Dia do Orgulho LGBT+



Hoje é o dia em que se comemora o Orgulho LGBT+. Mas o que isso significa para a nossa literatura? A narrativa representativa é uma pauta importante, que felizmente chegou com força no mainstream*. Quanto mais se fala sobre isso, mais se vê jovens escritores engajados em diversificarem os seus universos. Porém, a gente percebe que essa diversidade mainstream está muito ligada ao G da sigla LGBT+ e chega, em alguns casos, até mesmo a colaborar com o apagamento de outras letras, como o B, com livros que insinuam que bissexuais são homossexuais enrustidos ou que tentam aliviar o preconceito dizendo "epa, eu também curto mulher!" (ou homem, no caso da personagem ser mulher).

Por isso, a ideia desse texto é revindicar diversidade dentro da literatura LGBT+. Buscar histórias que não foquem apenas em homens gays ou em estereótipos. Afinal de contas, qualquer diversidade não é, exatamente, melhor que nenhuma. Porque uma diversidade estereotipada não colabora com a comunidade LGBT+.

A comunidade LGBT+ não se resume a homens gays e é importante que mais livros protagonizados pelas outras siglas entrem para o mainstream. Falamos muito em "gay". Parada gay, literatura gay, romance gay e, embora acreditamos que ninguém faz isso por maldade, é uma forma de apagar as outras letras. Apagar o L, de lésbicas, apagar o B, de bissexuais, apagar o T, de transgêneros (e travestis e transexuais). E apagar o + que está ali no fim, que se dirige a todo um leque de nomes para a diversidade que temos entre nós.

Mas como introduzir as demais letras sem que seja de uma maneira estereotipada e ainda fazer sucesso no mercado? De uma maneira bem simples: com respeito. Para mostrar que sim, é possível haver representatividade em livros mainstreans, nós resolvemos falar sobre livros que possuem personagens que fazem parte de algumas bandeiras LGBT+ e que talvez vocês nem tenham percebido.

Como já foi dito acima, a letra G é a mais representada da sigla LGBT+, o que não significa que isso sempre aconteça de uma maneira não estereotipada. Por isso trouxemos alguns exemplos de personagens gays que encontramos na literatura mainstrem, sendo que alguns fogem dos padrões gerais apresentados:


Em Os Garotos Corvos, Ronan é sombrio, violento e solitário, características completamente contrárias daquelas associadas a homens gays. Já em Carry On, mesmo sendo um adolescente, Bazz não está confuso quanto a sua sexualidade e a assume sem problema algum. Em Quinze Dias, Felipe sobressai aos estereótipos porque é gordo e nerd - enquanto o "senso comum" dita que homens gays são sarados e fúteis. Além desses livros, você também encontra homens gays que fogem dos estereótipos em Percy Jackson e os Olimpianos, Garoto encontra Garoto, Aristóteles e Dante Descobrem o Universo, Mônica e Enzo e Todos os Dias e Harry Potter!


Diferente do G dos gays, os L das lésbicas é a segunda letra mais conhecida da sigla, mas isso não significa que ela tenha muita visibilidade. São poucos os livros no mercado com foco ou protagonismo de personagens lésbicas. No mercado internacional até existe um desenvolvimento maior do nicho, enquanto no Brasil é algo que está começando a ser melhor trabalhado agora. Como, por exemplo, com a publicação de We Are Okay pela Plataforma21. Destaque lésbicos que você encontra nos livros:

Aline e Helen, que aparecem em Os Instrumentos Mortais e também na nova série da Cassandra Clare, Os Artifícios das Trevas, são um exemplo ótimo de representação lésbica. Apesar de coadjuvantes, conhecemos sua história; elas quebraram os padrões e as regras da Clave e da sociedade dos Caçadores de Sombras para ficarem juntas. Nos livros Of Fire and Stars e Queens of Geek temos personagens lésbicas que estão em um romance com personagens bi, o que é um ponto muito interessante. Os dois livros são YA, um com fantasia e outro contemporâneo e com uma pegada de humor. A prova de que a representatividade se encaixa em qualquer gênero, se bem trabalhada. Outros livros que podem ser citados são Just Juliet, Out on good behavior e How to make a wish.


