Resenha: Allegra - Antes do Play

Resenha: Allegra - Antes do Play

Allegra - Antes do Play é o primeiro romance da cronista e contista Andrea Evaristo, que está disponível em e-book na Amazon BR e também para degustação no Wattpad.
Sinopse: O que Cinderela tem a ver com livros e youtubers?
Allegra é uma figura peculiar: gorda, baixa, branquela e com um estilo retrô. Apesar disso, é o clichê da Cinderela: órfã de pai e mãe, mora com a madrasta Maura e suas duas filhas, Pam e Mel, que são tudo o que ela não é: altas, magras, lindas e negras. Para completar a imagem da gata borralheira, Allegra trabalha para as irmãs, editando seus vídeos para canal Be Twins no Youtube.
Estudante de Letras, Allegra sonha em se tornar escritora. Mesmo sua melhor amiga Verônica insistindo que ela deveria publicar suas histórias na Amazon, Allegra insiste em publicar tudo gratuitamente pelo Wattpad, porque não acredita que alguém pagaria para ler o que ela escreve. Um de seus leitores, com o pseudônimo de “Orfeu apaixonado”, começa a se corresponder com ela por email, e Allegra percebe que sua admiração extrapola sua escrita. Ela não pode negar que também acaba se interessando por ele, mesmo sem saber quem ele é.
Tudo muda no dia em que Allegra recebe um email de Orfeu, que chega através da conta de um canal do Youtube chamado Os MosqueteiroZ. Curiosa, ela descobre que o canal é mantido por três youtubers famosos – Darta, Fred e Constantin – e que um deles deve ser Orfeu. O problema é que eles acabam de lançar um concurso de vídeos, com o lema Seja sua melhor versão, concurso este que as irmãs pretendem ganhar a qualquer custo, o que inclui, se necessário for, dar em cima dos youtubers.
A história é uma releitura bem moderna de Cinderella que troca os castelos de contos de fadas e os príncipes encantados, pelo mundo dos youtubers e mensagens eletrônicas trocadas entre admiradores secretos.

Allegra é uma garota apaixonada por Elvis, pelo estilo pin-up, que sonha em ser uma escritora enquanto trabalha editando os vídeos para o canal do youtube de suas irmãs postiças, as Be Twins, Mel e Pam. Allegra também é uma garota gorda, o que contribuí com suas inseguranças.

Relegada aos bastidores do youtube, vivenciando sozinha a saudade do pai e da mãe falecidos, sendo emocional e psicologicamente manipulada pela madrasta e, ainda, tratada como gato e sapato por ela e pelas filhas, Allegra não tem muitas alegrias na vida, a não ser quando recebe e-mails do seu admirador secreto, Orfeu, que conheceu através da sua conta no wattpad, a única rede social da garota.

Quando um dos e-mails de Orfeu chega através de uma conta de e-mail inesperada, Allegra fica em choque, sem saber como reagir. E ainda por cima, o famoso canal dos MosqueteiroZ está lançando um concurso que vai premiar um youtuber com cem mil reais e as pressões em casa só aumentam para que tudo saia perfeito no canal das Be Twins. Entre sua família postiça e a reviravolta que o seu relacionamento com Orfeu tomou, a vida de Allegra está prestes a virar de cabeça para baixo.
Um pontinho cor de abóbora acendeu nela uma fagulha de esperança: Talvez ainda houvesse uma chance, talvez sua fada madrinha estivesse olhando por ela em algum lugar no além.
Allegra - Antes do Play foi definitivamente uma das ideias mais originais de releituras de contos de fadas que eu já li, envolvendo esse mundo de novas celebridades do youtube, brincando com outros contos de fadas nos detalhes e acrescentando uma trilha sonora bem rockabilly ao fundo. A Andrea soube como construir uma história interessante e atual, que chama a atenção dos leitores já na sinopse.

Com uma escrita fluida e capítulos curtos, a história avançava em um ritmo bem bacana, sem se tornar enfadonha como algumas obras muitos detalhistas podem ser. Ela também construiu um mundo com personagens secundários bem legais e redondinhos, servindo ao seu propósito em apoiar a história da Allegra, como a melhor amiga, Verônica, uma garota espevitada e literalmente a fada madrinha da amiga; o tímido Paulo, que apesar de um pouco perdido no meio da história, ofereceu um apoio importante em um ponto específico da história, os garotos do MosqueteiroZ: o pegador Darta, o romântico Fred e o geek Constantin; as gêmeas Pam e Mel, estereótipos das patricinhas, que cumpriram muito bem o papel das irmãs postiças atormentadoras e até dona Maura, a madrasta, com sua maneira de manipular Allegra usando a culpa e a solidão da garota.

