Resenha: Não Olhe!


Ao fim de Não Pare!, o gancho para o segundo livro prometia uma aventura por terras desconhecidas e revelações bombásticas sobre a herança da protagonista, mas o que me foi apresentado em Não Olhe! não chegou perto do que havia dentro do livro. E o que havia? Decepção.


SinopseZyrk pode estar com as horas contadas: a híbrida acabou de cruzar o portal e o frágil equilíbrio entre os quatro clãs encontra-se definitivamente ameaçado. Há milênios forças ocultas espreitam, aguardando apenas o momento de emergir das sombras e mostrar seu poder. Fugir e sobreviver. Aceitar e lutar. Há muitos caminhos, mas qual deles seguir se a Morte possui várias faces?Nina acorda entre a vida e a morte na terceira dimensão, levada para a sombria Thron. Richard, o nada confiável resgatador de apaixonantes olhos azul-turquesa, luta contra sua própria natureza. Cruel e sanguinário, Rick está confuso e cada vez mais cercado por seus inimigos. Mesmo o melhor dos guerreiros, o mais temido e destemido, está protegido da força de um grande amor?Ele e a híbrida viajarão por toda Zyrk, e ela irá se deparar com um universo fantástico, um mundo violento, o plano da Morte. Lutando para se libertar de seus medos e determinada a encontrar seu caminho e sua identidade, Nina embarcará em uma jornada de descobertas arrasadoras, um percurso sem volta. Mas a garota das pupilas verticais descobrirá que as vontades do coração podem ser mais traiçoeiras que lendas ou maldições.

Nina é feita prisioneira em Thron. Richard, sua Morte, a vende em troca do trono daquele reino. Tudo o que ela sabe é que é uma híbrida e que sua presença ali altera os cursos da história da dimensão em que se encontra. Thron é um lugar muito arcaico, com uma sociedade rígida e sem emoções, um perigo à vida da garota. Circunstâncias perturbadoras a ajudam a escapar dali, e essa fuga inicia uma corrida contra o tempo para retornar para casa, ou quem sabe, encontrar um lar ali.



Coisas que me incomodaram no primeiro livro, neste se tornaram insuportáveis. A submissão da protagonista a absolutamente todas as situações horrendas a que ela é imposta foram desconfortáveis ao extremo; cenas em que ela é tida como objeto e jogada de um lado para o outro em uma discussão para ver "quem vai ser seu dono", momentos em que Richard, sim, o mesmo canalha que a vendeu pelo trono do reino, a seduz e diz que a deseja, mas não vai tomá-la, apesar de ela ser dele (juro pra vocês que a vibe do cara é nessa confusão), capítulos em que Nina se determina a lutar e fugir ou pelo menos gritar contra toda aquela opressão, mas acaba arregando porque "o Richard é tão lindo e sombrio". A protagonista veio da Terra, do nosso século, onde as mulheres têm voz e lutam contra a supremacia machista, aí vai pra um mundo onde as mulheres são meras escravas da vontade dos homens e NÃO REAGE?



A Nina confrontou diversas situações em que mulheres eram colocadas ali como objetos sexuais, empurradas ou verbalmente agredidas e NÃO FEZ OU FALOU NADA! ABSOLUTAMENTE NADA! Ela estava ocupada demais babando pelo homem que vendeu ela pelo trono para olhar para o lado e perceber como aquele reino era o inferno?


Quem era Richard, afinal? O vilão com doses de bondade ou o mocinho com nuances de crueldade?

MIGA, QUE QUE CÊ ACHA? O cara te vende pelo trono, recusa a troca quando o rei te oferece pra ele - podendo assim te salvar de um possível abuso - e você ainda fica em dúvida durante o livro todo?




A mitologia perde as nuances interessantes a partir do momento em que os absurdos ganham tanto destaque. Eu estava quase desistindo do livro quando a Nina finalmente toma uma atitude - logo depois de um estupro, eu repito, UM ESTUPRO SIM - e escapa das garras daquele reino horrendo. Ela encontra aliados fora dali, rostos familiares dispostos a ajudá-la, e aí a gente chega no John. 

O mesmo John que já tinha ganhado meu coração no outro livro por ser um personagem extremamente doce, gentil e cauteloso. Mas é claro que os pensamentos dela acabam voltando para o Richard de vez em sempre, não é mesmo? Ela não pode simplesmente gostar do cara legal, ela precisa querer o que vendeu ela pelo trono. Tá certo, amiga!

Senti que as informações necessárias para unir os pontos soltos foram meio que jogadas dentro da trama; pouca coisa se sustentou. É um mundo fantástico, sim, mas a fantasia não faz tanto sentido quanto parecia fazer no primeiro. Talvez sejam pontos que a autora vá ligar direitinho no volume final.



A partir daí, o livro dá uma guinada e você encontra momentos de mudança nas atitudes da Nina. Eu gostei dessa parte exatamente por vê-la reagir; com o Richard, a Nina parece uma marionete. Ela tem pensamentos revoltados, mas fica à mercê da presença dele - se isso não é um relacionamento abusivo, eu já não sei de mais nada da vida. Sozinha, ela encontra forças, encontra determinação, ela quer ser melhor para nunca mais passar por aquilo. As coisas que fizeram com ela em Thron são absurdas e, ainda em fuga, ela precisa confrontar a ideia de que pode ser recapturada e forçada a viver tudo aquilo.