Partindo até a letra B da sigla, temos os Bissexuais, geralmente descritos como liberais, promíscuos ou como validados apenas a partir de um romance com outro personagem do mesmo sexo, eles precisam de uma representação mais realista e menos prejudicial e fetichista. Como exemplos de personagens que fogem desse esteriótipo, temos:

Lisbeth Salander, de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Seu relacionamento com Mimi é tratado com naturalidade e simplicidade pela narrativa, assim como seu envolvimento amoroso com o personagem Mikael. Os dois lados da atração existem e ela está confortável ali, como deve ser. Kate, de Eu Vejo Kate, tem um ótimo desenvolvimento, do tipo que não precisa mostrar explicitamente um relacionamento com uma mulher para você entender que ela é bissexual, e que ela não deixa de ser bissexual só porque se envolve com um homem. Simon, de Carry On, descobre sua bissexualidade no decorrer do livro, e a partir do momento em que este ponto fica claro para ele, Simon o abraça e aceita. Além deles, temos excelentes representações de bissexualidade em Os Garotos Corvos, Of Fire and Stars, A Prisão do Rei e Queens of Geek.


Chegando na letra T da sigla, temos a Transexualidade (e os travestis e transgêneros). Em resumo, é uma letra que representa mais do que apenas um grupo, podemos dizer que a transexualidade é quando um indivíduo possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado quando nasceu.

Jamie, de Fera, é uma das melhores representações de personagem trans. A narrativa entrega o quanto isso é normal e natural; independente da visão das outras pessoas, Jamie está ali, ela existe e ela é uma garota. Uma frase muito marcante que explica tudo sobre ela é essa: "meu copo está meio cheio, e eu não existo para ser a sua tragédia.". Temos também livros grandes e conhecidos que tratam sobre o assunto, como A arte de ser normal que já está no mercado há algum tempinho, e Apenas uma Garota, lançamento da editora Intrínseca.




Demissexual é um dos espaços entre os alosexuais (que sentem atração sexual "livremente") e os assexuais (que não possuem interesse em sexo). É considerada demissexual a pessoa que só vai sentir atração sexual depois de se relacionar emocionalmente e/ou intelectualmente e/ou psicologicamente com seu parceiro. Bem simples, certo? Mas encontrar personagens com essas características é uma das coisas mais complicadas, mesmo na literatura atual. Especialmente personagens que dizem com todas as letras que são demissexuais. Não encontramos os que dizem, mas os que representam a demissexualidade:

A Cath, de Fangirl, pode ser considerada demissexual porque ela só se relaciona com o Levi e começa a sentir algum tipo de atração por ele depois de ter se aproximado emocionalmente, de ter criado um vínculo de amizade com o garoto. Kaz Brekker, de Six of Crows, é outro exemplo; apesar de traumatizado por seu passado e por isso usar esse escudo emocional, Kaz só se atrai por determinada personagem depois de muito tempo de convivência, de criar essa ligação psicológica e emotiva com ela.


A assexualidade também está dentro daquele + e é com certeza uma das representações mais difíceis de achar nas mídias atuais. Assexual é aquele que não sente atração sexual por outra pessoa, basicamente. Como personagens representando essa vertente, temos:

Kasta, de Graceling. Sim, ela faz sexo durante o livro, sim, isso não significa que apague sua assexualidade. Ela não sente atração e nem vontade de fazer o ato, muito mais interessada na parte emocional/e no relacionamento verbal com o seu interesse amoroso. Apesar do sexo, ela é uma das personagens ace mais óbvias da literatura. Liraz, de Feita de Fumaça e Osso, é quase canonizada como assexual. Ela se aproxima afetivamente dos personagens, mas não experimenta desejos e nem se atrai fisicamente por nenhum deles. E, por último, achamos válido citar a Natasha de Tash e Tolstói, que vai ser lançado pela editora Seguinte em breve. Ela é uma assexual romântica assumida e só o fato de ter isso na sinopse do livro já anima para a questão da representação!


O gênero fluido também é muito pouco representado nas obras contemporâneas; as pessoas de gênero fluido se sentem homem em alguns dias, e mulher em outras. Uma das inserções de personagem do tipo mais recente na literatura que encontramos foi a seguinte:

Alex, da série Magnus Chase e os Deuses de Asgard, é quem decide ser. Em um dias acorda como uma garota, em outros acorda como um garoto. O livro mostra muito bem a força de sua escolha e como ela precisa combater o preconceito para ser Alex, simplesmente. 




