Resenha: Sol em Júpiter - Queria Estar Lendo

Resenha: Sol em Júpiter

Resenha: Sol em Júpiter

Sol em Júpiter é o primeiro romance da autora Lola Salgado publicado pela editora Harlequin, que nos cedeu um exemplar para resenha. Lola já é um nome conhecido da literatura nacional, principalmente no Wattpad, e nos presenteia com um romance jovem e cheio de referências e conexões, exatamente como os millenials.
Sinopse: Sol Leão é uma famosa youtuber de Florianópolis. Apaixonada pela sua “juba”, que dá nome ao canal, a jovem mostra ao mundo seu estilo e sua vida perfeita em vídeos divertidos e calorosos. No entanto, a vida real pode ser um pouco diferente disso, e um jovem com o estranho nome de Júpiter aparece para balançar o mundo de Sol e questionar as certezas que ela achava que tinha. 
Sol Leão é uma youtuber famosa por seus cabelos cacheados e volumosos semelhantes a uma juba, apelido que ela adota como marca artística, e que faz um conteúdo relacionado a moda e beleza. Por ser fora do padrão, ao menos quanto aos seus cabelos, ela é vista como uma pessoa empoderada e que ajuda outras meninas a aceitar seus cachos.

A história tem início com um dia totalmente desastroso na vida da protagonista, que culmina com um encontro com Júpiter em circunstâncias nada comuns. Ele, por sua vez, é muito diferente do que Juba está acostumada e totalmente fora do círculo em que ela vive com as redes sociais e sua vida agitada de digital influencer.
Na internet, todo mundo quer ver a vida perfeita que adorariam ter para si.
O garoto com seu jeito sério, mas com um ideal carpe diam, conquista e intriga Sol tanto quanto o seu nome de planeta. Fazendo com que seja cada vez mais difícil se manter afastada, mesmo quando existem sinais – desde o começo – que a sua reação a ele vá muito além da amizade. Principalmente porque Sol está noiva de outro youtuber, alguém que vive a mesma realidade que a sua, a quem ela acredita amar.

Sol em Júpiter é um livro leve e sem grandes dramas, que se propõe a discutir alguns assuntos importantes principalmente para as novas gerações tão conectadas, mas que tem seu foco de fato no romance principal. Uma leitura extremamente rápida e engraçada, com suas doses de romance picante e cenas que você poderia encontrar em qualquer bom filme de comédia romântica.

Dito isso, preciso apontar algumas ressalvas que tive com a história, principalmente conforme foi passando o tempo depois de ter finalizado a leitura. Os primeiros desencantos que tive foram de caráter extremamente particular e pessoal e, portanto, não devem de forma alguma afetar a leitura das demais pessoas.
O sacrifício valia a pena. Tudo em nome de ter mais seguidores. Era sempre em nome de ter mais seguidores.
Para começar, com toda a sugestão do título, a arte gráfica e os nomes dos protagonistas acabei esperando por uma história que fosse envolver muito mais os astros e os signos. Mas tirando o apelo e marketing trazido por esses elementos, na história eles não possuem um real papel no desenvolvimento da trama, fazendo com que eu já tenha lido livros que dessem muito mais importância para essa temática sem que eles tenham sido vendidos dessa forma.

Outro ponto que me desagradou um pouco foi o mal aproveitamento de Floripa, que eu acredito poderia ter sido o cenário perfeito para um livro como este se melhor utilizada. Principalmente se Júpiter fosse o que eu esperava ao ter lido a sinopse: alguém muito mais de boa com a vida, curtindo o momento e talvez até mesmo naquela vibe mais de surfista. Sério, como a Lola perdeu de fazer esse menino ser um surfista em Floripa eu jamais entenderei! Mas, de novo, essas reclamações são baseadas em expectativas que eu criei e não foram atendidas, e não devem atrapalhar a leitura. Embora eu realmente teria amado um surfista!

Resenha: Sol em Júpiter

Agora, quanto aos fatores que realmente me incomodaram e que dizem respeito ao desenvolvimento da história, eles foram três no total: a escrita, que em alguns momentos soa muito amadora; a relação de Sol com o noivo e Júpiter; e o suposto empoderamento da personagem.
Um sentimento de urgência trazido pela ideia de que tudo era efêmero. Até mesmo nós. Principalmente nós.
Quanto a escrita tive alguns problemas, principalmente no início do livro, para conseguir me desapegar da sensação de um certo amadorismo. Quem leu muita fanfic como eu – mais de 13 anos no ramo - sabe que existe um determinado perfil de escrita que remete muito a esse estilo, e isso não é necessariamente ruim. Mas é confuso, e eu não gosto, ler um livro com uma escrita que me remeta a uma fanfic.

