Por que eu sou feminista? [Mês das Mulheres]

Por que eu sou feminista? #MêsdasMulheres


Estão falando muito da "primavera das mulheres" porque nunca se falou tanto em feminismo e machismo, nunca se jogou tanta luz sobre casos de violência doméstica, pedofilia, estupro e assédio. Porque as mulheres estão começando a se livrar das amarras do medo e da vergonha e estão falando. E falando e falando e falando.

Então achei justo fazer esse post sobre porque eu sou feminista.

Porque as pessoas tem essas ideias, sabe? Se você é feminista, odeia os homens; se é feminista, é lésbica; se é feminista, é mal amada; se é feminista, é vitimista porque hoje em dia ele não é mais necessário; se é feminista tem que estar 100% do tempo de dedicada a isso e na rua gritando sobre isso, levantando cartazes e como assim você é feminista e se depila e usa maquiagem?

Por que eu sou feminista? [Mês das Mulheres]

Existem dezenas de motivos que fazem as mulheres se identificarem como feministas, existem milhares de razões pelas quais nós abrimos os olhos para perceber que só porque as coisas são assim desde sempre, não quer dizer que precisam ser assim para sempre -- salve Pitty! Então decidi deixar aqui a minha experiência e adoraria ouvir a de vocês; o que abriu teu olho, quando tu começou a se identificar assim, quando tu percebeu que precisava falar e falar e falar para que as pessoas pudessem começar a te escutar!

Em primeiro lugar, eu sou feminista por todas as mulheres que foram menosprezadas, tratadas como objetos, propriedade, moeda de troca, machucadas e mortas, que tiverem sua voz calada, seus desejos sufocados e sua vida controlada desde que o mundo é mundo.

Em segundo, sou feminista por todas as mulheres que lutaram para serem reconhecidas como ser humano, independente da cor da pele ou religião; em respeito a uma luta de mais de século. Sou feminista por todas as sufragistas que foram presas e espancadas e assediadas, tratadas como loucas e histéricas, presas em manicômios pelas famílias e renegadas, simplesmente porque lutavam pelo nosso direito ao voto. Por todas as mulheres que lutaram pelo meu direito de possuir propriedade e não SER uma propriedade, por todas que lutaram para que eu escolhesse com quem casar e quando ter ou não filhos, por todas que lutaram pelo direito das mulheres de classe média e alta a trabalhar fora de casa, por todas que lutaram pelo meu direito de reconhecimento em trabalhos acadêmicos, para tornar assédio no local de trabalho crime, para tornar estupro marital crime, para tornar violência doméstica crime, para parar com a substituição da pena pelo crime de estupro pelo casamento do agressor com a vítima (que, aliás, continua a existir em outros países), por todas que lutaram para me colocar como uma pessoa tão capaz quanto qualquer homem.

E em terceiro, porque mesmo com todas essas leis que as mulheres antes de mim lutaram e resistiram e apanharam para conseguir, não estamos livres. Porque ainda somos estupradas porque "pedimos" ou "merecemos" ou andamos "na rua sozinha" ou "com a roupa curta demais" ou "no lugar errado"; porque ainda somos nós que arcamos com as responsabilidades de uma gravidez indesejada, como se pudéssemos fazer um filho sozinhas; porque ainda existe assédio, mas que é só "elogio" sua histérica!; porque as mulheres ainda são mortas aos montes pelos companheiros com desculpas como "ele estava com ciúmes", "ela não quis voltar para ele" entre tanto outros.

Porque ainda somos caladas e subestimadas, porque ainda ensinamos nossas meninas a passar, lavar e cuidar de crianças desde pequenas, sem lhes oferecer outras opções; porque ainda intimidamos garotas que escolhem cursos de graduação tipicamente masculinos; porque ainda ridicularizamos mulheres por exercerem profissões historicamente dominadas por homens; porque ainda chamamos de vadia uma chefe exigente; porque ainda deixamos de dar promoções para mães porque elas precisam de mais tempo com o bebê; porque ainda ouvimos um deputado falar que todas as mulheres merecem receber menos que um homem, exercendo a mesma atividade que ele, pelo simples motivo de que ela PODE engravidar (e ainda aplaudimos ele por isso); porque ex-namorados (e atuais) filmam momentos íntimos e vazam para os amigos e as vadias somos nós, porque o revenge porn é um câncer do mundo virtual e atual.

Mas também sou feminista porque, apesar de o meu país estar dando passos em direção a igualdade de gênero (mesmo que pequenos), existem vários que estão andando para trás. Porque existem centenas de milhares de mulheres sendo obrigadas a se prostituírem por maridos com os quais foram obrigadas a se casar; porque existem mulheres recebendo ácido em seus rostos por recusarem um casamento, por "desobedecerem" o marido ou mesmo por não serem mais virgens. 

Existem mulheres sendo mortas com a justificativa de um "crime de honra", existem mulheres tendo direitos básicos cerceados por um governo autoritário e religioso. Existem crianças sendo casadas sem nem ao menos entender o que isso quer dizer, existem adolescentes sendo mães tão cedo, que o parto é quase sentença de morte.

Existem mulheres apanhando dos maridos porque enfrentam tempos de crise, existem mulheres sendo apedrejadas em praça publica e estádios de futebol por uma mera desconfiança do marido.

Uma turma inteira de garotas, crianças e adolescentes, foi sequestrada da escola porque queriam estudar, e agora se tornam esposas de soldados jihadistas contra a sua vontade -- e mesmo a de sua família -- e governo nenhum faz nada para mudar isso.

Existem mulheres proibidas de estudar, proibidas de falar, de andar na rua e de serem vistas. Existem mulheres que só existem, não vivem.

