Resenha: Vox - Queria Estar Lendo

Resenha: Vox

Resenha: Vox

O que são 100 palavras em um dia? Nada significante. Algumas frases aleatórias. Pouco mais de um tweet. Imagine que um governo estabelece que você, mulher, não tem o direito de falar mais do que essas 100 palavras por dia - se o fizer, vai ser punida. O tipo de punição que se expande terrivelmente até seu fim. Vox, lançamento da autora Christina Dalcher, é a história sobre um país dominado pela opressão, onde as mulheres foram forçadas a se calar.
Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo... Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. ...mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.
Este ARC foi cedido em cortesia pela Editora Arqueiro. As quotes citadas nesta resenha não estão de acordo com a revisão definitiva, então podem mudar na edição final.

Na trama, os Estados Unidos estão sob um governo extremista; conservador e regido pela religião. Desde a vitória desse presidente, o terrorismo corre solto na perseguição aos Direitos Humanos, mas principalmente às mulheres. Subjugadas pela religião, que prega sua inferioridade diante dos homens, foram obrigadas a se calar. 100 palavras por dia é determinado como suficiente para que elas vivam e se comuniquem. Se falarem uma palavra a mais do que isso, as pulseiras presas aos seus corpos disparam choques como punição; não precisam mais trabalhar ou interagir com as pessoas fora de sua casa e de sua família. Não precisam ter uma voz quando significam tão pouco para a ideologia perigosa do governo.

A Dra. Jean McClellan tem experimentado o inferno. Cientista e fonoaudióloga, ela estudou a fala e as palavras durante toda a sua vida para vê-las arrancadas de seu alcance com brutalidade e repressão. Porém, quando Jean é a única capaz de ajudar o presidente em uma tarefa tida como impossível, quando é estendida a ela uma chance de recuperar suas palavras para, quem sabe, fazer desse acontecimento uma tentativa de rebelião,Jean precisa confrontar sua realidade, sua família e o perigo de erguer a voz em um mundo silenciado pela violência e pelo medo.
Pensem em expressões como "permissão do cônjuge" e "consentimento paterno". Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada.
Vox foi uma montanha-russa de emoções do início ao fim. Um livro visceral e desesperador, com uma narrativa frenética e equilibrada. É o tipo de história que te faz virar as páginas ansiosamente, curiosidade e medo trilhando os capítulos por vir. Tal como O Conto da Aia, é uma distopia extremamente atual; fala sobre machismo em sua mais vil e "pura" intenção, que é a de rebaixar as mulheres única e exclusivamente por seu gênero. Fala também da tirania contra outras minorias, do quão nociva e mortífera é a ideia de superioridade. De que alguém se coloque acima de todo o resto unicamente por algumas características que os diferenciam.


Resenha: Vox

Os Puros da história são, em sua maioria, homens. São os detentores da voz, os responsáveis por roubar das mulheres sua liberdade, sua presença no mercado de trabalho e no dia-a-dia. São aqueles que olharam para o louco que pregava tais ideias e o consideraram o salvador da pátria.
Talvez tenha sido isso que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode muar tanto até ficar irreconhecível. É fácil, penso.
O livro também dá uma amostra de mulheres que escolheram acreditar nas pregações da religião e do governo como o discurso mais sensato, a "única saída". Assim como fala sobre o apoio, também fala sobre o arrependimento que cresceu quando o poder chegou às mãos daquele monstro.
O que as meninas estudam agora? Um pouco de soma e subtração, ver as horas, saber contar o troco. Contar, claro. Devem aprender a contar até cem.
Parece familiar? A gente conhece, através da História, o poder de um discurso extremista. Vimos o que o nazismo fez com o mundo - o que ainda faz -, as marcas que a Ditadura Militar deixou em nosso país. Vox nada mais é do que um retrato da atualidade; não me surpreenderia nada ver um candidato subindo ao palco e clamando que as mulheres devem ser caladas. Não me surpreenderia nada uma multidão louvando sua candidatura.


