Resenha: Estrelas Perdidas


Falar sobre Estrelas Perdidas talvez seja uma das coisas mais difíceis da minha vida, porque esse é um dos livros mais especiais e incríveis que já tive a alegria de ler. Com delicadeza e uma escrita marcante, Bianca da Silva lança seu primeiro livro e mostra que tem muito talento a entregar para o mundo literário.
Sinopse: Lola Dewitt tinha 21 anos e a vida toda pela frente. Até o momento em que morreu. Agora, Lola passa seus dias em uma nuvem autossuficiente no céu, tentando ser digna da segunda chance que recebeu: salvar uma pessoa em troca de asas e a eternidade como anjo da guarda. Lavínia Sloan tem 17 anos e os seus últimos meses foram traumáticos. Ela pode ter um futuro brilhante pela frente, mas precisa lutar para manter-se no caminho se quiser uma chance de vivê-lo. Em um mundo onde o céu é tão burocrático quanto repartições públicas e alguns anjos não têm senso de humor, Lavínia é a única chance de Lola ganhar suas asas, enquanto a garota morta é a única chance de Lavínia ter um futuro. Elas precisarão deixar as desavenças de lado e unir forças para encontrar seus caminhos, mesmo que isso signifique enfrentar sentimentos que passaram tanto tempo enterrando dentro de si.
Lola tinha uma vida perfeita, até que não tinha mais. Ela morreu em um acidente e agora está no céu; e o céu é curiosamente parecido com um escritório, para sua maior surpresa. Lola descobre que tem uma missão, e precisa ajudar uma garota a se salvar para que possa receber suas asas de anjo. Burocracia, sabe como é. A questão é que a garota é muito mais complicada do que Lola esperava - e pode vê-la. O que facilita, mas também complica a sua vida. A amizade entre as duas vai se construir aos trancos e barrancos, afinal de contas, Lavínia tem os próprios demônios a serem enfrentados, e Lola precisa aceitar e viver seu luto para ajudar a menina a qual foi destinada como anjo da guarda.

Vocês já sabem que a história me ganha a partir do momento em que seus personagens conquistam minha atenção. Estrelas Perdidas faz isso logo nos primeiros capítulos; dali para frente, você se importa. E criar empatia no leitor é a fórmula correta para desenvolver uma história como essa. A partir do momento que você entende Lola e Lavínia, a história delas se torna sua também.



Lola é uma figura carismática, cheia de farpas na língua e que responde a muita coisa com seu humor latente. Mas também é uma garota assustada com a ideia da própria morte, de que o mundo vai continuar girando, seus pais vão continuar vivendo, tudo que ela conhecia ainda vai continuar existindo mesmo depois que ela deixou de existir. O arco de superação da personagem é pesado e emocionante graças ao próprio luto; Lola precisa aceitar que seu tempo em terra acabou, mas não consegue evitar espiar os pais, sua casa, as coisas que pertenciam a ela antes do acidente. As cenas da Lola confrontando seu luto são as mais dolorosas e certamente as mais delicadas dessa obra. É impossível ler e não chorar com a fragilidade de uma vida. Quão rápido pode acabar, a marca que ela deixa na rotina de outras pessoas. Lola precisa entender que morrer não é deixar de existir, ainda que pareça tão doloroso dizer adeus a tudo que ela era para que possa ser o que o céu agora precisa.



Quanto à sua missão de anjo, isso traz o equilíbrio perfeito para o drama. Lola é hilária. Sua convivência com Isaac - praticamente o chefe do seu departamento angelical - é de chorar de rir. Os dois são cabeças duras, mas Isaac se retém às normas e regras e às ordens superiores, enquanto Lola quer mais que se explodam. Ela faz do jeito dela - que, obviamente, nunca é o jeito correto. Só para maiores dores de cabeça do Isaac.
Somos todos estrelas perdidas tentando iluminar o escuro.
Lavínia é a missão de Lola; tudo o que a futura-anjo sabe é que precisa ajudar a garota a se salvar. Do quê? Por quê? O que aconteceu com a adolescente que a tornou um risco em potencial suficiente para que o céu designe um anjo para salvá-la? Tudo isso é explicado durante o livro. E é outro tipo de superação; diferente do luto de Lola, as trilhas que Lavínia está seguindo são mais de "potencial" do que de perda definitiva. Ela perdeu alguém, sim, mas a história sobre sua salvação tem a ver com ela mesma. Com as escolhas que vai fazer, coisas que a definirão dali para frente.

Em contraponto a Lola, Lavínia é uma figura bem contida. Ela é divertida, sim, e tem tiradas de escárnio muito bem encaixadas na história. Tem toda uma personalidade marcante, mas se contém pelo medo de julgamento e de como o passado pode afetar seu futuro. Lavínia é uma garota marcada por cicatrizes; seu emocional está estilhaçado. E Lola é um tipo de ímã para a âncora que Lavínia se tornou. O relacionamento entre as duas é bem inconstante, cheio de brigas e desconfianças a princípio, mas acaba se tornando uma das melhores amizades que já li. Aquele tipo crível com piadinhas internas e silêncios bem-vindos. Eu sou apaixonada pelas interações entre as duas, por toda a relação saudável que constroem ao se aproximarem.



