Resenha: Uma Loucura Discreta


Uma Loucura Discreta, elogiado livro vencedor do Edgar Awards 2016, tem muito de uma trama fascinante e arrebatadora.

Sinopse: Boston, 1890. Asilo Psiquiátrico Wayburne. Grace Mae vive um pesadelo: forçada a passar seus dias reclusa num manicômio, em meio a insanos de todo tipo, sobressaltada por gritos de horror a cada noite. Grace não é louca. Apenas não consegue esquecer os terríveis segredos de família. Terríveis o suficiente para calar sua voz – jamais ouvida por ninguém, a não ser ela mesma, dentro de sua mente brilhante. Mas, quando uma crise emocional violenta traz sua voz à tona, Grace é confinada em um porão escuro. É nesse momento em que ela conhece o dr. Thornhollow, um estudioso de psicologia criminal. Dona de um olhar aguçado e de uma memória prodigiosa, Grace passa a auxiliar o médico em investigações. Ambos escapam para uma instituição mais segura em Ohio, em busca de amizade e esperança. Mas a tranquilidade dura pouco: surge um assassino em série que ataca brutalmente jovens mulheres. Grace seguirá no encalço do criminoso, mesmo tendo de enfrentar seus próprios fantasmas. Em Uma Loucura Discreta, Mindy McGinnis explora com maestria narrativa a tênue linha entre sanidade e loucura, revelando o lado obscuro que existe em todos nós.
Grace foi internada em um hospício na cidade de Boston, em meados de 1890. Ela não é louca como a maioria das pessoas que está lá, mas carrega segredos perigosos, e isso faz dela uma ameaça. Sentenciada à escuridão e ao silêncio daquele lar de insanidade, Grace encontra sua salvação no anonimato - um doutor aceita ajudá-la a fugir dali se ela aceitar ajudá-lo com sua mente genial. Longe de tudo o que conhece, Grace confronta o mundo como ele realmente é: com suas sombras e loucuras discretas.

Quando eu vi esse livro pela primeira vez, pela capa e pela sinopse, imaginei se tratar de um novo conto de terror, algo parecido com as obras de Stephen King, muito provavelmente. Me enganei e estou muito feliz por isso!

- Você parou de aceitar um mundo que a tratou de maneira abominável. O que pode ser mais são do que isso?
Uma Loucura Discreta é quase um thriller policial, ambientado no finzinho do século dezenove. O desenvolvimento da história é através da protagonista, e a carga emocional e atormentadora dos segredos que ela carrega é o que tornam esse livro tão poderoso. Grace é sobrevivente de uma marca que dificilmente deixará sua memória, mas que ela aprendeu a esconder pelo bem da própria mente.

Grace aprendera havia muito tempo que os verdadeiros terrores deste mundo eram as outras pessoas.
A história te entrega um suspense arrebatador, com nuances de Do Inferno e Sherlock Holmes. Grace e o doutor Thornhollow - seu salvador e responsável por tirá-la de Boston, levando-a para longe e para o anonimato - formam uma dupla de investigadores responsáveis por entender crimes horrendos que vêm acontecendo na cidade. Grace e seu silêncio são inestimáveis para o doutor; ela é uma sombra e um fantasma para os olhos ao seu redor, mas a pessoa mais atenta e sagaz em meio a toda a multidão. Escondida em falta mudez, Grace consegue se passar por insana tanto quanto consegue enganar com sua sanidade. Ela é uma peça preciosa para os trabalhos de Thornhollow, e também para a própria superação.


Afinal, Grace fugiu de Boston para deixar o horror para trás, mas ela ainda tem contas a acertar com a família. A segurança da sua irmãzinha depende da sua coragem de confrontar o que ficou no passado.

