Resenha: The Walking Dead - Declínio


Eu sei, eu tinha prometido que não continuaria a amar o universo de The Walking Dead, mas sabe como é. Vida de trouxa não te abandona nunca. Quando anunciaram o lançamento do quarto volume da série, pensei comigo mesma "ah, que saco, achei que tinha acabado tão bem no terceiro livro! Não quero não." Aí caí em tentação. E aconteceu de Declínio ser uma grata surpresa.


Sinopse: Renascida das cinzas de seu passado sombrio, Woodbury se torna um oásis de tranquilidade em meio à praga dos errantes. Mas, após o chocante fim do ex-tirano Phillip Blake, o Governador, Lilly Caul e seu grupo de sobreviventes deverão superar seu passado traumático. E, como sabemos, os mortos-vivos são o menor dos problemas para os habitantes desse inóspito universo.

Estamos de volta à Woodbury; à cidade pós-Governador. Agora que o tirano está morto, Lilly é a nova líder da comunidade. Aos tropeços, eles parecem estar começando a se reerguer. Por poucos capítulos, claro. Uma família perturbada por um segredo aparece em seus portões à procura de ajuda, uma super-horda atraída pela queda da prisão está prestes a cruzar a cidade e o que parece ser um culto comandando por um fanático religioso medonho vai trazer problemas para os moradores de Woodbury. Tudo isso bem desenvolvido pela escrita magistral de Jay Bonansinga.

A escrita do homem é uma coisa absurdamente fantástica, senhoras e senhores. Sou apaixonada pela maneira cruel e real e crua com que ele narra os fatos, como se as cenas estivessem acontecendo na minha realidade, na cidade vizinha à minha, logo ao lado de casa. Apesar de algumas personagens não serem das mais carismáticas - e aqui eu continuo citando a Lilly, que tinha tudo pra ser uma baita de uma sobrevivente impactante - Jay compensa com cenas intensas e momentos eletrizantes envolvendo os bons e velhos walkers.


Luto, tristeza e perda são abafados garganta abaixo até que uma dormência coletiva se instaure. Mas soldados ativos conhecem a verdade sob a mentira. Detetives de homicídios também. Enfermeiras de pronto-socorros, paramédicos - todos conhecem o segredinho sujo. Não fica nem um pouco mais fácil.

A primeira parte do livro é a consequência que vai levar até o momento impressionante do fim. Os recém-chegados em Woodbury têm uma aura estranha, principalmente a esposa de Calvin Dufree; alguma coisa em seus trejeitos, na maneira como se porta, dizem à Lilly que ela não está bem alocada no apocalipse. Com os três filhos e a mulher problemática, Calvin se mostra uma figura de pouco poder, muito submisso ao próprio medo. Mas não é o tipo de covarde legal e carismático, com quem você se liga instantaneamente, querendo protegê-lo. Não, Calvin é chato, só isso. Não me conquistou, tampouco me fez torcer pela sua sobrevivência. O fato de ele ficar recitando a Bíblia e o fim dos tempos mostrou que ele tentava, mas falhava em entender o novo mundo em que vivia. O romance dele com a Lilly foi forçado e, eu diria, desnecessário.



Fanatismo religioso já é um problema no mundo em que vivemos, quem dirá quando os mortos caminham pela Terra. O aparente simpático e gracioso reverendo Jeremiah esconde alguma coisa. Lilly está encantada demais com um novo morador da comunidade para notar - e aqui saliento como ela sempre é ofuscada pelo amor de um homem a ponto de não perceber que A) O GOVERNADOR TEM TORTURADO GENTE NA SUA CIDADE ENQUANTO VOCÊ RALA E ROLA COM UM MOLEQUE BONITÃO e B) O REVERENDO TEM ALGUMA MERDA ESCONDIDA NAQUELA BOLSA DELE MAS VOCÊ ESTÁ PREOCUPADA DEMAIS COM OS LÁBIOS DO RECÉM-CHEGADO PRA PERCEBER. A problemática de situações assim se repetindo com a Lilly é um erro que o Jay não conserta nunca, e eu meio que entendo, considerando o que TWD faz com as personagens femininas dele. Não, não tente defender, The Walking Dead é muito machista. Não é por colocar uma mulher fodástica matando zumbis com uma katana ou uma mulher de meia-idade sobrevivendo a abusos e se tornando uma guerreira que vai fazer sua série a epifania do feminismo.


O silêncio é insuportável. É um silêncio carregado, onipresente, primitivo - o silêncio do túmulo.

Bob teve grande destaque no desenvolvimento dessa trama. O sensato e solitário médico, traumatizado pelo passado e pelo presente, tem momentos grandiosos e ideias brilhantes, e é um dos poucos moradores sensatos que ainda reside em Woodbury. Eu gosto da irmandade que ele e a Lilly construíram entre si; o fato de ambos se respeitarem e se entenderem e confiarem plenamente um no outro. É Bob quem guia a líder para as melhores decisões, e quem a sacode quando percebe que Lilly está seguindo um caminho estúpido. Deus abençoe o Bob.


Para os sortudos, uma cicatriz se forma, e a passagem do tempo acumula mais e mais cicatrizes, até que a dor se torne simplesmente parte da constituição da pessoa, parte de que ele ou ela é - o sulco na madeira. Lilly sabe disso por experiência própria.


Com duas cenas climáticas bombásticas - ba tum tss - Declínio não tem esse nome à toa. Sem o Governador e sua tirania, Woodbury parecia prestes a caminhar para uma ascensão, mas o mundo ainda é um inferno e ainda há mais pessoas ruins do que boas nele. O importante na história é o fato de os sobreviventes continuarem lutando. A crença de que, independente do que está acontecendo lá fora, o que acontece com eles é o que importa. Se tem um culto religioso louco causando problemas ou uma família problemática acabando com a paz da cidade, pelo menos eles lutam. E sobrevivem.


Título: The Walking Dead - Descend
Autora: Jay Bonansinga e Robert Kirkman
Editora: Galera Record
Gênero: Apocalipse zumbi
Nota: 4

Saiba mais: Skoob | Buscapé | Extra |  Saraiva

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COMENTÁRIOS

3 comentários:

  1. Oii Denise, tudo bom?
    Até hoje tenho que criar vergonha na cara para ler e assistir The Walking Dead. Do jeito que você fala tão bem da história fiquei morrendo de vontade de começar a ler, mas tempo cade você?!
    Odeio machismo em, bem, qualquer lugar, mas também fiquei curiosa para saber como ele trata essa questão no livro e na série.
    Estante de uma Fangirl

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  2. Oi Denise,
    Eu só tenho o primeiro livro desses hahaha espero gostar.
    Eu gosto da série de tv, comecei a ler os quadrinhos mas acabo esquecendo de entrar no site haha

    Pode haver pontos machistas na série, mas tenho que ressaltar que gostei bastante da troca que fizeram na série de tv, no plot de Alexandria. O marido da Deanna que era para ser o dono de tudo [na HQ é assim] e na série colocaram ela em destaque comandando tudo.

    Queria que a Lily tivesse ficado na série, mas a Tara é legal haha

    tenha uma ótima quarta.
    Nana - Obsession Valley

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  3. Oi. Acabei de ler o declínio, e fiquei me perguntando o porque o Jeremiah pediu para que o Reese fosse pedir ajuda sendo que o objetivo dele era o suicídio coletivo. Já que ele estava reunido com os fiés em uma igreja, me pergunto porque então ele não fez a cerimônia lá mesmo. Alguém entendeu essa parte do livro???

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