Em relação à edição, a editora Valentina arrasou mais uma vez. Capa incrível, diagramação maravilhosa e confortável para leitura. O trabalho editorial é maravilhoso.

Amo a Pepper, mas não consigo ficar calada lendo isso. São ideias erradas que, romantizadas, ganham um tom suave e pouco problemático. Como leitora, senti extremo desconforto em todas essas cenas e mais algumas, mas o final deu abertura para um momento empoderador, e estou rezando aos céus para que a Nina volte no próximo livro com mais força e atitude. Só assim eu vou aguentar seguir em frente com o final.


Título original: Não Olhe!
Autora: FML Pepper
Editora: Valentina
Gênero: Romance / Ficção
Nota: 2

Saiba Mais: Skoob | Saraiva 

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COMENTÁRIOS

5 comentários:

  1. Denise,

    nunca li nada da Pepper e na realidade tenho um certo receio de livros nacionais, porque a linguagem que eles utilizam, a forma narrativa, a relação dos personagens com a sociedade, a forma como os personagens são explorados geralmente deixam muito a desejar... mesmo quando o enredo é bom eu sinto uma dificuldade em gostar da forma como as histórias são contadas, dos detalhes que incomodam, a linguagem exagerada... que não representa o real...
    Agora que li sua resenha sobre essa trilogia (ou série, não sei) fiquei mais decepcionada ainda... gosto de personagens femininas fortes e lutadoras, mesmo quando não sabem o que querem, o sexo feminino sendo representado de forma submissa e frágil, dócil é um retrocesso ao poderio que as mulheres estão finalmente conseguindo conquistar...
    Essas representações podem servir de exemplo para os mais jovens e isso seria catastrófico, vermos adolescente se submeterem a TUDO por conta do amor... o amor não justifica certos comportamentos. Sorry.

    Recentemente li um livro nacional intitulado "Novamente Você" e não gostei, apresentou: violência doméstica contra a personagem feminina, uma personagem interesseira e burra, sem convicção, fútil e teimosa, além de submissa...e o que ela faz para enfrentar o problema? Foge, Oculta os fatos, Mente... ela não luta por justiça... prefere fugir... Esse tipo de coisa me incomoda...

    xoxo
    Mila F
    @camila_marcia
    www.delivroemlivro.com.br

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    1. Oi Camila, tudo bom?

      Bem, eu sou autora de ficção, então vou defender um pouquinho HAHAHAHAHA Tenho em mente aquele famoso 'limite', conheço vários outros colegas de profissão que também seguem isso. Acho que a parte mais importante da construção de uma história, especialmente hoje em dia, com tantas mensagens importantes pra você passar, é de esperança. Você lê um livro e você quer que aqueles personagens te impressionem, seja com coragem, com determinação, até com a covardia - mas aquele tipo de fragilidade que você encontra em pessoas reais ansiosas para lutar por alguma coisa. Não Olhe! não teve nada disso, o que foi uma pena. Nós aqui do blog estamos sempre batendo na tecla sobre como romantizar relacionamentos abusivos é errado e absurdo e, de novo, o livro fez isso. Acho que toda a jornada da Nina seria grandiosa se não fosse justamente o cara grotesco que, aos olhos dela e do que a narrativa tenta passar, é a 'fera incompreendida'. Ah pelo amor da minha santa paciência né...

      Concordo plenamente com a tua fala! Os livros são acessíveis a todo mundo, e pensar que as pessoas pegam essas histórias e acham romances assim modelos de vida é ASSUSTADOR. Eu me peguei pensando 'como que só tem resenha positiva? Será que as pessoas realmente leram o que é o Richard, o que é a obsessão doentia dele pela Nina?'. Sério, dá medo.

      Não conhecia esse livro, mas obrigada pelo aviso. Só pela premissa que você narrou aí já me deixou com medo.

      Obrigada pela visita.

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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  2. Oie Denise tudo bem? Olha eu já tentei ler essa trilogia e simplesmente não consegui, sou fã da literatura nacional, mas essa não sei porque não consigo ler!
    Bjss, comenta por favor ajudaria muito: http://resenhasteen.blogspot.com.br/2016/10/projeto-poetas-urbanos-felipe-saraica.html

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    1. Oi Naylane, tudo bom e contigo?

      Eu só vou pegar o último volume porque fiquei curiosa em relação ao final desse; se a Nina der a guinada que eu estou rezando, pode ser que a história melhore. Mas tenho meus receios, infelizmente...

      Vou passar lá no teu blog sim, pode deixar. Obrigada pela visita!

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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  3. Oi, Denise.
    Que pena que a leitura não te agradou.
    Eu não curto muito fantasia, mas conheço algumas pessoas apaixonadas por essa série. A autora também é super carismática, acho ela uma simpatia de pessoa.
    Eu só posso desejar que o próximo volume seja uma experiência de leitura melhor pra você. =)

    Bjos,
    http://helendutra.com/

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