Resenha: A Fúria e a Aurora #MLI2016


As Mil e Uma Noites ganha uma recontagem intensa e arrebatadora com o livro A Fúria e a Aurora. Renée Ahdieh nos presenteia com uma história já conhecida, mas extremamente delicada e inesquecível. Apesar de conhecer o original, a recontagem entregue é tão ou mais incrível do que a história da garota que, para salvar a própria vida, conquistou o coração de um califa com suas mil e uma histórias.

Sinopse: Personagem central da história, a jovem Sherazade se candidata ao posto de noiva de Khalid Ibn Al-Rashid, o rei de Khorasan, de 18 anos de idade, considerado um monstro pelos moradores da cidade por ele governada. Casando-se todos os dias com uma mulher diferente, o califa degola as eleitas a cada amanhecer. Depois de uma fila de garotas assassinadas no castelo, e inúmeras famílias desoladas, Sherazade perde uma de suas melhores amigas, Shiva, uma das vítimas fatais de Khalid. Em nome da forte amizade entre ambas, Sherazade planeja uma vingança para colocar fim às atrocidades do atual reinado. Noite após noite, Sherazade seduz o rei, tecendo histórias que encantam e que garantem sua sobrevivência, embora saiba que cada aurora pode ser a sua última. De maneira inesperada, no entanto, passa a enxergar outras situações e realidades nas quais vive um rei com um coração atormentado. Apaixonada, a heroína da história entra em conflito ao encarar seu próprio arrebatamento como uma traição imperdoável à amiga. Apesar de não ter perdido a coragem de fazer justiça, de tirar a vida de Khalid em honra às mulheres mortas, Sherazade empreende a missão de desvendar os segredos escondidos nos imensos corredores do palácio de mármore e pedra e em cenários mágicos em meio ao deserto.

Sherazade é uma garota teimosa, determinada e incrivelmente corajosa. Quando o califa de Khorasam, seu reino, começa a assassinar as esposas dia após dia, criando uma trilha sangrenta e aterradora de histórias sobre sua crueldade, um levante silencioso nasce no coração da garota. Quando a melhor amiga de Sherazade sofre pelo destino terrível das esposas de Khalid, a menina resolve se voluntariar e se casa com o perigoso Rei dos Reis. Seu plano é matá-lo e acabar com esse reinado de terror instaurado em suas terras, mas há mais por trás das histórias do que ela poderia imaginar. Há mais por trás do monstro que, agora, se tornou seu marido. Para ludibriá-lo e ganhar tempo, Sherazade usa as noites de núpcias para contar histórias sem nunca revelar seus fins, prometendo ao esposo que no dia seguinte, prosseguiria a narrativa. Com um pouco do original, uma pitada de magia e um romance arrebatador, A Fúria e a Aurora foi uma das histórias mais cativantes que já li.

Uma centena de vidas por aquela que você tirou. Uma vida a cada aurora. Se você falhar uma única vez, eu lhe arrancarei seus sonhos. Vou tirar sua cidade de você. E lhe subtrairei essas vidas, milhares de vezes.

A narrativa da Renée é bem poética e única. Ela nos canta a história com trechos rápidos e apaixonantes, com detalhes ricos e com diálogos profundos. O reino de Khorasam cresce aos nossos olhos conforme a história se estende, e a trama por trás dos assassinatos das esposas e o porquê de o Rei dos Reis ter se tornado um monstro é absurdamente impactante. Com sutileza, ela nos entrega algumas pistas, alguns detalhes, uma maldição e o porquê de ela existir, mas ainda existe aquela trilha de horror, ainda existe o fato de ele ser um assassino, ainda existem as consequências que Sherazade aceitou enfrentar antes de conhecer o califa.


A personalidade da protagonista é forte. Astuta e pouco inclinada a acatar qualquer ordem, independente de virem do general ou do próprio marido, Sherazade é uma força da natureza. Ela não se curva diante de ninguém, só das próprias ideias. O que antes parecia um plano fácil e arriscado se torna impensado e premeditado conforme Khalid se aproxima dela; ele é mesmo o monstro que dizem? Se sim, o que o levou a fazer tudo aquilo? Por que o rei parece menos um monstro e mais um garoto perdido?

