Resenha: Dias Perfeitos


A resenha de hoje fica por conta de Dias Perfeitos, um romance policial escrito por Raphael Montes. Conheci o autor antes de ouvir falar do livro, devido ao sucesso que o mesmo estava fazendo. Afinal, não é todo dia que um autor nacional que esta publicando seu segundo livro é entrevistado no Programa do Jô.
Sinopse: Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.
Comprei o livro na Bienal de São Paulo, mais por indicação da Denise do que por qualquer outra coisa. A verdade é que eu queria comprar, mas na loucura da Bienal eu acabei esquecendo totalmente. Imaginem o quão feliz eu fiquei quando me deparei com o Raphael no estande da Novo Século!  Na verdade, quem viu ele foi a Denise (novamente!), e o diálogo foi mais ou menos assim:

Denise: Olha o Raphael ali, Eduarda!
Eu: Onde?
Denise:  Bem ali, na tua frente.
Eu: Eu não tô vendo, quem é?
Denise: Meu Deus, ali, mulher! *gritando*
Eu: *soando desesperada* Eu não sei como ele é!
Denise: *abre o meu livro e mostra a foto do Raphael* Ali, tá vendo agora? *apontando pra ele* 
Eu: Aimeudeus, vamos lá! *pulando* 

Em minha defesa, devo dizer que eu realmente não lembrava de como o Raphael era e eu não esperava que ele estivesse por ali, no estande da Novo Século conversando com o Renan Carvalho, já que a editora dele é a Companhia das Letras. Enfim, o importante é que eu consegui um autógrafo e uma foto! Embora, eu deva dizer que hoje, depois de ter lido Dias Perfeitos, começo a me perguntar se isso foi uma boa ideia. O motivo?
"Os escritores de ficção colocam muito de si nos textos.""Ele entendia que os escritores escrevem sobre aquilo que conhecem. Por isso, não cogitava escrever ficção."
Dias Perfeitos conta a história de Téo, um estudante de medicina que mora em um apartamento com a mãe paraplégica de quem ele tem de tomar conta. Logo no início já dá para notar que Téo não é uma pessoa normal, ele não é dado a amizades, sendo Gertrudes, um cadáver da aula de anatomia, sua única amiga. Ele também não tem muito apego à mãe, a quem trata com carinho e gentileza, pois é assim que um filho deve tratar uma mãe, mas é perceptível a forma como ele a vê como um estorvo, um peso morto. Téo leva uma vida regrada, agindo sempre como as pessoas esperam que ele aja. Até que, em um churrasco, ele conhece Clarice.


Clarice é o extremo oposto de Téo, com suas unhas pintadas uma de cada cor, apenas pelo prazer de ser diferente, seu linguajar e sua forma direta e aberta de falar, a garota consegue o que ninguém até então havia conseguido: chamar a atenção de Téo.

Você não come, não fuma e quase não bebe... Téo, você trepa?
A curiosidade por um ser tão singular logo é elevada a algo mais, e Téo precisa voltar a ver Clarice. Sua rotina começa a ser preenchida por pensamentos sobre Clarice, até o momento em que só existe ela em sua mente. Passando de stalker a creepy stalker em questão de segundos, seu desejo por Clarice torna-se obsessão.

Ele amava Clarice, admitiu. Precisava ser amado.

Quando sua declaração de amor parece não convencer Clarice, e as coisas fogem do seu controle, Téo tem uma atitude inesperada: espanca Clarice com o livro que havia lhe dado de presente. Com o corpo inconsciente da amada em mãos e sem saber o que fazer, ele resolve tornar aquilo que seria um problema em uma solução. Clarice pretendia fazer uma viagem à Teresópolis para finalizar a escrita de seu roteiro, nada mais justo e romântico que ele fizesse essa viagem com ela e aproveitasse esse tempo para fazê-la entender algo que, para ele, era mais do que óbvio: eles poderiam ser muito felizes juntos.

A mente de Téo é um lugar muito interessante, adorei poder ler o livro sobre o ponto de vista dele. Raphael soube escrever de uma forma muito clara e objetiva, de modo que fosse impossível parar de ler. A forma doente como Téo pensa e age, dopando Clarice boa parte do tempo, colocando-a em uma mala para poder transporta-la e a deixando amarrada e amordaçada, e a maneira crua como Raphael narra tudo isso, te coloca em uma posição onde você sabe o quão errado e absurdo é tudo aquilo, mas você não consegue desgrudar os olhos do livro.



