Meu Ano Lendo Mulheres

  • 09:00
  • 29 de dez. de 2018
  • Meu Ano Lendo Mulheres

    No fim de 2017 a minha maior meta para o ano de 2018 era ler apenas mulheres. A ideia não pareceu tão radical a principio, uma vez que a grande maioria dos livros na minha estante já eram de mulheres e, agora, eu venho aqui contar como foi esse meu ano lendo mulheres.

    Sendo honesta com vocês, eu não via realmente a ideia de ler apenas livros escritos por mulheres como um desafio, porque há algum tempo que eu já usava isso como critério para desempate em livros - por exemplo, se eu estava entre dois livros que eu queria muito ler e só pudesse levar um, eu sempre levava aquele escrito por mulheres.

    E isso porque eu perdi a paciência para protagonistas masculinos ou para a estereotipação de personagens femininas escritas por homens - que embora não aconteça sempre, aconteceu o suficiente comigo para me deixar revirando os olhos. Eu não tenho mais saco para o adolescente estranho apaixonado pela menina linda do colégio, ou para o garoto descobrindo um mundo mágico onde ele tem a chance de ser herói, ou para o homem de meia idade se encontrando as voltas com um suspense onde ele é escrito de forma que todo mundo diga "ai ele é tão cinza, tão humano" quando na maior parte do tempo ele é só babaca com um visão misógina de mundo.

    Sério, eu posso estar sendo pessimista e, novamente, eu sei que isso não acontece sempre, mas a reação imediata que eu tenho quando vejo um livro protagonizado por homem é "já li isso em 2008". E quando é uma protagonista feminina imediatamente me vem a mente alguns artigos em que homens falavam sobre o que faziam para "entrar em contato com seu lado feminino" para escrever seus protagonistas, onde teve gente que teve a pataca de falar que "usava sutiã em casa" para saber como uma mulher se sentia.

    Honestamente, tem que acabar o homem babaca.

    Meu Ano Lendo Mulheres

    Então, como a ideia de ler apenas mulheres não era, em si, desafiadora para mim, eu decidi que leria qualquer coisa escrita por uma mulher que aparece para mim. O que quer dizer que eu me instiguei a fazer algumas leituras mais diversas. Lendo em outras línguas, buscando nacionais, tentando novelas e contos, fantasia, ficção científica, terror e também não ficção.

    Não ficção, aliás, que tive a oportunidade de ler coisas maravilhosas e importantes, como Quem tem Medo do Feminismo Negro? e também Mamãe e eu e Mamãe, com a história de vida de Maya Angelou que foi tão diferente da minha e, ainda assim, trouxe tantos sentimentos familiares ao falar de sua relação com a mãe. Fiquei maravilhada com o livro e com a pessoa que Maya foi, e já estou ansiosa para ler Eu Sei porque o Pássaro Canta na Gaiola, sua autobiografia dos anos 60 - e acho que posso afirmar com bastante convicção que Maya Angelou se tornou uma baita inspiração para a minha vida.

    A parte de ficção, eu comecei a descer os livros da estante que estavam lá pegando poeira a anos. Alguns, como Vinte Garotos no Verão, foi uma leitura bem dentro da minha zona de conforto e que não trouxe nada de novo ou interessante. Mas também teve coisas como Garotos Corvos, que foi uma leitura deliciosa e confusa e alucinada e maravilhosa que me deixou apaixonada.

    Consegui ler fantasia inspirada em vikings, com Sky in the Deep, e o meu primeiro YA de romance policial histórico (NUNCA ACHEI QUE UMA COISA DESSA IA EXISTIR) com Rastros de Sangue: Jack, o Estripador.  Teve a Sue Monk Kidd e a Isabel Allende me jogando no chão com suas ficções históricas, jornadas de vidas sofridas, longas e maravilhosamente narradas - livros que não achei que leria de outra forma.

    E falando em livros que não teriam parado na minha mão se eu não tivesse me desafiado a ler mais, A Livraria e A Erva Amarga foram dois deles. O primeiro, uma ficção premiada que virou filme (e já está disponível na Netflix!) e o segundo, um conjunto de crônicas inspirados na vida da autora, como uma judia fugindo do exercito nazista na Holanda da Segunda Guerra Mundial.

    Também teve algumas decepções, como Como Ser Mulher, Atormentada e Side Effects May Vary, mas nem tudo é perfeito sempre, né?

