Resenha: Céu sem estrelas - Queria Estar Lendo

Resenha: Céu sem estrelas

Resenha: Céu sem estrelas

Céu sem estrelas - publicado pela Editora Seguinte - é o mais recente lançamento da autora Íris Figueiredo. Com uma narrativa sensível, a autora entrega uma história carregada de emoções, que vai ficar com os leitores por muito tempo.
Sinopse: Cecília acabou de completar dezoito anos, mas sua vida está longe de entrar nos trilhos. Depois de perder seu primeiro emprego e de ter uma briga terrível com a mãe, a garota decide passar uns tempos na casa da melhor amiga, Iasmin. Lá, se aproxima de Bernardo, o irmão mais velho de Iasmin, e logo os dois começam um relacionamento. Apesar de estar encantado por Cecília, Bernardo esconde seus próprios traumas e ressentimentos, e terá de descobrir se finalmente está pronto para se comprometer. Cecília, por sua vez, precisará lidar com uma série de inseguranças em relação ao corpo — e com a instabilidade de sua própria mente.
A trama acompanha a vida de dois personagens principais: Cecília e Bernardo. A irmã de Bernardo é a melhor amiga de Cecília, e esse é o elo em comum entre os dois; conforme a história avança, no entanto, a aproximação vai além do cotidiano e envolve muito das emoções e das vivências e das coisas que eles têm em comum - e também das que não têm. Com sensibilidade e delicadeza, esse livro fala sobre saúde mental, aceitação do próprio corpo e das diversas maneiras com que as pessoas lidam com as dores, com os medos e com o mundo ao seu redor. 

Alguns livros falam com a gente, e acredito que esse seja o caso de Céu sem estrelas. A história da Cecília falou comigo e me deixou conversar com ela; conforme nos aproximamos da personagem, dos seus medos e receios, sonhos e incertezas, nos tornamos confidentes dela. Mesmo tão reclusa para os personagens ao seu redor e até dentro da própria cabeça, com todas as inseguranças e os fragmentos que a compõem, Cecília se torna real muito facilmente.
Eu estava cansada de pedir desculpas por meus sentimentos. Às vezes tinha a impressão de que fazia isso o tempo inteiro.
Ela representa uma amiga, uma pessoa conhecida, um sentimento, nossos próprios medos. A empatia que se gera com o andar da história é poderosa. Fala diretamente com a gente, mostra os terrores e os problemas e as sensações experimentadas por quem sofre o que a Cecília vem sofrendo. Depressão é uma doença perigosa, e é importante como a narrativa mostra isso de maneira bem clara. Expõe os terrores e a solidão como monstros silenciosos e traiçoeiros, desenvolve-os através das vivências da Cecília; explica aos leitores o que ela está sofrendo, e como pode procurar ajuda.
Ser gordo ia além de ser uma massa de gordura. As pessoas me encaravam e automaticamente calculavam quanto peso ganhei ou perdi desde a última vez que nos vimos [...] Aquilo me deixava louca. Simplesmente por não ter pedido a opinião de ninguém. Como alguém achava que estava no direito de opinar sobre quem eu era, o que vestia? Como alguém se sentia no direito de me deixar mal só por existir?
Outro ponto maravilhosamente trabalhado foi o do corpo da protagonista. Cecília é gorda, e inúmeras são as cenas em que ela vive situações gordofóbicas por parte de figurantes ou mesmo de familiares. O quanto isso a afeta se desenvolve dentro do arco da saúde mental, mas também serve como um tapa na cara para quem pratica esse preconceito no dia-a-dia. Comentários sobre "estar fortinha", entrar em uma loja e descobrir que o maior número do manequim não serve são situações que perturbam e servem para questionar, para mostrar que o padrão de corpo imposto pela nossa sociedade é extremamente prejudicial e perturbador.

Ao mesmo tempo em que mostra a gordofobia, também fala sobre aceitação. Sobre entender quem você é e entender a sua beleza, o que ela representa para você, como ela é importante para você. Que o que foge do padrão é importante, é belo, é seu.