Sou feminista porque nasci condenada pelo gênero e o privilégio que recebo por ter nascido no Brasil, pela cor da minha pele e da posição financeira da minha família, impedem que eu sofra vários tipos de violência, mas não todos. Sou feminista porque, só porque algo não acontece comigo, não quer dizer que não esteja acontecendo com milhares de mulheres ao redor do mundo.

Sou feminista porque luto por direitos iguais sem querer ver qualquer direito que outro grupo tenha conquistado ser tirado dele. Aos "omis" que se incomodam com o fato de nos aposentarmos mais cedo ou não sermos obrigadas a servir o exército (e que fique claro que isso é uma lei brasileira, e não mundial), criem seu próprio movimento para conquistar o direito de se aposentarem com a mesma idade que nós, pelo direito de escolher servir ou não a sua pátria. Lutem por essa igualdade assim como nós lutamos pelo direito de andar na rua com a roupa que quisermos sem sermos assediadas -- e lutamos para não sofrer o assédio, ao invés de lutarmos para que homens de bermuda e sem camisa na rua sejam assediados também, por exemplo. 

Aliás, dica do Aurélio para vocês: machismo não é o nome de um movimento pela igualdade protagonizado por homens.

Sou feminista e luto por igualdade, não porque quero privilégios ou "gentilezas por ser mulher", luto por igualdade porque antes de tudo as mulheres também são seres humanos.

Se você não participa de passeatas e protestos, ok. Porque o principal do ativismo é falar. Você tem voz, faça-se ouvida. Fale por você e por todas as mulheres ao redor do mundo que são caladas por tapas e socos e pontapés, por mãos, religião, governo e família. Por aquelas que no momento não podem falar e por todas aquelas que nunca mais poderão se pronunciar.

Fale, fale e fale até alguém te escutar. Você não é chata, você não é vitimista, você não perdeu o senso de humor. Se você é como eu, você só se cansou de sobreviver em um mundo onde falta o básico sobre respeito e amor e empatia. Fale para todos a sua volta, explique e abra os olhos deles como alguém, um dia, abriu os teus.

Participe:
Para o mês de março, temos um hangout para falar da romantização da violência contra a mulher na literatura, é o II Hangout Fight Like a Girl e vai contar com a presença das autoras: Paula Febbe, Claudia Lemes e Bárbara Morais.

Valem assistir (quase todos no Netflix):

India's Daughter -- sobre o estupro coletivo de uma estudante de medicina indiana em um ônibus e a repercussão na sociedade indiana.
Girl Rising -- que é também uma campanha para ajudar a manter garotas na escola, o documentário relata histórias de várias garotas que sofreram diversos tipos de violência, lhes dando voz e oportunidade, enquanto instrui sobre os benefícios de se manter garotas nas escolas.
It's a Girl! -- fala sobre o genocídeo de meninas em países como India e China, onde elas são mortas, abandonadas ou abortadas simplesmente por serem meninas.
The Hunting Ground -- Um documentário que fala sobre os casos de estupro dentro dos campi das Universidades norte-americanas e como as instituições fazem de tudo para impedir que os casos cheguem a polícia ou a mídia. A música Til It Happens to You, da Lady Gaga, foi indicada ao oscar por esse documentário.
Degrassi - Next Class -- série original da Netflix que traz feminismo e sexualidade como foco.

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COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Esse tema realmente tem que ser bem discutido hoje em dia. tem muitos ainda que não sabe o que é ser feminista. E eu confesso que nem eu sei direito dos meus direitos como mulher e integrante dese círculo feminista,se posso falar assim. Foi bom ler este post que você fez aqui. Algumas dúvidas que tinha até foram respondidas, mas acho que ainda temos muito o que aprender e reivindicar. Tomara que com o tempo isso mude.
    Beijos.

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  2. Olá, Bibs.
    Realmente muitas pessoas têm uma visão muito errada e estereotipada sobre o feminismo, o que acaba denegrindo a imagem do movimento. Porém, por outro lado, existem uma série de mulheres guerreiras, como você, que lutam por igualdade e justiça.
    Felizmente, as coisas estão bem melhores que antes, até porque agora se fala do assunto quase que livremente. Mas ainda há um longo caminho para ser percorrido.
    Tenho certeza que, cedo ou tarde, as mulheres conquistarão o lugar em que sempre mereceram estar: ao lado do homem. Afinal, somos todos iguais.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

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  3. Oi Bibs!
    Estou aqui aplaudindo de pé seu post!!! Posso imprimir e distribuir por aí?
    Amei tudo que você escreveu. Também sou feminista, lógico! Impossível ser mulher e não ser feminista. Mas, infelizmente, existem muitas mulheres machistas por aí.
    Espero que um dia não precisamos mais lutar e possamos sair de casa sem medo de sofrer violência na rua.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  4. Oieee Bibs, sua linda!

    Que texto incrível, definitivamente me representa! Muita gente, principalmente homens, mas infelizmente mulheres também. O mundo precisa evoluir nas questões feministas, de igualdade de gênero, e estamos caminhando pra isso, felizmente!

    Eu cursei uma matéria no meu outro curso da USP sobre gênero, e cara, é demais! Incrivel como nós somos condicionados desde crianças a crer que mulheres e meninas são designadas para algumas coisas, ou impossibilitada de outras. Todas as crianças deveriam ter matéria de gênero e sexualidade SIM, sou super a favor.

    Pelo menos podemos, daqui pra frente, implementar essa consciencia, em nossos filhos, sobrinhos, netos, e em nossos pais, avós, tios e tias. Sem mais nos calar! Nós podemos ser e fazer o que quisermos e este é o futuro para as mulheres.

    Amei o texto, adoro o mês que vocês estão fazendo e acho muito importante.

    Beijo!!
    http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br/

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