Além da Lola, Lavínia tem em seu pai e em sua irmã mais velha alguns alvos de seus problemas. Não que eles sejam ruins, longe disso; mas perdas são capazes de desestruturar qualquer pessoa, mesmo a mais forte delas. E, como Lola nos mostra, há diversas maneiras de lidar com o luto. A sensibilidade em apresentar esses fatos e em desenvolver a superação de cada personagem é outro ponto chave da história.



Em relação aos coadjuvantes, eu obviamente falarei do meu amorzão supremo, Isaac. Como já mencionado, ele e Lola são o yin-yang do departamento de anjos da guarda. Ele é bem mais centrado e sério que a recém-chegada, mas sua convivência com Lola acaba dissolvendo lentamente a faceta de Anjo Vingador que ele adora exibir. Por trás dos escudos, Isaac é uma figura cheia de emoções e sorrisos. O tipo de personagem que esconde os sentimentos por medo do que eles possam significar; e ele é um anjo, afinal de contas. Tem seu dever a cumprir. Não que isso o impeça de se aproximar da Lola e, bem, a gente de shippar os dois como se não houvesse amanhã.




Me conceda esse momento para falar sobre esse OTP. Romance não é um foco no arco da Lola, mas quem é fangirl por acaso precisa de foco pra encontrar a fagulha do amor de um ship? Óbvio que não. Basta eles terem química e respirarem o mesmo ar e tá ali: o casal que eu pedi aos céus - literalmente, nesse caso. Isaac e Lola são uma dupla bagunçada, cheia de sarcasmo pra lá, referência que o Isaac não entende pra lá, sorrisos sutis e abraços envergonhados. Eles são o tipo de ship que se torna importante e sempre existiu e provavelmente sempre vai existir; o tipo que não precisa de nenhum envolvimento amoroso para provar que é endgame. Eu amo esses dois com todas as minhas forças e poderia casá-los se tivesse licença pra fazer isso, porque o que existe entre eles vai além da amizade e ninguém, nem Miguel nem Rafael ou Gabriel, me convence do contrário.

Do outro lado, outro coadjuvante muito importante para a obra é o Evan. Meu garotinho ruivo desconjuntado, tímido e cheio de alegrias para distribuir. Ele é muito engraçado e fofo, o tipo de personagem que aparece e você já quer colocar em um potinho porque é precioso demais para o mundo. Ele se torna parte do núcleo da Lavínia e de repente os dois se aproximam e você grita POR FAVOR SE AMEM!



A amizade é um ponto chave, a conexão entre os dois acontece devagar, no tempo certo. Não é aquele romance instantâneo; é um olhar, um sorriso, um toque, um beijo. É gradativo e adorável. É emocionante como eles se conectam, como se entendem e se deixam levar. Lavínia é ela mesma com o Evan. A garota sorridente, geek e peculiar.



Junto ao Evan, mais alguns personagens compõem esse grupo de amigos que aparece para causar boas mudanças na vida da Lavínia. Kimie, Carter e Daisy são espirituosos. É aquele grupo que se mete em muitas confusões - oi narrador da Sessão da Tarde, você por aqui - e se diverte a beça sem se importar com as consequências, mas também é um grupo sensato, que comete erros e mancadas e entende sobre a vida e seus escorregões. Eu gostei principalmente as interações entre a Daisy e a Lavínia porque, além da amizade, surge uma sisterhood importante que fala muito sobre sororidade e sobre o perigo dos julgamentos alheios. Sobre como é importante apoiar uma garota, independente de ser sua amiga ou só alguém que você viu sofrer alguma injustiça por parte de outras pessoas.

Estrelas Perdidas é carregado com mensagens simples e pesadas, coisas que precisam ser vistas e discutidas e apagadas do nosso dia a dia. É uma história sobre se encontrar, sobre se deixar perder. Sobre amizades e sobre família, sobre seu lar e suas perdas. É um livro emocionante do início ao fim, o tipo de obra que vale a pena ser conhecida e adorada.

Título original: Estrelas Perdidas
Autora: Bianca da Silva
Editora: Independente
Gênero: Young Adult
Nota: 5 +

Saiba mais: Skoob | Amazon

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COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Oi, Denise!
    Depois dessa resenha maravilhosa, só me resta ir na Amazon e adquirir meu ebook. Já quero conhecer essa história linda!
    Beijos
    Balaio de Babados
    Sorteio Três Anos de A Colecionadora de Histórias

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  2. Linda a história
    adorei as fotos que você colocou, combinou super bem.
    Amei a capinha do celular hehehe
    To com blog novo, mas ainda está em construção...passa lá :)
    bjo

    http://karina-pinheiro2.blogspot.com.br/

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  3. Oi Denise! A protagonista está morta, adorei a ideia! bem diferente e os personagens pela descrição parece ser muito bons! Adorei a resenha, achei bem completa!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Hey, Denise!
    Adorei a premissa do livro, bem diferente do que eu tenho o hábito de ler. Tenho me proposto a ler coisas novas, que me tirem de minha zona de conforto, por isso, sem dúvidas darei uma chance a esta belezinha!
    E eu adorei a sua resenha, tá linda!

    Beijocas
    Fabi Carvalhais
    pausaparapitacos.blogspot.com.br

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