahahahha
    Adorei a postagem!

    Beijo
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  8. Gostei bastante desse exercício e vou procurar faze-lo em minhas leituras.
    Tambem odeio Belo Desastre. Não gosto da Abby porque em minha opinião ela é chata, egoista, sem sal, sem graça, sonsa e manipuladora e eu não acho isso por causa do Travis e por falar nele... Eu odeio o Travis Porque ele é simplesmente a personificação de tudo que eu abomino em um homem ele em minha opinião é aquele tipo de cara que me faz preferir estar forever alone do que acompanhada.

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