E aqui não é “culpa” da autora, e sim da editora em não chamar a atenção para essas cenas. Um exemplo claro do “estilo fanfic” são as cenas desnecessariamente longas e explicativas que acontecem para apresentar certos personagens, como no caso de Clarice (melhor amiga de Sol). Ou, simplesmente, cenas que não acrescentam e nada a história e poderiam ser cortadas sem interferir em nada no livro (de novo, a apresentação inicial de Clarice).

No que diz respeito ao relacionamento da Sol com o noivo e com Júpiter, o que me incomoda é a hipocrisia da personagem (e da autora, e de quem lê e torce pelo romance dos dois, mas critica o noivo). Sim, o noivo da Sol não é a melhor pessoa do mundo e realmente merece o espaço dele na estante dos embustes. Mas isso não anula o fato de ela ter desejado o Júpiter desde o primeiro momento, e mesmo que ela não tenha de fato feito algo em relação a isso, ela nunca fez nada para se afastar dele e sempre pensou nele de forma sexual.
Você é linda. Sua risada é linda. Sua boca é linda. Você é inteira linda.
Apaixonar-se por outro estando noiva, não é também uma forma de traição? Iniciar um relacionamento em menos de 12 horas após terminar um noivado, não é uma certa hipocrisia? Será mesmo que quando falamos de amor e traição, são apenas os nossos atos que contam? Isso só me faz pensar que nunca foi o amor ou respeito ao noivo que a impediu de ficar com Júpiter antes, e sim o anel em seu dedo. Tão logo ele saiu, Sol e Júpiter já eram um casal pra lá de firme.

Por fim, chego ao ponto principal do livro e que mais me incomodou, principalmente ao ler outras resenhas e não perceber comentários quanto a isso. Sol nos é apresentada como uma personagem “empoderada”, pois fez do bullying sofrido por conta do seu cabelo a sua própria marca, mas não é isso o que vi. Sim, Juba pode realmente amar seu cabelo e sentir-se bem com ele, e isso de fato pode ajudar outras garotas a pensar o mesmo, mas não podemos esquecer que ela é uma youtuber branca, loira, magra e classe média.

A única coisa fora do padrão é o seu cabelo, e isso pode ser problemático sim, mas não podemos negar que a imagem pintada por ela é muito mais ligada a beleza exótica do que a algo não aceito. Sol é a personificação da Vitória, de Ana & Vitória, e não consigo ver ninguém dizendo que ela é qualquer coisa que não bonita. O assunto poderia ser bem diferente, porém, se Sol fosse negra. Como bem sabemos, o cabelo natural negro sim é visto com maus olhos, taxado de “cabelo ruim”, e o empoderamento criado a partir da aceitação de seus cachos por uma personagem negra seria muito mais importante e cabível.

Gif da Vitória sendo linda apenas para provar meu ponto 2bj
Para além disso, pois não quero que pensem que é apenas implicância pela cor da personagem, Sol é uma youtuber de moda e beleza que afora seu cabelo não tem nada de “empoderada”. Ainda que odeie saltos e maquiagem, não cogita não os usar pois uma blogueira como ela não poderia negar tais elementos; ainda que odeie alimentação saudável e controlada, fica apavorada com a ideia de engordar, o que significa que chega a ficar sem comer em nome de perder peso (já que fazer exercícios é algo que ela detesta).

Ou seja, Sol é uma personagem extremamente problemática. E não estou apenas falando “finjo viver uma vida que não é a minha”. Estou falando de novamente se apelar para o velho discurso de “o que não é saudável é mais gostoso” e “prefiro ficar sem comer a ter de fazer exercício”, e atrelar isso a uma personagem que tem medo de ficar gorda. Por que ser gorda é ruim, certo? Não temos todas medo de sermos gordas? Mas não amamos ler sobre como as protagonistas, para provar que são “gente como a gente”, sempre vão preferir comer um hambúrguer com fritas no lugar de um lanche saudável?

Resenha: Sol em Júpiter

Talvez não seja a função de Lola Salgado ter de nos ajudar como sociedade a quebrar certos vícios, não creio que de fato seja obrigação dela ou de qualquer outra autora fazer isso. Ao mesmo tempo, não posso negar que ao escrever personagens como Sol ela acaba por reforçar esses estereótipos e vícios. Pode ser que não seja lugar dos livros nos ensinar e discutir questões sociais, mas é inegável que eles exercem o papel do meio pelo qual aprendemos e reforçamos nossas crenças e pensamentos.
- Esqueci de viver porque fiquei muito ocupada atuando. Fingindo ser alguém de quem nem ao menos consigo gostar.
Termino essa resenha imensa dizendo que sim, eu gostei do livro. Não, Sol não é uma boa personagem quando você a enxerga. Mas para isso, é preciso enxerga-la. Para discutir sobre Sol, é preciso conhecer Sol, e se ver nela, e ver sua amiga nela, e entender que existem tantas outras Sol por aí na cultura pop, e na nossa vida.