- Amor é uma força poderosa, sayyidi. Por amor, as pessoas pensam no inconcebível... e muitas vezes fazem o impossível. Eu não menosprezaria seu poder.

Sherazade usa suas próprias convicções para investigar e tentar desvendar os fatos sobre as mortes das esposas. Uma vez que ela é poupada da primeira aurora, então da segunda e das seguintes, o boato de que Khalid se apaixonou pela rainha se espalha, e isso dá tempo para uma segunda parte da trama se desenrolar.

- Você tem um riso lindo. Como a promessa de um amanhã.

Taliq, amante de Sherazade, inconsolável por sua perda, quer resgatar a garota. Quer libertá-la do monstro que ela procurou por vingança. Sem saber dos sentimentos que se desenvolvem entre a rainha e seu rei, Taliq busca aliados em meio aos reinos vizinhos, sultões e califas que desejam Khalid fora do trono de Khorasam. O rei monstro pode estar com seus dias contados quando um levante começa a se erguer no deserto. De um lado, você consegue compreender o porquê de Taliq ser guiado por aquelas emoções, mas por estar acompanhando ambos os lados da história, só quer gritar para ele parar de fazer besteira! Seus aliados não são exatamente confiáveis, e a rebelião pode não ser o melhor para um reino já amaldiçoado.


- Você é uma força a ser temida quando defende o que é seu.

Ah, a maldição. A parte fantástica do livro é bem sutil, mas está ali. Sherazade tem um que de mágica, artefatos encantados lhe são apresentados no decorrer do livro e seu pai, um homem enlouquecido por perdas, busca na magia oculta um jeito de salvar sua filha. Mesmo que isso coloque todo o seu mundo em perigo.

- Se sou uma praga, então você devia se manter à distância, a não ser que planeje ser destruído. 
- Não. Me destrua.

No palácio, Sherazade tinha poucas companhias além dos seus próprios pensamentos. A camareira dela, Despina, uma jovem grega de personalidade arisca e presença marcante, se tornou o que pode-se considerar sua melhor amiga. Com a troca de farpas e os momentos descontraídos, as duas encontraram semelhanças uma na outra, a mesma maneira de enfrentar a vida com o queixo erguido. Jalal, o general do rei, é outra figura presente em muitas cenas, e sua aura canastrona e seu bom humor inerente às tensões do palácio o tornam um personagem extremamente carismático. Quero muito ver um desenvolvimento grandioso para ele o seu ship, porque eles são LINDOS!


E, com um beijo, Sherazade se deixou levar. Pelo menino que era impossível, improvável estudo de contrates. O menino que reduzira a sua vida a cinzas, apenas para refazer o mundo diferente de tudo que ela conhecia.

E, claro, tem o Khalid. O rei que antes era um enigma e então se tornou um mistério a ser resolvido. Sherazade luta contra o próprio coração, porque amá-lo é trair todas as moças que vieram antes dela, todas as que não sobreviveram à fúria de uma aurora. Mas, ao mesmo tempo em que se resguarda, Sherazade encontra em Khalid nuances de um menino esquecido e perdido, machucado pelo passado e por uma injustiça. Um monstro às vezes só é um monstro porque as pessoas o transformam em um, e esse pode ser o caso do rei. A confiança entre os dois, os sorrisos sutis e as cenas de amor delicadas tornam Sherazade e Khalid um casal poderoso em suas fraquezas. O final foi devastador, mas sei que o segundo volume guarda algo incrível para os dois! A maldição que impera sobre o rei e sobre o reino tem que ter uma brecha.

E ele sorriu um sorriso de envergonhar o sol.


- Levante-se, Sherazade al-Khayzuran. Você não se curva diante de ninguém.

A Fúria e a Aurora foi uma leitura apaixonante, cheia de um bom drama e de uma mitologia rica. As Mil e Uma Noites como nunca antes visto.


Título original: The Wrath and the Dawn
Autor: Renée Ahdieh
Editora: Globo Alt
Gênero: Fantasia / Romance
Nota: 5


Saiba mais: Skoob | Buscapé

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