Resenha: Céu sem estrelas

Bernardo, por outro lado, é o arco mais suave da trama. É o olhar de quem está por fora e quer entender. De quem quer ajudar; é um rapaz privilegiado que, mesmo com suas dores, entende e aceita seu lugar de privilégio. Mesmo com os erros e os escorregões que ele vive na história, é impossível não se apaixonar pela doçura e pelo carisma, mas principalmente pela humanidade que ele carrega.
- Não existe um céu sem estrelas, Cecília. Mesmo quando estão encobertas pelas nuvens, ainda estão lá. A gente só não consegue enxergar. 
- É como a esperança.
Aliás, humanidade é uma palavra-chave para esse livro. O quanto a história soou humana e me aproximou daqueles que a viveram foi o que mais me fez sorrir e chorar durante a leitura.

As relações familiares são um ponto importante de toda obra. Enquanto no âmbito do Bernardo temos um pouco de estabilidade - ainda que não tão estável assim (não vou revelar pra não entregar demais) -, o arco da Cecília serve, mais uma vez, para ativar boas discussões. Achei seu relacionamento com a mãe extremamente desesperador e abusivo. Não tem figura que tenha me deixado mais pistola dentro do livro do que a mãe dela, real oficial. Em contraponto para equilibrar e mostrar que "família é quem ama e cuida" estão sua avó e seus amigos. As pessoas que se importam, que lutam por ela, que a protegem e querem seu bem.


Resenha: Céu sem estrelas

Os debates dentro de Céu sem estrelas são essenciais e precisam ser trazidos à tona, especialmente na literatura jovem. Discussões sobre gordofobia, racismo, machismo e tantas outras problemáticas extremamente prejudiciais se encaixam com sensatez e muita ciência na narrativa. As cenas estão ali nos momentos certos, com o tom certo e a devida importância.
- A Mística. Gosto dela. Pode ser quem quiser. 
- Porque o mundo não quer que a Mística seja ela mesma.
- E não é assim com todo mundo?
Personagens coadjuvantes são de uma riqueza ímpar para compor o background dessa história. Iasmim - irmã de Bernardo e melhor amiga da Cecília - foi uma das mais interessantes de acompanhar; aos meus olhos, não a mais carismática e empática - e nem um pouco altruísta, porque santa Eva Green o ego dessa menina! - mas bem construída, com seus momentos de fraqueza e de força. A sensação que ficou é de que tem mais dela a ser contado, e espero que isso seja um sinal para um possível livro solo da Iasmim no futuro.

A edição é uma das mais lindas que já vi a Editora Seguinte produzir - e olha que eles têm um catálogo cheio de edições arrasadoras. A capa condiz perfeitamente com o tom do livro; meio melancólica, mas com um fundo cheio de estrelas e esperança.


Resenha: Céu sem estrelas

Céu sem estrelas é um romance emocionante, desenvolvido através de seus personagens, mas principalmente através da sensibilidade. É o tipo de livro perfeito para sorrir e para chorar e para carregar no seu coração por todo o sempre.

Título original: Céu sem estrelas
Autora: Íris Figueiredo
Editora: Seguinte
Gênero: Ficção | Young Adult 
Nota: 5 +
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COMENTÁRIOS

16 comentários:

  1. Olá, Denise.
    Vi sua empolgação no Ig mas não sabia nada sobre o livro ainda. Não conhecia nem a autora ainda. E já quero ler principalmente por abordar algo que faz parte do meu cotidiano. Eu sofro com o peso desde que me conheço por gente e no momento estou fazendo dieta. Já passei por vários episódios de humilhação mesmo. Por isso quero ler e ver como a autora abordou o assunto.

    Prefácio

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    1. Oi, Sil!
      Esse tipo de livro é muito importante, principalmente na literatura jovem. Falar sobre essas coisas, mostrar que ninguém está sozinho, é lindo. E o modo como a obra aborda isso é de emocionar!
      Tomara que signifique muito pra ti <3

      Beijos!

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  2. Oiii Denise

    Não sabia o que esperar do livro, a temática é maravilhosa e ja imagino que deve ser bem revoltante acompnhar as situações que a protagonista enfrenta por conta de ser um pouco acima do peso, adorei de verdade a autora ter trabalhado nisso pois na sociedade há uma cobrança enorme e absurda com a tal busca do corpo perfeito.
    Adorei conhecer mais da premissa e seus personagens e a edição realmente parece estar impecável. Já vai pralista, acho que essa história tb pode me emocionar.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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    1. Oi, Alice!
      A temática é realmente bem densa, mas a autora trabalha com uma sensibilidade tocante. É pra emocionar do começo ao fim, mesmo, e encher o coração de esperança.

