Resenha: O feminismo é para todo mundo

  • 09:00
  • 22 de fev. de 2019
  • Resenha: O feminismo é para todo mundo

    O feminismo é para todo mundo foi um dos últimos lançamentos da editora Rosa dos Tempos - que cedeu este exemplar para resenha; escrito pela aclamada feminista negra bell hooks, a obra explora diversas camadas da história e da atualidade do movimento para servir de incentivo à se juntar a ele.

    Sinopse: O feminismo sob a visão de uma das mais importantes feministas negras da atualidade. Eleita uma das principais intelectuais norte-americanas, pela revista Atlantic Monthly, e uma das 100 Pessoas Visionárias que Podem Mudar Sua Vida, pela revista Utne Reader, a aclamada feminista negra bell hooks nos apresenta, nesta acessível cartilha, a natureza do feminismo e seu compromisso contra sexismo, exploração sexista e qualquer forma de opressão. Com peculiar clareza e franqueza, hooks incentiva leitores a descobrir como o feminismo pode tocar e mudar, para melhor, a vida de todo mundo. Homens, mulheres, crianças, pessoas de todos os gêneros, jovens e adultos: todos podem educar e ser educados para o feminismo. Apenas assim poderemos construir uma sociedade com mais amor e justiça. O livro apresenta uma visão original sobre políticas feministas, direitos reprodutivos, beleza, luta de classes feminista, feminismo global, trabalho, raça e gênero e o fim da violência. Além disso, esclarece sobre temas como educação feminista para uma consciência crítica, masculinidade feminista, maternagem e paternagem feministas, casamento e companheirismo libertadores, política sexual feminista, lesbianidade e feminismo, amor feminista, espiritualidade feminista e o feminismo visionário.

    A promessa da obra é de que se trata de uma narrativa mais simples e acessível justamente por um dos pontos abordados pela autora - de que o feminismo é, muitas vezes, acadêmico e rebuscado demais, dificultando seu entendimento a quem tem menos acesso a esse tipo de estudo teórico. Em resumo, se trata de um livro rápido, de 176 páginas, sobre como o feminismo vem evoluindo e se desenvolvendo dentro da sociedade contemporânea, contando com relatos da autora desde os anos 70 até o que temos hoje - com algumas ressalvas.

    Se qualquer mulher sentir que precisa de qualquer coisa além de si para legitimar e validar sua existência, ela já estará abrindo mão de seu poder de se autodefinir, de seu protagonismo.

    Falando com sinceridade, não achei o livro tão "básico e de fácil entendimento" como o prometido. A autora usa de termos mais acadêmicos que, se colocados nas mãos de uma pessoa com pouco acesso a estudos teóricos do tipo, não vai facilitar a aproximação dela com o movimento; não é uma narrativa difícil, longe disso, mas também não é da facilidade prometida logo no início.

    Outro ponto que me pegou e me deixou hmmm de maneira desgostosa foi como, não importava a problemática abordada, hooks achava um espaço para incluir o homens. E não me levem a mal (ou levem) mas eu não aguento tanta positividade e otimismo quando a gente sequer consegue fazer o feminismo alcançar todas as mulheres; a autora fazia parecer que os homens não eram um problema assim tão grande. Que eles, na verdade, "ficam perturbados pelo ódio e pelo medo de mulher e pela violência de homens contra mulheres", quando a maioria dos homens nem sequer ABRE A BOCA para falar contra uma piadinha machista que o amigo solta no bar, quiçá se indignar contra a violência que as mulheres sofrem.

    Resenha: O feminismo é para todo mundo

    Eu entendo os comentários dela sobre inclusão e sexismo, sobre ser uma coisa que atinge ambos os lados, sobre como homens também sofrem com o patriarcado. Mas, em seu discurso, fazia parecer que eles são tão vítimas quanto as mulheres e NÃO. Absolutamente não. "Acredito que, se soubessem mais sobre o feminismo, não teriam mais medo dele.". Eles sabem, amiga. Te garanto. E tem medo de perder os privilégios que o patriarcado garante; sinto muito, mas esse tipo de discurso positivo não funciona pra mim. O que me deixou revirando os olhos em alguns capítulos.

    O movimento feminista, principalmente o trabalho de ativistas negras visionárias, preparou o caminho para reconsiderarmos raça e racismo, o que teve impacto positivo em nossa sociedade como um todo.

    PORÉM TODAVIA ENTRETANTO, o motivo de a nota ainda ser boa tem a ver com as outras pautas levantadas pela hooks - e de maneira extremamente crítica e bem pertinente. Seus capítulos sobre raça e classe foram devastadoramente brilhantes. Ela explora a vivência da mulher negra dentro do feminismo e de como elas viveram - e ainda vivem - a invisibilidade por causa do protagonismo privilegiado das mulheres brancas; a luta muitas vezes mais árdua que as não-brancas tiveram que trilhar para se fazerem vistas e ouvidas, suas experiências dentro da sororidade prometida pelo movimento, sua luta contra o sexismo e pela liberdade. Todas as diferenças óbvias que fazem do feminismo uma questão que pede por mais do que igualdade de gênero são ricamente comentadas pela estudiosa.

