Resenha: 50 Anos de Jornada nas Estrelas


Jornada nas Estrelas completa 50 anos de existência em 2016. Os bastidores da série mundialmente conhecida chegam às livrarias em uma série contendo relatos de todos os envolvidos por tornar Jornada nas Estrelas uma febre histórica e inesquecível. A obra traz comentários polêmicos e perspicazes e uma visão bem ampla de tudo o que existiu para compor a saga que até hoje arrebata o coração de milhões de fãs.

Através de pequenos comentários dos escritores, mas focando principalmente no desenvolvimento da série através de relatos daqueles que trabalharam para a existência dela, o livro constrói uma dinâmica bem interessante, quase uma narrativa, começando nos primórdios das ideias que, evoluídas, se tornaram o que conhecemos hoje como Jornada das Estrelas.


A teoria que sempre ouvi é que, quando o faroeste morreu, a ficção científica ocupou o seu lugar. Não podíamos mais sonhar com o passado, então começamos a sonhar com o futuro.







O que eu achei mais interessante na obra é a composição dos capítulos. Começamos com as histórias dos dois escritores, a jornada deles até conhecer a famosa séria, o que fez com que eles resolvessem contar essa história. Se a paixão por Star Trek os colocou ali, reunir todas as informações de tantos nomes importantes para a série foi uma verdadeira expedição, digna de estar nos relatos da Frota Estelar!


Quando Gene Roddenberry, criador de Jornada nas Estrelas, vendeu aquele piloto lendário há muitos anos, ele estava, claro, fazendo o que os roteiristas de TV fazem: criando uma série com a esperança de um salário mensal estável.

Nomes grandiosos como Leonard Nimoy, William Shatner e Nichelle Nichols, respectivamente o sr. Spock, capitão Kirk e tenente Uhara - trazem histórias sobre sua convivência com os personagens e o desenvolvimento deles no background da série. Uma série que, num primeiro momento, nem teria Kirk como seu capitão! É interessante ver como muitas ideias se sobrepujaram a uma inicial, modelando e arrumando e criticando até que a série ganhasse a história que foi para a tela.



Interpretei Kirk da maneira que eu gostaria que fosse. Em batalhas contra um monstro ou em suas decisões de ir ou não à guerra, não importa, eu o interpretei como se estivesse em seu lugar naquelas situações.

Eu adorei principalmente os comentários do Nimoy e do Shatner. Spock e Kirk sempre foram meus personagens favoritos - exatamente pela dinâmica incrível que ambos possuíam, o tipo de amizade que dificilmente pode ser reproduzida com tamanha química - então saber mais sobre como foi criada essa vivência e como nasceu essa amizade - e até afastamentos entre os dois - deixou tudo mais emocionante.

Os relatos do criador, Gene Roddenberry, criam a aura de um criador problemático. Sim, um visionário, colocando a cara a tapa para levar até a televisão uma coisa que, em plenos anos 60, parecia impossível de acontecer, mas também um homem marcado pela época, pelo sexismo e pela teimosia. O início de Jornada nas Estrelas foi bastante turbulento, e continuou assim mesmo quando ele se tornou produtor executivo. Através de outros olhos, podemos perceber que o visionário também era um pouco perturbador, o tipo de homem que impõe sua vontade e dificilmente aceita sugestões de melhorias - e olha que os roteiros originais precisavam de muitas melhorias!



Outros nomes envolvidos na produção e no roteiro - pessoas que vieram na segunda e na terceira temporada (a terceira sendo a mais odiada pelos fãs) - compõem o cenário diversas vezes caótico que eram os bastidores. Embate de ideias, influência dos fãs ao redor do mundo, histórias simples que precisavam se tornar mais complexas e complexas que precisavam de mais simplicidade. O caminho até o sucesso não existiu completamente na época de estreia, até porque Jornada nas Estrelas sofria com baixos índices de audiência, atores ameaçando deixar seus papeis se não recebessem bons aumentos - Leonard Nimoy, o famoso sr. Spock, quase foi substituído porque pediu um aumento (uma vez que seu personagem era o mais popular entre os seguidores da série). O teletransporte foi criado para facilitar o orçamento da série, já que ficar movendo a Enterprise pelos sets faliria o orçamento em um episódio.

Os maravilhosos responsáveis por dar vida a Uhura, Bones, Chekov e Sulu (Nichelle Nichols, DeForest Kelley, Walter Koenig e George Takei, respectivamente) tiveram grande voz nesse livro, mas comentaram sobre as dificuldades de destaque em uma série que desejava introduzir representatividade, mas precisa tomar cuidado com a maneira com que o fazia em uma época tão complicada para isso. Com o tempo, seus personagens ganharam destaque e o amor do público, o que proporcionou maior destaque a eles - ainda que não tamanho quanto o de Spock e Kirk.


É uma história sobre como o poder absoluto corrompe de forma absoluta.

Mais um ponto importante que o livro aborda é a transformação que Jornada nas Estrelas sofreu e causou. Em uma época com pouca participação multicultural, onde homens brancos dominavam as produções, uma série que colocava um personagem oriental, um russo e uma mulher negra como pontos importantes de uma tripulação certamente causou balbúrdia - mas o fato de aceitar os riscos é que consagrou Jornada nas Estrelas como a expansão dimensional que é até hoje.