Resenha: Vox

Quanto mais próxima da realidade que vivemos, mais assustadora é uma distopia. A leitura de Vox me deu angústia, me deu raiva, me deu vontade de sair gritando 101 palavras, 201, 301 palavras só para ter certeza de que elas ainda me pertenciam. Ler a jornada da Dra. Jean foi uma experiência revoltante e esperançosa; saber seus pensamentos e seu desejo de liberdade, ler seus pequenos atos de rebelião ascendendo a coisas mais notáveis foi aquela faísca de esperança sempre tão presente e necessária em histórias desse tipo.
- Tenha cuidado, querida. Você tem muito mais a perder do que sua voz.
Achei Jean uma protagonista sensata e coesa. Madura e bem desenvolvida. É uma cidadã que, num passado, foi apática à política e ao chamado à luta das feministas e agora vê a consequência do seu silêncio. É uma sobrevivente da opressão e da tirania. Uma guerreira que riu e se deliciou ao ver que a única esperança do homem que tirou sua voz estava em suas mãos. Uma mãe. Uma filha. Uma cientista. Uma mulher.

Sua relação com o marido, Patrick - uma figura sensata, mas cautelosa dentro do cenário político em que vivem - é pautada em um misto de revolta pelo silêncio dele e compreensão pelo cuidado. A relação dela com o cientista Lorenzo foi mais interessante, mas acho que eu estava tão fisgada pela trama política e revolucionária que acabei não me ligando tanto à parte amorosa da história. A familiar prendeu mais minha atenção.
A insensatez dos homens sempre foi tolerada.
Jane tem três filhos; Steven, o mais velho. Os gêmeos, mais apagados dentro da trama. E Sonia, sua caçula - já punida com a presença da pulseira de choque. Com Steven, os embates são revoltantes. Com Sonia, são desesperadores. Jane confronta vários lados das ideologias extremistas e da doutrinação religiosa que vêm crescendo no país. Steven, um peão das ideias absurdas, me fez revirar os olhos e querer gritar em dezenas de cenas. É o retrato de como se constrói um fascista. Como se faz acreditar que ideais de supremacia são corretos.


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Sonia, por outro lado, é a vítima em todo seu cerne. Uma criança que não vê o terror, vendada para a parte ruim de todo aquele cenário, doutrinada a segui-lo à risca para ser recompensada. Se não falar, pode ganhar um sorvete. Se ficar quieta durante todo o dia, vai ser a melhor aluna da turma - o fato de Jane temer pelo que a tortura física faria pela filha bate de frente com o medo de vê-la subjugada pelo sistema.

Além dos filhos, Jane tem grandes momentos de flashbacks, voltando a tempos onde ainda havia liberdade e voz, onde escolheu não ouvir Jackie, sua melhor amiga, ativista feminista, a respeito das atrocidades que o candidato à presidência vinha espalhando. É bastante interessante como a Jane oprimida encara a que desconhecia a opressão; como ela se vê ingênua e cega a coisas que agora são tão óbvias. Como escolheu fechar os olhos a fazer alguma coisa para mudar uma possibilidade - possibilidade essa que agora é a realidade e seu maior pesadelo. Como batia de frente com a Jackie em relação aos protestos e às críticas diárias e como percebeu, da pior maneira, o quanto sua amiga tinha razão.
- Honestamente, Jacko... Você está ficando histérica. 
- Bom, alguém precisa ficar histérica por aqui.
Eu poderia me estender muito mais a respeito dessa história, mas parte da grandiosidade de Vox está no meio do livro. Nas reviravoltas mais do que inesperadas, dos caminhos obscuros e questionadores que a obra toma. Todo o desenvolvimento de Jane em relação ao pedido do presidente e dos rumos que sua aceitação a levam são grandiosos e chocantes.


Resenha: Vox

Uma única ressalva sobre o livro, para mim, fica com o final. Acho que 90% da história estava indo muito bem, mas aqueles 10% do fim soaram um pouco... distantes. A ideia que uma parte da trama me vendeu não batia com o que estava sendo entregue. Não é ruim, longe disso. É conciso e carregado em adrenalina e faz com que você não consiga respirar até entender o que vai acontecer. Aos meus olhos, no entanto, não me convenceu por completo.

A Editora Arqueiro deu um salto grandioso e empoderador ao trazer esse livro para cá e eu só posso agradecê-los e garantir que vou indicar Vox para todo mundo.
Todas aquelas casas são pequenas prisões, penso, e dentro delas existem celas na forma de cozinhas, lavanderias e quartos.
Vox é uma história sobre as mulheres. As sobreviventes de uma tirania. As vozes forçadas a se calar que encontraram outros meios para se fazer ouvir. É um livro poderoso, inestimável e extremamente necessário nos tempos sombrios que estamos vivenciando; onde a força da voz de um opressor é e sempre vai ser calada pelo grito de milhões de mulheres.