O único ponto, pra mim, que quebra o que poderia ter sido uma ótima história, tornando-a regular, é Allegra. Ela tem toda essa história de não gostar de se expor na internet -- daí o fato dela usar só o wattpad e com um pseudônimo -- ela tem várias inseguranças por ser gorda e também tem uma visão extremamente limitada sobre as pessoas que usam redes sociais.

Resenha: Allegra - Antes do Play
A Allegra pegou em dois pontos que sempre me perturbam: a representatividade do que é ser gorda e a representação da "geração redes sociais". Em vários momentos a impressão que Allegra -- e também seu admirador secreto -- passa(m) é de que ela é superior, mais inteligente ou "cult" ou profunda e real do que as pessoas que aderem as redes sociais, do que os youtubers. A impressão que eu tinha era que, para ela, o mundo todo era fútil, menos ela, que ia ser uma escritora e seria conhecida pelo que tem na cabeça, não pela aparência. Porque ela não estava se expondo na internet em selfies ou vídeos no youtube. Ela mal se dava o trabalho de responder ao whatsapp na maior parte do tempo e ela definitivamente não era o tipo de pessoa que se sentiria nua sem o celular.
As coisas nem sempre funcionavam como a gente esperava, as pessoas nem sempre eram exatamente aquilo que elas queriam que a gente acreditava que elas fossem.
O tempo inteiro eu fiquei esperando que, no fim, Allegra fosse perceber que não, que as pessoas são muito mais profundas do que aquilo que escolhem compartilhar online, que ninguém se resume a selfie no instagram, a atualização de status no facebook ou ao último vídeo que postou no youtube. Fiquei o livro inteiro esperando essa redenção da personagem, de perceber que a vida online é só uma reprodução daquilo que a gente quer que as pessoas vejam, mas que não é um o total do que somos. Allegra acreditava que as redes sociais eram cheias de pessoas fúteis e superficiais, como suas irmãs, e eu esperei muito pela virada desse jogo, só que isso nunca aconteceu. Fiquei bastante chateada, porque uma ou duas vezes, houve um puxão de orelha de outras personagens em cima da Allegra por causa desses suposições, mas ela mesma nunca chegou a admitir que, como na vida real, as redes digitais são formadas por um leque infinito de pessoas completamente diferentes uma das outras.

Além disso, fiquei um tanto quanto chateada pela questão da representatividade. Só recentemente eu fui capaz de encontrar livros com protagonistas gordas como Juntando os Pedaços, A Próxima Grande Sensação e Dumplin', então estava bem empolgada em poder adicionar mais uma protagonista gorda nessa minha pequena, porém crescente lista. Mas não foi bem isso que eu encontrei. Embora Allegra tenha sim suas inseguranças a respeito do corpo e discurse, aqui e ali, sobre as expectativas sociais para os corpos das mulheres, não é como se ela vivesse isso na história.

Seria utópico demais escrever sobre uma minoria marginalizada como se ela fosse o padrão socialmente vigente, é algo com que a gente convive todos os dias, que está sempre no fundo da nossa cabeça. Não dá para escrever sobre uma personagem gorda sem falar de gordofobia. E mais importante do que colocar seu personagem falando sobre isso, é permitir que ele mostre isso na história.

Embora Allegra definitivamente traga o assunto a tona, só consigo me lembrar de um momento onde isso é "mostrado" na história, em uma breve passagem entre Allegra e as meia-irmãs. De resto, todo mundo trata ela como se não existisse preconceito acerca do peso dela. Qualquer pessoa que é ou já foi gorda já ouviu coisas inconvenientes de estranhos, já recebeu olhares estranhos ao comer em público, já até ouviu coisas super chatas da família e dos amigos, transvestido de "me preocupo com você". Mas isso não foi o que aconteceu em Allegra.
A gente não precisa ter medo das palavras. O que não pode é usar isso como arma contra as pessoas.
Ela fala e fala sobre as expectativas e sobre o julgamento, mas isso nunca é mostrado. Ela não come em público e se sente mal quando alguém olha na direção dela, ela não conhece ninguém que tenta elogiá-la dizendo "você tem um rosto tão bonito", ela não recebe olhares tortos andando na rua, comprando roupas. É como se só um babaca muito grande fosse fazer um comentário sobre o seu corpo, mas nunca e jamais, sei lá, a sua avó. Ao colocar Allegra falando sobre esses problemas, mas não mostrando eles, parece que é tudo paranoia da cabeça dela, porque ela vive em um mundo onde até fotógrafos de moda que acabaram de conhece-la acham ela linda e insistem em tirar fotos suas.

