Skeeter #10: Autores, Vamos Falar de Representatividade? - Queria Estar Lendo

Skeeter #10: Autores, Vamos Falar de Representatividade?

Autores, Vamos Falar de Representatividade?

Hoje eu queria convidar todo mundo, mas em especial os autores, para falarmos de representatividade na literatura e no mercado editorial. Esse texto é algo que está martelando na minha cabeça já tem um tempo, porque é um tema que sempre me deixa agitada quando estamos em datas de orguho LGBT+ ou dia da consciência negra, por exemplo.

Mas especificamente, o que tem feito com que o assunto não deixe a minha cabeça foi uma treta que rolou no twitter entre uma autora norte-americana e alguns usuários do TT. Literalmente, o texto que ela postou foi esse que eu traduzi abaixo, e vou deixar esse print aqui porque ela já apagou o tweet:
"Quando começamos a comprometer a vida real para que nossos livros fossem 'diversos'? O mundo real é diverso, sim, mas nem todo lugar é. Por exemplo, se eu estivesse escrevendo um livro que se passasse na minha cidade natal NÃO SERIA MUITO DIVERSO. E isso não faz dele ruim/racista/machista. VIDA REAL NÃO É SEMPRE DIVERSA. O mundo está cheio de pessoas lindas de raças/etnias/histórias diferentes e eu amo todo mundo. Mas eu não encontro todo mundo no meu pequeno espaço. Então, dependendo da ambientação do seu livro, DIVERSIDADE PODE NÃO SER REALISTA. Eu só queria que a gente parasse de querer ser 'socialmente correto' e escrevesse livros que realmente se aplicam a vida real e realmente refletisse o tipo de coisa que a gente encontra na vida real. DIVERSIDADE É BOM, MAS TAMBÉM NÃO É REALISTA ALGUMAS VEZES.  E, como uma escritora, eu só quero escrever livros que façam sentido."
Autores, Vamos Falar de Representatividade?
"Posso ser controversa por um minuto?" NÃO PODE NÃO. O pior de tudo
é que ela dá aulas sobre escrita criativa. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.
Meu leva @ deusa
Cansei de ler gente falando que "escolhe livro pela história e não pela etnia dos personagens/autores" ou que a aparência física, o gênero e a sexualidade não importa. Porque realmente importa. Não para se contar uma boa história (embora a diversidade sempre enriqueça uma história), mas importa porque por séculos não fomos representados, se muito através de estereótipos, e entrar no mercado literário mainstream com protagonistas que fogem o padrão é difícil. Mais difícil ainda quando os autores não são homens brancos.

Se você nunca leu autores negros, livros escritos por mulheres ou membros da comunidade LGBT+, por exemplo, não é porque eles não existem ou não são bons o suficiente para chegarem na mainstream, é porque eles precisam trabalhar o dobro ou mais para terem suas histórias levadas a sério - e muitas vezes, quando conseguem romper essa barreira, ainda são colocados em literatura de nicho.

Então, estou aqui mesmo porque, depois desse tweet e de todas as respostas que li, duas coisas ficaram bem claras para mim, e eu gostaria de colocar isso para fora antes que me consuma por completo.

1. Será que a sua experiência pessoal é mesmo toda branca e heteronormativa?

Primeiramente fora Temer vale ressaltar que, se você realmente acredita nisso, você é de duas uma (ou ambas):

a) Desonesto;
b) Ingênuo.

Não existe no mundo uma cidade onde não exista uma comunidade LGBT+ e muito dificilmente, em uma mundo globalizado como o nosso, a cidade inteira vai ser só de brancos. Vão existir pessoas com necessidades especiais, pessoas gordas, pessoas com distúrbios psicológicos, vícios em drogas lícitas ou ilícitas. Negar isso é fazer parte do grupo A. O mundo é vasto e variado, e negar isso é desonesto.