Sol em Júpiter é um livro que quanto mais tempo faz que eu li mais eu penso nele. E não pelos motivos que a autora queria, provavelmente, mas por outros que ela talvez nem tenha pensado sobre.

Título original:
 Sol em Júpiter
Autora: Lola Salgado
Editora: Harlequin
Gênero: Romance | Chick-lit
Nota: 4
Skoob


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COMENTÁRIOS

9 comentários:

  1. Oi Duda!
    Te entendo perfeitamente sobre as ressalvas!
    Estou curiosa pra ler esse livro, está na minha lista! Mas até então n tinha lido nenhuma resenha falando sobre esses pontos... Acho q podem me incomodar tbm!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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  2. Oi Duda, como vai?
    Eu recebi este livro de cortesia da editora, mas acabei não lendo. Fiz sorteio com ele. Enfim... Eu achei o trabalho gráfico do livro muito bom, a sinopse nos passa a ideia de uma história leve, divertida e que nos apresenta uma personagem empoderada, mas ao iniciar a leitura, não foi bem isso que senti. Por isso acabei não dando continuidade a mesmo. Gostei muito da sua resenha e de como você soube expor seu ponto de vista.
    Bjus
    www.docesletras.com.br

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  3. Gostei da resenha Eduarda. Um ponto que me desanimou na leitura foi esse lance de infidelidade velada da protagonista. Beijo!

    www.newsnessa.com

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  4. Oi Duda,
    Eu confesso que não gostei do livro e estou bem em duvida se solto ou não a resenha, porque algumas coisas me incomodaram muito na obra.
    E foram coisas de enredo mesmo, nem tanto a escrita, viu?
    Acho que vale para as pessoas não irem com tanta 'sede ao pote', rs.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  5. Duda, mulher... e eu já estava preparada para ver uma nota baixa, mas me surpreendi com a sua depois de todos os pontos que levantou.
    Eu queria ler esse livro, mas estou bem decepcionada que não envolva signos (prazer, louca dos signos).
    Agora essa da empoderação com a loira de cabelos cacheados achei forçado demais. Como você disse, todo mundo acha lindo uma loira com uma juba de cachos, mas na negra é outros quinhentos...
    Beijos
    Balaio de Babados
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  6. Olá, Eduarda.
    A primeira coisa que notei no livro e que quase me fez não querer ler ele foi essa insinuação com a astrologia, que não gosto muito, mas depois fui ver e não era nada daquilo. Eu gostei do livro, para ser lido como um livro de comédia romântica, daqueles que a gente lê depois de um livro mais pesado, mas que depois a gente esquece o que leu, porque se for pensar vai ver esse monte de coisa que você falou mesmo. E não achei ela empoderada em nenhum momento, estava mais para falsiane porque pregava uma coisa e fazia outra. Sem falar que traição não é só o ato como você citou.

    Prefácio

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  7. Oi, Eduarda
    Eu ainda não li o livro mas pretendo. O que me incomoda é esse tanto de referência a signos na capa, e no fim não tem isso, e é muito nada a ver esses nomes escolhidos pros personagens, muito sem noção. Eu não lia fanfic então pra mim não tem tanta diferença, mas consigo perceber amadorismo um quilômetro de distância se estou lendo um livro, espero que eu não tenha essa sensação.
    Beijo!
    http://www.suddenlythings.com

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  8. Oi, Duda

    Depois de todas as suas considerações, pensei que viria uma nota no mínimo três. Acho que devo endossar o que a Mi pensa de mim, sou muito má com as notas dos livros! Hahahahaha
    Sobre as suas ressalvas, compreendo todos os pontos levantados. De início eu não quis ler o livro, nada nele me chama a atenção. E agora, com todas as problemáticas levantadas por você, de maneira muito pertinente, colocaram a lápide na existência dessa história pra mim.
    O que mais me incomodava, e issi desde as primeiras resenhas, era de fato a hipocrisia da protagonista em relação ao noivo e a sua relação com Júpiter.
    Pra mim só o fato de cogitar já tá errado. Não. Apenas não! Enfim, não lerei.

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  9. Oi Duda, tudo bem? Eu não li o livro, mas eu não tenho paciência com historias enroladas, com muitas cenas desnecessárias, ás vezes menos é mais. Apesar de não conhecer a protagonista, só vou discordar em relação ao cabelo porque eu já vi muita gente mesmo não negra sofrendo bullying com isso. Quando eu tinha mais cabelo (pq agora eu tenho bem pouco rs), minha chefe uma vez veio reclamar que eu não arrumava.... mas de qualquer forma, de fato uma personagem negra teria mais impacto. No mais, a Ariane lá no blog vai ler, eu acho que passarei rsrsrs

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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