Resenha: A Maldição do Vencedor


Aquela famosa frase: por que eu demorei tanto pra ler isso? é o que manda nos meu sentimentos em relação a este livro. A Maldição do Vencedor tem uma trama complexa, bem orquestrada e incrivelmente bem desenvolvida. A resenha de hoje vem aqui exaltar a existência dessa obra prima!

Kestrel vive em uma sociedade perfeita. Sendo uma valoriana, filha do general mais renomado que o império já possuiu, a jovem vive sob grandes expectativas, incertezas e a ânsia pela própria liberdade. Em um dia comum, contrariando a própria racionalidade, Kestrel compra um escravo num leilão da cidade, e essa decisão acaba por mudar sua vida completamente; a presença de Arin mexe com seus sentidos e sentimentos, ao mesmo tempo em que uma trama complexa começa a se erguer por trás dos dois. Uma rebelião se aproxima, e a chance da conquista da tão sonhada liberdade pelos herranis - povo escravizado pelos valorianos - cresce nas sombras da cidade.



Eu estou completamente embasbacada pela qualidade da obra. Como indicação do Tumblr, a certeza de que seria uma história incrível era de 110%, mas a surpresa pela qualidade foi de mais de oito mil!
- Não é isso que as histórias fazem? Transformam coisas reais em falsas e coisas falsas em reais?
Kestrel é ambiciosa, sombria e extremamente corajosa. A narrativa constrói essa jovem aristocrata orgulhosa, ao mesmo tempo em que desdobra a personalidade dela em algo doce e sutil. Ela não é uma valoriana perigosa como o pai, ou desinteressada ao sofrimento alheio como muitos dos cidadãos da cidade. Kestrel é elegante e afiada, temida e temerosa. Ela vive sob vigilância constante do pai, uma figura de poder muito respeitada pela sociedade valoriana, ao mesmo tempo em que constrói as próprias ambições. Kestrel quer mais do que se tornar uma soldada nas frontes de batalha do seu povo, assim como se recusa a escolher um marido para constituir família. O pai lhe deu uma dessas opções, e ela precisa decidir o que é melhor para ela enquanto os conflitos do livro começam a crescer.

Ela conhecia a lei das coisas: pessoas em lugares muito iluminados não são capazes de ver nas trevas.

Tudo começa com o leilão. A partir do momento em que Arin entra em sua vida, as coisas se tornam incertas e de um perigo constante. Não que o jovem escravo seja perigoso, mas a presença dele, o desafio que Kestrel aceitou ao tomá-lo para si criam uma subtrama muito bem desenvolvida. A tensão no início do convívio entre eles se dissolve lentamente, num ritmo agradável, enquanto a autora nos entrega detalhes sutis sobre como a afeição dos dois começa a existir. A música é um elemento poderoso entre os dois jovens; a liberdade que ela trás, o que ela significa para ambos. Kestrel não deveria tocar, uma vez que essa é a tarefa dos escravos, a de entreter e a de agir, e Arin se recusa a cantar porque isso o rememora dos tempos livres e da época em que seu povo podia escolher o que fazer. A forma como os dois lidam com essa questão, como ela se torna algo em comum conforme eles se aproximam, isso me arrepiou em vários momentos do livro.

- A maldição do vencedor é quando você vence as ofertas, mas só pagando um preço muito exorbitante.
A Kestrel entrou para o hall de personagem femininas mais bem construídas que já li! Ela é destemida e fria, mas igualmente temerosa e cheia de emoções. A vida na aristocracia criou uma de suas muitas facetas, e eu fiquei embasbacada com a qualidade do crescimento da personagem durante a história. A força dela não deriva do poder físico, mas do seu palavreado e das suas atitudes. Ela é manipuladora quando necessário, sincera quando deseja. Sabe jogar conforme o jogo da política, e seu relacionamento de respeito mútuo com o pai criou uma estrategista nata. Gostei de como o livro não tornou o general um vilão, ainda que sua postura rígida e centrada possam tê-lo vendido como tal inicialmente. Ele é um pai e um soldado, e essas duas designações acabam colocando ele e Kestrel em embates interessantes de acordo com o passar a trama.



- Minha alma é sua. - ele disse. - Você sabe.
Arin, por outro lado, começa rústico e misterioso e acaba se desdobrando em um coração puro e incerto. Ele é um rapaz ansioso pela liberdade, disposto a tudo por ela, que de repente vê seu coração inclinando-se na direção de uma aristocrata, uma garota da raça que ele jurou derrubar. A história de como Arin se tornou escravo até seu convívio com Kestrel foram incríveis; ele é o tipo de personagem que eu queria abraçar e proteger do mundo!