    Meu Ano Lendo Mulheres

    Mas no fim, o que eu aprendi com esse ano dedicado a conhecer mais mulheres foi que:
    • A gente precisa se arriscar mais e sair da zona de conforto, ler mais livros que não estão dentro dos nossos gêneros preferidos, porque estamos deixando muita coisa boa passar batido;
    • Nem todo livro bom vai ser uma boa experiência de leitura. As vezes a narrativa não é exatamente o que a gente esperava e vamos nos arrastar um pouco, mas vale a pena, porque quando o livro termina, fica a sensação de ter livro uma história maravilhosa.
    • A gente REALMENTE não dá valor para a narrativa feminina, muito livro escrito por mulher HÁ DÉCADAS, premiado, chega ao Brasil e passa batido porque os leitores torcem o nariz e as editoras mal investem na divulgação deles;
    • Se a gente quer ler mais mulher, TEM QUE PESQUISAR. Especialmente se a gente não quer ficar só no que aparece no mainstream;
    • Mulheres fodas escrevendo livros fodas tem a dar com os pés, com uma quantidade impressionante de livro publicado, que facilmente daria para fazer um "10 anos lendo apenas mulheres";
    • (Infelizmente) o gênero do autor do livro importa sim, e não adianta a gente dizer que "não repara nisso" quando pega um livro, ainda mais quem é blogueiro. Muita autora de vanguarda, com livros premiados e carreira consolidada são recebida com surpresa pelos leitores, como se existisse algum feitiço que estivesse escondendo ela do mundo por todo esse tempo (o feitiço chama machismo). O mesmo não acontece com autores homens, é muito mais fácil citar autor clássico e premiado do que autoras;
    • O número de mulheres chegando ao mainstream através de YAs é impressionante e empolgante, e mais empolgante ainda é que elas se recusam a fazer uma "simples história de amor para adolescentes" e tem entrado no mercado com história sobre racismo, homofobia, machismo, com fantasias que fazem alusões a problemas sociais atuais, que se inspiram em cultura pouco valorizadas (e até demonizadas), provando que ficção adolescente não é limitada.
    Por fim, eu queria encerrar esse texto repetindo: ninguém vai entregar na sua mão uma lista de autoras maravilhosas e fodas que você precisa conhecer, é preciso ir atrás, especialmente em áreas onde ainda encontramos resistência, como a fantasia, o terror e a ficção científica.

    Valorize as autoras que você conhece, arrisque-se a conhecer outras e questione os autores e estilos que tem na sua estante. Lembro sempre de uma fala da minha orientadora do TCC, falando que leitura é entretenimento, mas também é crescimento pessoal. A gente lê o que conforta, mas também precisa buscar coisas além daquilo que conhecemos e já gostamos, precisamos encontrar leituras que expandam a gente: nosso vocabulário, nossas ideias, nossa visão de mundo. E por muito tempo a literatura foi limitada por homens brancos.

    Meu ano lendo mulheres valeu muito a pena, porque me ensinou muito sobre as minhas leituras, sobre o mercado editorial e sobre outros leitores. Foi fácil e também desafiador, nem sempre gostei das leituras, mas todas elas acrescentaram algo interessante. E, embora eu não pretenda recusar livros escritos por homens ano que vem, sei que assim como em 2017 (e nos anos antes) as mulheres vão continuar ganhando cada vez mais espaço na minha estante e na minha lista de leituras.

    E aí, alguém ai toparia o mesmo desafio?

    1. Muito legal essa sua experiência. Acho que os que leio são bem meio a meio no quesito escrito por homens ou mulheres. Gostei dos pontos que você colocou após esse ano com essa meta. Muito legal!

      www.vivendosentimentos.com.br

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    2. Olá, Bianca.
      Achei bem bacana sua experiencia. Acho que de uns tempos para cá as mulheres ganharam mais destaque na literatura que antes era praticamente dominada pelos homens. Não que não existissem, mas não eram lembradas e divulgadas. Eu mesmo das antigas de cabeça só consigo citar minha autora favorita de todos os tempos Agatha Christie e Jane Austen. E antes de ser blogueira eu não reparava e até achava que isso não fazia diferença, mas como você disse, faz sim, é uma mulher falando de algo que ela conhece.

      Prefácio

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    3. Oi Bibs!
      Que legal que viveu uma experiencia tao grande. Eu nem somo pra ve quantas autoras eu li pq KKKKKK Eu so leio mulher Kkkkkk so quem se salva e o Riordan, mas o resto e mulher.
      Eu sai um pouco da minha zona de conforto em 2018. Li os primeiros romances de epoca. Ano que vem quero escolher algo mais para tentar, mas nao tao brusco. Vou ir aos poucos. Boa sorte em 2019!
      GAROTOS CORVOS HINO. TO QUASE ACABANDO A SERIE.

      Abraços
      David
      territoriogeeknerd.blogspot.com

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    4. Oi Bibs! Que bacana seu ano lendo mulheres, geralmente eu só leio mulheres rsrsrs muito difícil ler autores e amei Rastro de Sangue, espero logo pela continuação!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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    5. ameiiii ver esses livros de mulheres que vc leu, muita coisa bacana mesmo!to doida pra ler o mito da beleza e tbm queria ler a maldição da casa da colina

      www.tofucolorido.com.br
      www.facebook.com/blogtofucolorido

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    6. Oi, Bibs
      Eu não tenho tanta dificuldade pra ler livro com mulheres, seja autoras escrevendo ou seja personagens femininas, isso porque a maioria dos gêneros que tem esse formato são os que eu mais gosto de ler. Entretanto, eu não li muitos livros com representatividade, seja do negro, LGBTQ ou alguém com necessidades especiais, etc, e é algo que eu quero mudar no ano de 2019.

      Beijo!
      http://www.capitulotreze.com.br/

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    7. Oi Bibs,
      Eu super topo! Aliás, fui fazer um levantamento e eu só li mulher esse ano, HAHAHAHA. Dos 82 livros, 82 são de autorAs. \o/\o/\o/
      Acho que meu grande problema vem sendo diversificar gêneros, porque a maioria foram romances. Ano que vem preciso ler mais livros com representatividade, thrillers, mistério...
      beijos e parabéns! Seu post foi inspirador.
      http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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