Porém, se você realmente acredita que ele é preto no branco porque o seu círculo pessoal é tão limitado assim, então você faz parte do B, e peço para que, por favor, você pare de escrever por uma ou duas semanas, saia de casa e conheça gente nova, lugares novos. Ou ao menos navegue na internet e já vai perceber que é bem provável que você conheça várias pessoas que pertencem a grupos socialmente minoritários.

Se você não conhece pessoas que fazem parte de alguma minoria, qualquer que seja ela, você não está olhando bem para as pessoas a sua volta. Só porque você não enxerga elas, não quer dizer que elas não existam. Se você não conhece nenhum gay, por exemplo, talvez você não seja uma pessoa receptiva o suficiente para que as pessoas se sintam confortáveis em contar algo do tipo para você, porque escreve o que eu tô dizendo, mesmo que tenha sido apenas um colega de classe/trabalho, você já conheceu alguém gay. Ou com depressão. Gordo... Não enxergar esses grupos não quer dizer que eles não existem.

Expandir seus horizontes é essencial para que você possa escrever uma história crível e verossímil. Não há nada pior do que pegar um romance ou novela contemporânea, que se dispõe a falar de dramas e vidas reais, e descobrir que ele é um show de personagens brancos, padrões e héteros. É tipo comer arroz com arroz e molho de arroz. Sem graça, né?

Mesmo quando a gente parte para o lado da fantasia e do terror, existem diversos elementos que os autores usam para criar uma ligação entre o universo inventado e os leitores, para gerar identificação e também tornar o ambiente mais fácil de ser assimilado. Então escrever fora do "mundo real" não é desculpa para não incluir representatividade ou discutir situações atuais em forma de alegoria.

Personagens diversificados dão cor e tom e ritmo novos para a histórias, eles adicionam densidade nos conflitos e geram empatia com os leitores que conseguem se enxergar no lugar deles. O que nos leva ao segundo ponto...

2. Você não precisa escrever um livro com representatividade se não quiser, mas não vai ser culpa do "mercado editorial" se ele não vender.

É claro que você não é obrigado a escrever um livro com minorias, se não quiser. Claro que você não precisa de uma heroína gorda, ou de um mocinho cadeirante, ou de uma história focada na amizade entre uma garota negra lésbica e uma asiática assexual arromântica. Você pode sim escrever sobre o que quiser.

Mas não tem o direito de acusar o "mercado editorial" de recusar seu trabalho em prol de um onde a representatividade é evidente porque "é o que está na moda". Uma das primeiras coisas que aprendemos na faculdade de publicidade é que nós (publicitários, marketeiros, etc) não mandamos no público, eles que mandam na gente. O mercado se adapta as exigências das massas e, se hoje em dia, as editoras estão dando foco e destaque a livros representativos, é porque o público quer isso.

Não fique você aí achando que as editoras, de forma coletiva, se importam muito com a mensagem que passam. De forma individual pode até ser, mas de forma coletiva elas são empresas que visam o lucro, independente da qualidade do produto - prova disso são as dezenas de livros que romantizam abusos sendo lançados todos os anos. Elas estão dando o que o público quer.

Por tanto, se o seu livro branco, padrão e heteronormativo não vende, não é porque as editoras não querem, é porque o público quer cada vez mais se enxergar nos personagens e nas histórias que consomem e pouquíssimos encaixam-se com perfeição no padrão batido. Eu, por exemplo, dou prioridade para livros escritos por mulheres e histórias com protagonistas gordas, porque me sinto representada. Os leitores estão cansados do padrão de perfeição estilo hollywood.

Além do que, quando a gente fala de se ver representados nos livros, não é com o melhor amigo/a gay/negro/gordo/trans... É com protagonismo. Precisamos de mais histórias que contem as dificuldades pertinentes a minorias e também precisamos de mais histórias - especialmente em fantasia, sci-fi, horror, não só no nicho contemporâneo - onde o traço minoritário do protagonista não seja o único ponto relevante para a história, como uma fantasia onde quem salva o dia é uma garota negra, ou a piloto da nave que vai salvar o mundo seja uma mulher gorda, ou a caça fantasma seja uma cientista trans ou, ainda, o casal gay que organiza todo um movimento para, sei lá, salvar os ursos polares. Onde a característica minoritária seja parte de quem é a personagem, mas não toda a sua história.