Olhando Allegra eu não me senti representada e era fácil esquecer que ela era uma garota gorda, vivendo no mesmo mundo que eu -- e isso não é exatamente um elogio, não em uma história que se propõe a discutir o assunto.


Resenha: Allegra - Antes do Play

Eu também esperava que essa pegada mais moderna fizesse de Allegra uma personagem mais dona de si do que a própria Cinderela, mas ela é tão submissa quanto. Não se impõe a madrasta, não defende a si mesma e absolutamente 99% das coisas que dão certo na vida dela é porque a Verônica foi lá e fez -- e o outro 1% é porque o Orfeu foi lá e fez. Ela é descrita vez e outra como uma pessoa delicada e gentil, e eu vejo essa passividade dela como uma forma de reforçar isso -- embora seja legal relembrar que você não precisa ser um capacho para ser gentil e delicada e sensível, basicamente a poesia ambulante que a narrativa tenta torná-la.

No mais, a história continua sendo uma pegada moderna e interessante de um clássico, que foge as reinterpretações que vem saturando o mundo literário nos últimos anos. Foi divertido acompanhar a forma como a Andrea Evaristo modernizou todos os passos da história, com um carro laranja para a carruagem de abóbora e uma premiação do youtube no lugar de um baile real.

Os detalhes que ela colocou na história foram bem pensados, bem posicionados, e fizeram uma grande diferença para a construção de todo o conjunto, assim como os personagens secundários, que eram bem delineados e serviram a seus propósitos sem divergirem da história ou tomarem espaço da protagonista -- embora, as vezes, eu queria que tivessem feito isso.

Allegra - Antes do Play é uma leitura jovem, moderna e rápida, que poderia ter aquecido o coração com alguns acertos aqui e ali.

Título original: Allegra - Antes do Play
Autora: Andrea Evaristo
Editora: Indie
Gênero: YA
Nota: 2,5

Saiba Mais: Skoob  |  Amazon

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COMENTÁRIOS

8 comentários:

  1. Ameeei a resenha, já quero ler :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Monyque!

      Espero que você tenha mais sorte com ele do que eu tive :D

      bjs

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  2. Oi, Bianca!
    Nossa, que bad que o livro não foi bom assim pra você. Realmente essa releitura é um tanto original, mas esses pontos negativos fazem a gente meio que desistir..
    Beijos
    Balaio de Babados
    Concorra ao livro Depois do Fim autografado

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    1. Oi, Luiza!

      Não quero dizer para você não ler, porque as pessoas podem interpretar de formas diferentes ou terem conceitos diferentes que esperam de releituras, mas né, se as minhas ressalvas te deixam com uma pé atrás, talvez melhor.

      bjs

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  3. Oi Bibs,
    Acho que tenho esse no Kindle e é a primeira resenha que leio sobre. Adorei conhecer mais da história, mesmo com suas ressalvas.
    Acho bacana ela ter usado parte do frenesi atual, envolvendo a internet, o que seria bom pra testar o emocional dela sobre a aparência e gerar uma boa discussão pra representatividade. Darei uma chance assim que puder. Ótima resenha.

    tenha um ótimo final de semana
    Nana - Canto Cultzíneo

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    1. Oi, Nana!
      Eu amei muito ela ter usado os youtubers. Querendo ou não é uma "profissão de agora" e fica bem diferente do que o povo tem aprontado em reescritas de clássicos.

      bjs

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  4. Oi, Bi

    Que pena esse lance da representatividade não ter sido tão bem trabalhada. Entendi a sua frustração porque eu fui uma adolescente gorda que chegou aos 97 kilos e cansaca de escutar essa mesma frase "você é tão bonita de rosto..." e aquilo me feria demais!
    É um ponto que, se bem desenvolvido, renderia um arco bacana na história.
    Enfim... que pena que houve essas ressalvas.

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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    1. Oi, Tamires!

      Né? Eu estrei em uma vibe que li alguns livros com protagonistas gordas seguidos e me senti muito representada, menos pela Allegra. Eu senti que a narrativa não queria tornar o peso dela um problema, mas como no "mundo real" peso É um problema, é preciso falar e mostrar pra poder empoderar, né? Eu só fui me aceitar muito mais tarde e isso não quer dizer que a gente ainda não tem inseguranças, achei que faltou um pouco mais disso.
      Enfim, indo sem essa expectativa, é uma releitura interessante.

      bjs

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