    Através da conscientização, mulheres adquiriram força para desafiar o poder patriarcal no trabalho e em casa.

    A autora também puxa assuntos que eu, particularmente, ainda não tinha lido em livros do tipo, como a misoginia internalizada nas mulheres e como isso afeta sua vivência; como a violência patriarcal atinge não só mulheres, mas crianças - e muitas vezes vem das próprias mulheres já condicionadas a aceitar que a criação de um filho tem a ver com punições físicas. Como isso cria uma teia de violência e ajuda a criar meninos e meninas com o mesmo pensamento problemático a respeito da postura em relação ao mundo.

    Resenha: O feminismo é para todo mundo

    O que a hooks mais pede, dentro dos seus discursos, é um olhar mais pacífico e amoroso. Um olhar de sororidade, de apoio, de compaixão; ela fala sobre o feminismo como um movimento que abraça as diversas causas - apesar de não citar a luta das mulheres trans (o que nem me surpreende, porque elas são constantemente apagadas dos discursos, mas me decepcionou um bocado e foi outro dos motivos para eu tirar a estrela da nota final) -, que pede o fim do sexismo porque a nocividade que ele traz para a sociedade como um todo é um dos problemas de termos tanta disparidade entre a vivência dos gêneros.

    "...precisamos de estudos feministas baseados na comunidade."

    Em meio a alguns escorregões, O feminismo é para todo mundo se mostra uma leitura interessante para quem quer conhecer mais sobre as lutas - a autora menciona pontos muito pertinentes sobre violência patriarcal, sobre as dificuldades das mulheres negras de se inserir no feminismo; fala sobre espiritualidade e sobre as diferenças de classe de maneira crítica e bem fundamentada. Uma leitura rápida que levanta bons pontos e que com certeza vale a pena ser lida.

    Título original: Feminism is for everybody
    Autora: bell hooks
    Editora: Rosa dos Tempos
    Gênero: Não-ficção
    Nota: 4
    Skoob


    GOSTOU DO LIVRO E QUER AJUDAR A MANTER O BLOG? ENTÃO COMPRE PELOS NOSSOS LINKS!

    Amazon

    1. Não conhecia essa obra, mas me interesso muito pelo tema.

      Acho difícil que um livro consiga abordar todos os problemas relacionados a gênero, vertentes feministas, sociedade patriarcal e incluir todos os assuntos importantes.

      Acredito que se é de fácil entendimento e suscita o interesse em ler mais sobre a temática já é válido.

      https://naoseavexe.blogspot.com

      ResponderExcluir
    2. Minha namorada é feminista e me ensinou muito sobre o assunto. Esse livro parece ser ótimo, vou tentar comprar pra ela. Faria questão de ler junto!

      http://www.dosedeestrela.com.br/

      ResponderExcluir
    3. Olá, Denise.
      O livro parece ser interessante. Mesmo com isso dela querer comparar o sofrimento das mulheres e dos homens, mas isso nao é exclusividade dela porque ja vi isso em outros livros que abordam o assunto. Infelizmente ainda temos muitas pessoas que não entendem o que é feminismo. Não sei se você viu, mas um dia desses uma pessoa fez uma postagem falando do porque não é feminista e vi muitas blogueiras que comentam aqui e no meu blog concordando com ela. Triste isso.

      Prefácio

      ResponderExcluir
    4. Oi, Nizz!
      Apesar das ressalvas, parece ser um bom livro para quem quer se aprofundar mais no assunto. Com certeza daria de presente para algumas pessoas da família.
      Beijos
      Balaio de Babados

      ResponderExcluir
    5. Oi Denise, tudo bem? Eu achei que fosse um livro de mais fácil entendimento mesmo, uma pena nao ser assim. Uma pena tb a abordagem não ter te agradado tanto, ma ao menos de modo geral foi uma boa leitura!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

      ResponderExcluir
    6. Oi Denise, gostei bastante do enredo do livro.
      Apesar de não ler muito o gênero, mas quero abrangi meu mundo literário.
      Mas essa questão de você~e pontuou, sobre a escrita da autora poderia sere um problema para mim também.

      Até mais!

      www.depoisdaleitura.com.br

      ResponderExcluir
    7. Oi Denise, tudo bem?
      Amei a resenha sincera. E concordo com você que é necessário muito cuidado do trazer o homem como "tão vítima quanto". Até porque... eles não são haha. :P
      Mas que bacana que ela fala sobre feminismo negro, esse é um tema que precisa ganhar mais espaço nos debates.
      Beijos,

      Priih
      Infinitas Vidas

      ResponderExcluir

    Deixe seu comentário, sua opinião é sempre muito bem-vinda!

    Tecnologia do Blogger.