      Beijos!

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  3. Oi, Denise
    Estava falando recentemente com a Tami sobre esse livro e de cara me interessei pela história. Eu confesso que nunca li nada com personagens gordos, então não sei bem se sentirei tanta empatia, acho que preciso provar isso pra mim mesma. Estou esperando o livro chegar da editora e estou ansiosa para ler mais a respeito da depressão também, ainda mais porque a gente está em um momento social que é preciso falar sobre esses transtornos mentais e como o preconceito afeta nossa forma de ver a vida e de nos vermos.
    Amei essa capa, ela é lindona demais.
    Beijos
    http://www.suddenlythings.com/

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    1. Oi, Mi!
      É legal pegar um livro com histórias com as quais não se está acostumada, ajuda a gente a conhecer mais do mundo e dos problemas das outras pessoas - e como fazer para ajudar e para estar lá por elas.
      Espero que tu curta bastante! E sim, a capa é lindaaaa.

      Beijos.

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  4. Aiii eu adoro a Iris e estou super com vontade de ler esse livro, nem sabia da história até ler a resenha. Adorei! Preciso dele pra já :D

    Bom domingo!
    tipsnconfessions.blogspot.com

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    1. Oi, Raquel!
      A Iris é um amorzinho, né? *-* muito amor pelo sucesso que ela está fazendo com esse livro!

      Beijos.

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  5. Oi, Denise. Tudo bom?
    Vi muitos elogios a esse livro, a capa é linda e a história realmente parece ser muito prazeroso. Quando eu voltar a ler livros amorzinho, certeza, que esse estará na minha lista.

    Já estou seguindo, o blog tá maravilhoso!

    Xero
    lidiiadias.blogspot.com

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    1. Oi, Lídia! Tudo bom e contigo?
      O trabalho gráfico da editora é de encher os olhos, e aí o conteúdo é essa coisa maravilhosa e cheia de emoção que fica no coração da gente por muito tempo. Tenho certeza que tu vai curtir!
      Obrigada pela visita <3

      Beijos.

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  6. Oi Denise, tudo bem?
    Também recebi o livro, mas te confesso que a primeira vista não tinha sentido vontade de ler de imediato, tanto que o coloquei para ser lido mais pra frente. Mas eis que venho aqui e leio uma resenha dessa, e minha visão sobre o que esperar do livro mudou totalmente. Gostei muito de saber que a autora teve sensatez e delicadeza ao falar dos temas e que foram bem inseridos no contexto da história. Espero ler em breve e gostar tanto quanto você. Bjus
    www.docesletras.com.br

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    1. Oi, Lia! Tudo bom e contigo?
      Que maravilhoso minha resenha ter ajudado no teu interesse! Tô aqui pra exaltar livros que merecem ser lidos, e esse é um dos casos <3
      Espero que você goste bastante da leitura!

      Beijos.

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  7. Oi, Nizz!
    Já quero ler só pela Cecília. Creio que na visão de muitos eu não sou gorda, mas super me identifiquei com as inseguranças referente ao corpo que a personagem tem. E essas situações gordofóbicas..
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Oi, Lu!
      É muito bom se sentir representada, se a Cecília falou contigo é porque é importante pra ti. Espero que o livro te emocione!

      Beijos.

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  8. Oi Denise, quando vi o lançamento desse livro fui atraída pela capa, simples, mas linda. A sinopse me interessou, mas não tanto assim, mas depois de ler tua resenha é inegável que preciso ler esse livro. Jamais iria imaginar os assuntos que ele aborda e a profundidade dos temas. Obrigada pela indicação.
    Beijos
    http://espiraldelivros.blogspot.com/

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    1. Oi!
      À primeira vista é um livro bem simples, mas quando tu pega e investiga e entende a história, é de uma densidade e importância sem iguais. Vai na fé na leitura!

      Beijos.

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