Pansexual é a pessoa que se interessa romântica e sexualmente por pessoas de todos as sexualidades e gêneros, sendo eles binários ou não. Eles se diferem dos bissexuais a partir do momento que não enxergam gênero apenas como masculino e feminino, ou seja, abrangem também pessoas gender fluid, trans, intersexuais. Podemos dizer que os pansexuais se interessam pela pessoa, seja qual for o gênero ou orientação sexual dela.

Apolo, de Percy Jackson e agora de As Provações de Apolo, ama toda e qualquer pessoa. O Deus do Sol ama além do sexo ou identidade de gênero, e deixa isso bem claro em toda cena que sua sexualidade é trazida à tona. Raffe, de Jovens de Elite, é outro exemplo óbvio da pansexualidade na literatura: ele ama a pessoa, independente do que ela seja ou como ela se identifique.

Esses são alguns exemplos de representatividade positiva que encontramos no mercado mainstream atual. Embora poucos ainda se façam conhecidos pelas grandes massas, encaramos o desejo dos escritores atuais em diversificarem seus personagens com esperança. Ainda são poucos os livros e as histórias que verdadeiramente representam o público LGBT + sem amarras, sem restrições, sem ideias pre-concebidas e julgamentos, mas escolhemos acreditar que estamos caminhando para tempos melhores.

Nesse 28 de junho, escolhemos falar sobre a representatividade dentro da literatura porque acreditamos que é sempre necessário nos desafiarmos a ir além, não se contentar com pouco. Porque acreditamos que a igualdade de gênero, que a liberdade nas orientações sexuais marcadas nas páginas, significam muito em termos de representatividade na nossa sociedade. A comunidade LGBT + já conquistou muito em termos de espaço na mídia e na sociedade, mas não encontrou ainda sua igualdade. E, por isso, seguimos reivindicando. Seguimos falando sobre. Seguimos tentando colaborar, da forma que for possível, para desconstruir mitos através daquilo que amamos: a literatura.
E esperamos ter ajudado de alguma forma com esse texto.

Feliz dia do orgulho LGBT +. Que venham dias melhores!
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*mainstream: cultura de massa

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COMENTÁRIOS

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Eu adorei o post! Tão informativo e bom pra se ler, confesso que não sabia muito depois da letra T mais adorei descobrir novos generos e ps personagens literários que são assim.

    Todos nós somos diferente, e nem digo isso só pela identidade de gênero, mas somos diferentes em pensamentos, ideias, opiniões e é verdade, que sempre temos que ter é RESPEITO pelo próximo!

    *batento palmas*

    Beijão,
    Querida Cretina

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  3. Que legal! Gostei muito do post, e estou mega curiosa para ler Fera!
    Beijos ❤
    Jardim de Palavras

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  4. Olá, Meninas.
    Esse post de vocês é uma achado. Aprendi bastante coisa que não sabia sobre o assunto. Eu li poucos livros com os personagens citados e os que mais li eram com gays. E geralmente é um cara que é muito divertido e é o melhor amigo da protagonista. Acho que com um gay protagonista só li A Irmandade da Adaga Negra. E quanto aos outros acho que só lembro da Lisbeth.

    Prefácio

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  5. NOSSO DIA, DIA DE TODOS! DIA DE ORGULHO DE SER HUMANO!
    Não importa se vs é trans, gay, lesbica ou afins ... o que importa é que sejamos todos felizes!


    http://chronicleuntold.blogspot.com.br/

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  6. Que. Postagem. Linda.
    Que Postagem. Maravilhosa.

    Sério mesmo, batendo palmas, porque isso está muito bom! E lendo a postagem fiquei até me questionando se eu não seria demissexual (termos que eu desconhecia, by the way). Eu não sinto atração de primeira, primeiro preciso conversar e me interessar pela essência da pessoa, pela inteligência dela, sabe? Teve uma época que eu até fui pesquisar e encontrei o termo sapiosexual, que define pessoas atraídas pela inteligência... agora tô meio na dúvida! Hahahhha
    Parabéns mais uma vez pela postagem!

    Beijocas
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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