Sentiu raiva de si mesma por se sentir vulnerável quando Arin estava vulnerável.
A pureza dentro desses dois também é impressionante. Arin e Kestrel são dois jovens de realidades tão distintas, mas que desenvolvem um relacionamento importante dentro da trama. Esse livro não existiria sem o amor dos dois.
Quando ele falou, sua voz era como a música que ele tinha pedido para ela tocar.

O ponto maravilhoso desse casal é como o romance começa sutil e se torna algo grandioso que em nenhum momento atrapalha o desenvolvimento dos personagens. A rebelião dentro de cada um ainda existe; a diferença de ideias e de escolhas molda suas personalidades. Arin é um escravo, Kestrel é uma valoriana livre, e esses papeis permanecem neles até o fim, independente das reviravoltas que a trama trás. Por possuírem ideais tão contraditórios, ao mesmo tempo em que dividem ideias semelhantes, Kestrel e Arin são um ship poderoso. Eu amei a suavidade com que o amor nasceu e então a explosão que ele foi. Amei como eles se amaram e como sabiam as consequências disso, e como em nenhum momento voltaram atrás no que faz deles eles só por causa desse sentimento.

- Os herranis foram escravizados porque eram muito ruins em matar e muito covardes para morrer. Eu falei que não queria matar, não que jamais mataria. E nunca disse que tinha medo da morte.
A sociedade construída pela autora é sombria e bastante assustadora. Os dois lados têm erros e acertos; os valorianos tomaram as terras herranis no passado, e construíram seu império com elegância, poder e temor. Transformaram os antigos donos daquele espaço em seus escravos, o que criou aquela ânsia revolucionária nos subordinados. Os herranis, por outro lado, eram um povo rico em sabedoria e civilidade, o que ainda carregam consigo - e o que usam para o estopim da revolução. Não entrarei em detalhes para não estragar a trama, mas a ordem política que a Marie instaurou nessa história é brilhante. As diferenças nos exércitos, na maneira com que ambos os lados lidam com prisioneiros e negociações, isso é absurdamente incrível. O final do livro abre um leque de possibilidades para os dois volumes restantes, e eu já comecei a ler o segundo volume porque esse é meu nível de curiosidade!
- Não vê, Kestrel, mesmo que o deus das mentiras ame você.

Outros personagens marcantes como Logro, o líder dos herranis, Jess e Ronan, melhores amigos de Kestrel, receberam papeis importantes no desenvolvimento da história. Jess principalmente, por representar uma pureza ingênua dentro da sociedade elitista em que vive. Achei que não me importaria tanto com o Ronan quanto me importei de verdade. Ele é apaixonado por Kestrel, disposto a desbravar a frieza dela pelo seu coração, e alguns momentos entre os dois foram bastante importantes para a história. Logro, por outro lado, traz um lado mais bruto dos escravos, uma ressurgência e uma necessidade de violência para responder à violência que batem de frente com as ideias de Arin.

"A felicidade depende de ser livre", o pai de Kestrel sempre dizia "e a liberdade depende de ter coragem.

A Maldição do Vencedor é um livro de tirar o fôlego. Com uma narrativa brilhante e um desenvolvimento impressionante, essa história se tornou uma das melhores leituras que tive o prazer de descobrir esse ano, e entrou para a lista de obras que indicarei até a minha morte!

Título original: The Winner's Curse
Autora: Marie Rutkoski
Editora: Plataforma 21
Gênero: Ficção / Romance
Nota: 5 +

Saiba mais: Skoob | Saraiva

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COMENTÁRIOS

2 comentários:

  1. Oi Denise! Amei suas fotos *-*
    E a resenha está maravilhosa, já estava querendo muuuito ler esse livro com essa capa linda de morrrer e premissa melhor ainda, agora então...
    Tomara que esteja barato na BF, hahahah
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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  2. Oi, Denise!
    Acho as capas desses livros maravilhosas, e a história bem diferente também.
    Achei super bacana que a Kestrel saiba lidar com o pai e que isso a tenha feito uma boa estrategista, gosto de personagens que demonstram personalidade sem que isso implique força. Eu não entendi bem a natureza da relação dela com Arin, mas acho que só lendo pra entender melhor mesmo.

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