E se você de fato escolhe livros pela história, e não pela etnia dos autores, ou quer escrever histórias críveis e incríveis independente da forma física do personagem, então porque não substituir a protagonista ruiva e tímida e petit por uma negra e alta e com um afro de dar inveja? Se, de fato, o que importa é a história, não existe problema em se adaptar ao mercado, né? Se característica físicas são tão sem importância....

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COMENTÁRIOS

7 comentários:

  1. Oi Bibs!
    Que post maravilhoso! Falou tudo e mais um pouco.
    Eu cansei de ler livros com personagens estereotipados, são geralmente brancos, magros, sexy e todos babam por eles quando passam.
    Adoro ler histórias com personagens que retratam alguma minoria, seja LGBT, negros, orientais (acho que li 2 livros com personagens orientais até hoje), que retratam alguma realidade horrenda, como violência doméstica, bullying, depressão e outros transtornos, racismo, e ver como esses personagens lidam com as situações diárias.
    Essas histórias são as que mais me comovem, porque sinto empatia e tento me colocar na posição deles e reflito se iria sentir e agir de maneira igual ou diferente.
    Beijos

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  2. Oi, Bibs.

    A autora foi muito infeliz em sua colocação.

    É preciso que os autores dêem mais espaço e insiram em suas histórias, personagens fora do padrão, no qual o grande público de leitores não estão acostumados a ver, e que também uma grande parte gostaria de ver.

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  3. Olá
    Eu adoro ler posts que falam sobre representatividade na literatura. Pra mim é complicado falar sobre o tema. Sou branca, com descendência europeia, criada em família tradicional (mas eu fujo um pouco da tradicionalidade). Vivo um relacionamento hétero normativo e nunca fui discriminada pela cor de minha pele, talvez um pouco por ser mulher e mãe em período integral por escolha, mas só.
    Sempre que possível eu busco ler livros com personagens que fujam do padrão branco, magros, héteros. Costumam ser leituras muito boas. Infelizmente a população não encara essas histórias muito bem, o que causa a pouca venda dos exemplares. O que me conforta é ver, cada vez mais, em comunidades leitoras a discussão e indicações de livros "diferenciado".

    Vidas em Preto e Branco

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  4. Oi Bianca!
    Amei o post, com certeza acho nada a ver as pessoas não lerem os livros ou acharem inferior pela etnia, preferência sexual, ou algo do gênero. Ultimamente estou lendo bastante livros com diversidades e muitas vezes eu amo muito mais do que aquele livro de sempre, com os mesmos personagens e não tanta coisa a acrescentar.
    Que infeliz esse twitter da autora, até ela percebeu quando apagou.
    O pior também são os comentários, muitas vezes ofensivo. Realmente é uma lástima.

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  5. Adorei esse seu post muitas verdades que você disse e realmente tem vários comentários ofensivos que irritam e ainda não acredito que essa autora falou isso gente do céu e eu sempre odeio esses livros que têm padrões como mocinha os caucasianos sempre magros lindos e maravilhosos porque gente nem eu me encaixo nesse padrão e É decepcionante quando isso acontece

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  6. Oi Bibs!
    É estranho ainda ver pessoas que deixam de ler livros por preconceito, flam q não mas se vc for ver é bem isso...
    Gostei mto o post!!
    Bjs!

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  7. Gostei do texto, é uma forma dos autores se conscientizarem sobre o que escrevem e o público que querem atrair. Eu particularmente gosto do livro pela história, não pelos personagens. Recentemente li um livro de ficção que tinha um casal de lésbicas e a história fluiu de uma forma muito boa, o relacionamento delas não atrapalhou em nada no andamento da trama!!

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