Com o decorrer da história vamos acompanhando a relação dos dois e as reações de Clarice, parte essa que muito me interessou. Afinal, quem nunca ao ler ou assistir algo se colocou no lugar da vítima, normalmente a chamando de burra por agir daquela forma, e disse como se comportaria em uma situação dessas? Pois bem, Dias Perfeitos tem muito disso, ao meu ver. O livro é sobre um psicopata sequestrando uma garota e tentando fazer com que ela se apaixone, Téo pode até mesmo ser o protagonista, mas Clarice é parte essencial da história, foi um prazer poder desaprovar algumas de suas atitudes e parabenizar outras tantas. Em alguns momentos, confesso, me vi em determinadas reações que ela teve.
"Sei que não é culpa dela. Sou uma pessoa do mundo. Ascendente em Sagitário. Não adianta tentar me controlar. Não tenho dono, sabe? E nunca vou ter." (...) "Aquela atitude acionou uma cadeia de pensamentos, bons e ruins, e o levou a uma verdade cáustica: ele jamais poderia deixar Clarice partir." 
O que eu mais gostei do livro, além de ter achado toda a ideia central genial e amado a escrita do Raphael, foi o fato de que, ainda que fosse extremamente doentio e nojento tudo que ele estivesse fazendo, Téo conseguia racionalizar todas as suas atitudes de tal maneira que as fizesse soar como normais. E, mais do que isso, a fé convicta que ele tinha no método que estava usando. A maneira como ele tinha certeza que ele e Clarice deveriam ficar juntos e que, se ela se permitisse viver o momento, ela acabaria por perceber o mesmo. Ainda que a tivesse sequestrado e lhe feito coisas horríveis, Téo acreditava cegamente que havia uma chance para os dois.
Clarice precisava ser protegida de si mesma. Téo entendia que ela estivesse sofrendo, mas não estava nem um pouco arrependido do que tinha feito. No fim das contas, fora para o bem dela.
Quanto ao final, preciso dizer que simplesmente amei. O Raphael fala diversas vezes sobre final aberto durante o livro, e como ele usa muita intertextualidade achei que poderiam ser dicas do que estava por vir. Acreditei que ele estivesse preparando o leitor para um possível final. Mas eu estava enganada, o final não foi aberto, bem pelo contrário. Foi um final fechado com maestria, exatamente como um livro desse calibre merecia.
"Gosto de finais abertos", ele disse. "Mas não sei se funciona nesse caso."
Para finalizar esta resenha que já esta mais extensa que o pretendido, deixo aqui algumas anotações que fui fazendo no decorrer da leitura. São elas a questão da intertextualidade, como dito acima, e o quanto foi prazeroso fazer essas pequenas conexões. A questão da capa, que eu sempre quis entender o que tinha a ver com o livro, e que é muito bem explicada no decorrer da histórias. O Hotel Fazenda gerenciado por anões e as referências feitas à Branca de Neve, Clarice sendo praticamente a Bela Adormecida, um motel das Maravilhas com um funcionário que diz estar muito atrasado, assim como uma mulher chamada Sininho na Praia do Nunca (fui só eu que fiz a conexão com Peter Pan e a Terra do Nunca?), e mais alguns detalhes, como o da mariposa, que não posso dar mais detalhes por causa dos spoilers. O fato é que Raphael fez um livro cheio de pequenos easter eggs que te deixarão ainda mais conectado à história e farão com que seja impossível parar de ler. É feito até mesmo uma referência a Suicidas, seu romance de estréia (que eu ainda não li mas que com certeza já esta na minha lista).

Enfim, acredito que tenha ficado mais do que óbvio que a leitura de Dias Perfeitos, feita em um único dia, foi extremamente prazerosa para mim. Raphael Montes entrou na minha lista de autores nacionais favoritos, onde esta sentado ao lado do Eduardo Spohr (), e é um nome que eu pretendo acompanhar muito de perto. Recomendo Dias Perfeitos com todas as minhas forças, e já digo que, quem quiser vir conversar comigo sobre o livro, é só chamar. Nada me faria mais feliz do que ficar dissecando essa linda história de amor, haha.

Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Nota: 5

Saiba mais: Skoob | Saraiva | Submarino | Americanas | Buscapé

* O livro será adaptado para o cinema, com direção de Daniel Filho

* O texto da primeira imagem é um trecho da música Macaé, de Clarice Falcão.

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COMENTÁRIOS

5 comentários:

  1. Eita. Eu já tava com vontade de ler esse livro, agora então...
    Muito boa resenha, aliás.
    Sinto que vou sentir pena de todos os personagens na mesma proporção em que vou ter medo do Téo e.e POAKSPAOKSAPOKSAPOSK - n

    Ok, vai voltar pra minha lista de livros a comprar logo <3 POAKSAPOKSAPOSK

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  2. Olá,
    Eu morro de vontade de ler esse livro nacional que todos elogiam tanto, apesar dele não fazer muito meu estilo literário é uma obra que sempre me desperta interesse. E essa capa linda?!
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. Que resenha mais completa, menina!! E conseguiu transmitir tudo que senti muito mais do que a própria resenha que fiz pra esse livro hahahaha Esse livro é demaaais! É exatamente o que você falou: nós sabemos o quão absurdo e sem noção é tudo o que Téo faz, mas não tem como desgrudar do livro, você quer devorar a história cada vez mais. Eu até me senti encantada com toda aquela loucura, vai entender, todo mundo tem um lado psico né UHAUHA E AQUELE FINAAAL! Gente do céu, te juro que eu esperava tudo, menos aquilo. Nem tinha me passado pela cabeça! Foi genial, não tinha como ele ter feito algo melhor pra finalizar uma obra já magnífica ao mesmo que assustadora <33

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br
    Tem resenha nova no blog de "Seis anos depois", vem conferir!

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  4. Olá, gostei muito da sua resenha. É um livro bem interessante, ainda não li, mas talvez um dia. #medodoautor rsrsrs

    petalasdeliberdade.blogspot.com

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  5. Olá, srta. fofinha. <3 SHUASAHUHASUHUAS
    Caralho! Amei a resenha.
    O livro já estava na minha lista aqui, mas sabe como é, né? Uma lista imensa e o dinheiro lá em baixo. hahahaha
    E EU RI (DE VERDADE), ELE ESPANCAR A MOÇA COM UM LIVRO O_O SAHUUAHASHUSUAHASUS QUE LOUCURA.
    Quero ler, MESMO.
    Em breve compro.
    Enfim, ótima resenha (já falei isso, mas ratifico again).
    Beijos. <3

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