- Às vezes, os lugares mais adoráveis abriam os piores monstros.
A maneira com que a autora destrincha essa história é fascinante e extremamente sutil, e por isso tão incrível. As informações estão ali, descaradas, mas desenvolvidas através de uma narrativa suave e elegante. Ela entrega os horrores de Grace com a mesma gentileza com que escreve seus sorrisos; fala sobre os fantasmas e dos terrores e dos pesadelos da protagonista com a mesma serenidade com que explica os casos policiais confrontados por ela. Essa foi, sem sombra de dúvidas, uma das melhores narrativas que já tive o prazer de ler, e um dos pontos altos do livro - todas as viradas de trama que ela constrói pegam você de surpresa, todos os momentos perturbadores deixam suas emoções devastadas.

- Eles empurram sua discreta loucura em nós, seu poder e sua dor, e nós nos apegamos às nossas verdades aqui na escuridão.
Além de Grace, as personagens femininas ao seu redor são de muita força - e loucura. Suas companheiras no novo hospital psiquiátrico são Nell e Elizabeth, e as interações entre as três foram a coisa mais preciosa que esse livro criou. A maioria das mulheres com quem Grace se encontra nos centros psiquiátricos não carregam a insanidade devastadora, aquela que coloca a pessoa e as pessoas à sua volta em risco, mas sim o que a sociedade considera insano, promíscuo, contrário às regras de boa conduta. É uma crítica óbvia e bastante presente na História, e cada cena entre elas era extremamente bem desenvolvida para criar essa ligação entre as personagens.


- Não há nada de errado em oferecer algo valioso do meu passado a alguém que é especial para mim no presente.
Enquanto elas criaram uma irmandade baseada em emoções e compreensões, Grace e Thornhollow formam uma dupla mais fria e nem por isso menos emocional - inclusive, claro, eu shippei. O doutor explica desde o início que onde Grace é o coração, ele é a mente, mas você vê essa certeza dele de que nada importa além do pensar e do saber se dissolver conforme se aproxima da Grace. Os dois interagiam como verdadeiros Sherlock e Watson para entender os crimes em Ohio, e eu me vi assistindo aos melhores episódios de séries policiais enquanto entendia o que estava acontecendo com as vítimas - e quem era o assassino.


- Penso que somos todos loucos. Mas alguns de nós simplesmente são mais discretos em relação a isso.
Outro personagem muito interessante foi o companheiro de cela de Grace lá em Boston, Falsteed. Ele não tem um rosto porque está sempre debaixo da penumbra de sua prisão, mas tem uma voz e uma presença acalentadoras. Ele compreende Grace e, apesar do passado horrendo, é uma das figuras mais gentis durante sua estadia ali. É Falsteed quem a apresenta ao doutor, entregando à Grace a oportunidade de escapar daquele terror. E é com Falsteed que a protagonista tem os melhores diálogos do livro; cheios de compreensão e de aceitação.

- É uma loucura tão discreta que pode caminhar livremente pelas ruas e ser aplaudida em determinadas rodas sociais, mas não deixa de ser loucura.
O incríveli nessa história é como cada personagem tem um pouquinho de loucura dentro de si - Grace e seus terrores, Nell e seu futuro, Elizabeth e seu barbante. Mesmo o doutor Thornhollow carrega um pouco do que ele trata em seus pacientes. A loucura está intrincada em cada um deles, e é muito importante observar isso para entender como ela é tão normal quanto a sanidade alegada como essencial pela sociedade.

A trama te prende do início ao fim - e que fim! As últimas 50 páginas foram de tirar o fôlego, tão bem amarradas ao resto da história que eu me vi devorando as páginas até encontrar a última delas e querer mais.


Esse livro abre caminho para um terror psicológico sutil, e o horror dentro deste livro é muito mais perturbador do que qualquer monstro ou sombra demoníaca que você possa pensar. O que aterroriza é o homem e a crueldade em sua loucura discreta.

Título original: A Madness so Discreet
Autora: Mindy McGinnis
Editora: Plataforma21
Gênero: Thriller 
Nota: 5 +

Saiba Mais: Skoob | Saraiva

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