Título original: Vox
Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Tradutora: Alves Calado
Gênero: Distopia
Nota: 5 +
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COMENTÁRIOS

12 comentários:

  1. Oi, Nizz!
    Fui lendo sua resenha e só lembrando d'O Conto da Aia. Eu vejo o quanto esses dois livros estão mais próximos da nossa realidade que a gente nem imagina. Eu tenho muito medo que, algum dia, eles se tornem nossa realidade.
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Oi, Lu!
      É bem na vibe de O Conto da Aia mesmo. Aquele tipo de história que deveria ser uma distopia bem distante, mas parece cada vez mais com um cenário atual. É desesperador, mas muito importante pra se ter em mente.

      Beijos.

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  2. Oi Denise!
    Foi um prazer ler sua resenha 😍
    Arqueiro acertou muito ao lançar esse livro, é muito atual e necessário.
    Por isso amo tanto ler distopias!
    Fiquei muuuito curiosa pra descobrir as coisas da trama q vc escondeu na resenha, hahahah
    Espero poder comprar e ler logo!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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    1. Oi, Carol!
      Fico muito feliz por tu ter curtido. Escrever sobre esse livro foi muito difícil!
      Espero que você consiga ler em breve, é MARAVILHOSO.

      Beijos.

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  3. Oi, Denise
    Eu não consigo imaginar momento melhor pra esse livro ter chegado aqui. Parece que foi premeditado porque do jeito que as coisas estão, estou ficando realmente assustada com tanto ódio, machismo, homofobia e preconceito serem dados a torto e a direito, isso por pessoas que consideramos "amigos" e "sensatos".
    Eu não tinha entendido muito bem sobre a história quando descobri o lançamento, nem tinha me interessado muito, mas caramba, estou arrepiada e muito ansiosa para poder ler essa obra. Espero não me decepcionar!
    Beijo
    http://www.capitulotreze.com.br

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    1. Oi, Mi!
      Exatamente! É tão assustador o quanto os discursos dentro desse livro se assemelham ao que a gente está vivendo, mas também é importante pra mostrar resistência. Pra mostrar que a gente não vai se calar. Onde houver opressão, há resistência.
      Espero que leia em breve! Vou adorar saber sua opinião sobre ele.

      Beijos!

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  4. Oiii Dê

    Que pena que esse final não te convenceu, a trama é sensacional e me lembra muito a angústia de O Conto de Aia. Com certeza pensar que essa é uam daquelas realidades não tão impossiveis dá até um calafrio na gente, recentemente li um artigo sobre a Arábia Saudita e o direito de dirigir (que algumas mulheres conquistaram com muita dificuldade) e que surpresa foi conferir que as maiores opositoras desa conquista eram justamente outras mulheres que se acomodaram na religião e nas idéias impostas ao longo dos séculos, lembrei disso quando vc citou essas mulheres retratadas do livro que aceitam a "unica saída".
    Eu quero ler esse livro com certeza, parece ser bem brutal e desde a sinopse a gente ja sente o dilema da protaognista, curiosa em conhecer as escolhas dela.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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    1. Oi, Alice!
      Quanto mais a gente pesquisa a respeito dos tipos de opressão que existem, mais nervosismo e medo e RAIVA, honestamente.
      Isso que tu comentou é bem verdade. Sempre vai haver oprimido em meio aos opressores; no Conto da Aia mesmo, se não fosse a Serena, aquele regime talvez nem existisse - e olha como ficou a vida dela depois da instauração né :/ É triste, mas a gente luta até por aqueles que apoiam o absurdo. Um dia eles vão entender.
      Espero que leia logo, ansiosa pra ver sua opinião!

      Beijos.

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  5. Oi, meninas! Indiquei vocês numa tag bacanuda!
    https://balaiodebabados.blogspot.com/2018/10/tag-84-frases-de-crianca.html

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  6. Oi Denise,

    Uau sabia que esse livro seria dos bons. Ele está na minha lista de leitura e com certeza vou querer ler e conhecer a história dessas mulheres que sofreram nesse governo.
    Bjs e um bom fim de semana!
    Diário dos Livros
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    1. Oi, Jessica!
      Leia sim, fale muito sobre ele. Na situação atual que estamos vivendo, esse e outros livros do gênero se farão muito necessários pra mostrar o perigo do futuro que pode acontecer.

      Beijos.

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