Uma coisa que queria fazer era deixar Spock meio humano e meio vulcano. Queria que tivesse uma personalidade interessante. Queria que metade dele estivesse em conflito com a outra, a parte humana contra a alienígena.


Achei muito interessante entender a construção da série através dos comentários. Nomes muito importantes, que hoje são grandes estrelas do cinema, atores que deram vida a personagens icônicos relatando sobre salários baixos, pouca participação nos episódios, comentários sobre o esquecimento dos seus personagens quando o foco da série se tornou a relação Spock x Kirk, ainda que Jornada nas Estrelas tenha sido e sempre será a respeito da tripulação da Enterprise. A construção do livro cria uma narrativa interessante, tem o tipo de curiosidade que te faz querer avançar mais e mais na leitura para saber o que todos têm a dizer sobre o desenvolvimento da série.



Jornada nas Estrelas é um fenômeno da cultura pop sem precedentes e impossível de ser repetido.

Além das três temporadas, dos problemas nos roteiros e na luta contra a audiência baixa - dá pra imaginar? JORNADA NAS ESTRELAS TINHA BAIXA AUDIÊNCIA. E eu aqui reclamando das minhas séries! - o foco sempre retorna para o fãs. O quanto as cartas e telefonemas ajudaram a NBC a manter a série no ar, o quanto o apoio e a paixão exaltada de todo mundo pelos personagens e pela história construíram a fama que Jornada nas Estrelas carrega até hoje.

O livro é um trabalho incrível e extremamente interessante para os fãs e para quem quer conhecer mais sobre a série que fugiu de todas as zonas seguras, explorou a fronteira final e foi onde o homem jamais esteve.


Título original: The Fifty-Year Mission
Autora: Edward Gross e Mark A. Altman
Editora: Globo Alt
Gênero: Biografia
Nota: 4,5

Saiba Mais: Skoob | Saraiva | Buscapé

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COMENTÁRIOS

7 comentários:

  1. Oi Denise!
    Nossa, 50 anos já?! Eu gosto de Star Trek, mas assisti mais a série da Nova Geração, que passava na tv quando eu era adolescente. Da série clássica, só assisti os filmes.
    Parece ser um livro muito legal para os fãs, eu gostaria de ler e saber mais sobre a série.

    Obs: Desculpe o sumiço, estava viajando mas agora estou de volta. ;)

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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    1. Oi Sora!
      Pois é menina, 50 anos O__O
      Meus pais eram grandes fãs da série clássica, então eu me lembro de ver o Spock e o Kirk na TV e achar muito maneiro o fato de eles tripularem uma nave tão grande HAHAHAHAHAHA eu gosto muito do reboot também, acho que faz jus à original.
      A nova geração eu peguei pouco, mas adorava o Picard.
      Bem-vinda de volta!

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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  2. Jornada nas estrelas é aquela série de TV que tenho vontade de vê, muita, mas muita mesmo há muito tempo. Um sonho da vida adulta é conseguir fazer isso!

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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    1. Me deu um branco se a Netflix ia colocar no catálogo ou se os fãs estavam pedindo tanto que eu fiquei com isso na cabeça, mas a Netflix SUPER DEVERIA. A série original era MARAVILHOSA, queria muito rever hoje em dia </3
      Obrigada pela visita!

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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  3. "e foi onde o homem jamais esteve."

    Que pena, achei que as mulheres também fizessem parte de Star Trek, da Humanidade, da Federação.

    A série atualizou o termo na Nova Geração. Seria interessante utilizar a versão que abraça todo mundo "onde ninguém jamais esteve". Usar 'homem' é excludente, sexista e misógino.

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    1. Oi Soraia, tudo bom?

      Primeiramente, a série se consagrou com essa frase, e foi essa frase que eu escolhi usar. Você mesma disse que a Nova Geração mudou, porque a Nova Geração resolveu esses problemas sexistas - que eram MUITOS, sabemos disso (e eu inclusive citei na resenha).

      "Onde o homem jamais esteve" não se refere ao homem MACHO, se refere ao homem como a RAÇA HUMANA. Em uma história onde o homem desbrava a galáxia, de novo, o homem da frase representa a humanidade. É um termo muito comum. Eu, como feminista, nunca me incomodei com isso, você tem total liberdade de se incomodar, mas não de me acusar de sexismo ou misoginia por usá-lo; e além do mais, o livro fala sobre a primeira geração. Aquela que marcou a história com ESSA frase.

      Obrigada pelo comentário.

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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  4. Estou terminando de revisitar a série clássica, indiscutível o modo fantástico como levou pra grande audiência tanto conteúdo social, político, filosófico... Um marco na ficção científica. Série corajosa em bancar tantas novidades em tempos de padrões ainda mais rígidos que os de hoje. Mas uma coisa me incomodou muito, e olha que sou até antiquado, foi o modo como praticamente todas as mulheres são representadas como interesse romântico ou desejosas de sê-lo, são fúteis, frágeis, vazias e tudo mais que se pode incluir no estereótipo... Exceto pela Uhura.

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