Porque há livros que eu não recomendo?

  • 09:00
  • 30.3.19

  • Hoje eu venho falar de algo que talvez (provavelmente) seja polêmico, mas quero dizer porque há livros que eu não recomendo. E quero fazer isso porque não recomendar um livro, pra mim, não é uma questão pessoal, até porque sou muito capaz de entender que nem todo mundo vai gostar do que eu gosto e vice versa.

    Achei interessante fazer essa postagem, também, pela cultura que parece ter se estabelecido - especialmente quando falamos de literatura nacional - de que se você não vai elogiar um livro, então tem que guardar para si mesma para não "desanimar" o autor. E, embora não estejamos aqui para atacar ou humilhar autores, estamos sim para escrever sobre tudo o que lemos.

    Como autora e como leitora eu tento ao máximo não usar essa expressão "não recomendo livro X", e isso porque:
    1. Gosto é extremamente pessoal, o que me desagradou pode agradar você;
    2. Toda história pode ser interpretada de X formas, e a sua não precisa ser igual a minha;
    3. As vezes eu li o livro no tempo errado;
    4. Eu não era realmente o público-alvo do livro.
    Entre vários outros motivos. Tudo, e absolutamente tudo que a gente passa na vida, cria uma "bagagem" que interfere na nossa forma de ler e ver as coisas, por isso eu sempre exponho minhas opiniões sobre o que li, mas evito de não recomendar.

    (um exemplo recente foi com Leah Fora de Sintonia, onde eu sinto que a minha bagagem emocional interferiu muito na forma como eu li o livro).

    Minha opinião pode ser um norte - como a opinião de várias outras pessoas me dá um norte sempre que eu me interesso por um livro -, mas é isso que ela é no fim das contas: uma opinião, e deve ser respeitada como tal, não como verdade absoluta.

    Quando desgostamos de algo e queremos expressar nossa opinião sobre o assunto, é preciso nos perguntar se isso se dá por algum motivo pessoal, ou se porque esse livro está promovendo um crime como algo saudável ou glamouroso, por exemplo.

    Porém, todavia, entretanto, eu já disse algumas vezes sim que existiam livros que eu não indicava - e pretendo continuar fazendo isso. Porque meu problema com esses livros não são opiniões, não é um personagem chato com quem não me conectei, não é um enredo lento, não é porque a história não aconteceu como eu queria, nem nada do tipo. São problemáticas que esquecem completamente o papel social do livro e romantizam, glamorizam, fazem apologia e endeusam violência, abuso, crimes.

    E, como eu já falei aqui, abuso não é opinião, é fato. E me sinto na obrigação de falar sobre isso nas resenhas e de não recomendar o livro. Porque não vou ficar quieta diante de um desserviço, diante de algo que criticamos de novo e mais uma vez aqui no blog.

    Não recomendar livros com apologias a crimes ou que romantizem violência não é o mesmo que criticar um livro pois não se conectou com os personagens/não gostou do desenvolvimento da premissa e isso precisa ficar bem claro. Não gostar dos personagens/desenvolvimento é uma opinião pessoal e, por tanto, mutável. Varia de pessoa para pessoa. Romantização da violência é IMUTÁVEL, pois não se trata de uma opinião, mas de um fato. Violência não é algo que existe ou acontece "dependendo do ponto de vista" e isso precisa ser reforçado. 

    Publicar e enaltecer um livro que faça isso é um desserviço, especialmente em uma sociedade onde cerca de 70% mulheres sofrem algum tipo de violência ao longo da vida¹, onde uma mulher é estuprada a cada onze minutos², onde estima-se que apenas entre 10% e 30% dos estupros sejam denunciados (especialmente pelo medo das vítimas de serem culpadas e humilhadas pela violência que sofreram, uma vez que é comum a VÍTIMA ser julgada muito mais do que o criminoso)³, onde as mulheres entre 15 e 40 anos no mundo todo correm mais risco de serem mutiladas ou mortas pela violência masculina do que pelo câncer, pela guerra e por acidentes de carros JUNTOSº.

    Portanto, para mim, dizer "eu não recomendo" e "esse livro É RUIM" quando estamos falando de violência romantizada e apologias a crimes, não é uma opinião pessoal, não é mesquinho, não é agredir o autor, é constatar um fato, e é tentar evitar a popularização de um livro que esquece seu papel social e traz um desserviço a comunidade que deveria informar e entreter. E eu vou continuar fazendo até o fim.

    E espero que cada vez mais pessoas fiquem cientes disso e se posicionem, também. Porque acredito que juntas nós podemos conscientizar e, com muita esperança, acabar com esse tipo de história.


    Fontes:
    ¹, ², ³: links para os dados apresentados.
    º Dado retirado do livro "Os Homens Explicam Tudo para Mim", da Rebecca Solnit.

    1. Olá, Bianca.
      Assino embaixo sobre tudo o que você disse. Não recomendar por gosto pessoal é uma coisa e não recomendar por ser uma coisa que a gente sabe que é muito errado é outra. Eu não leio e não recomendo livros New Adults. Se existe um que não romantize relacionamento abusivo eu ainda não encontrei. É diferente de eu não recomendar livros eróticos por não gostar de ficar lendo cenas de sexo. Gosto pessoal é muito diferente. Temos o exemplo do livro After que eu estou cansada de ver o povo defendendo com unhas e dentes e até virou filme e é uma situação que não tem como a gente recomendar.

      Prefácio

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    2. Oi, Bibs!
      Adorei teu texto. Também há livros que não recomendo e ainda digo os motivos porque eu trabalho com provas.
      Beijos
      Balaio de Babados

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    3. "Portanto, para mim, dizer "eu não recomendo" e "esse livro É RUIM" quando estamos falando de violência romantizada e apologias a crimes, não é uma opinião pessoal"
      É isso aí! Não é questão de opinião, é errado e não deve ser popularizado, PONTO!

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    4. Que texto mais incrível, simplesmente concordo com tudo o que você escreveu. Texto espetacular!

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    5. Oi Bibs,
      PALMAS para você! Achei incrível esse texto e dá vontade de esfregar ele na cara de alguns autores, rs.
      Não pense que sou violenta, só concordo que existe muita romantização de abuso e que isso é péssimo para as leitoras que ainda não perceberam isso.
      beijos e parabéns!
      http://estante-da-ale.blogspot.com/

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    6. Oi Bibs!
      Eu concordo muito contigo. Antigamente eu realmente fazia isso de dizer pior livro e tais coisas. Hoje em dia eu sempre utilizo o termo decepcionante e destaco que é para mim. Experiencia de leitura e algo muito pessoal e chamar de pior, as vezes pode privar uma pessoa de ter essa experiencia e talvez se sair melhor. Mas entendo que certos livros sejam toxicos. E tem toda razao. Eu nao li nenhum com essas caracteristicas, mas também nao recomendaria se acontecesse.

      Abraços
      David
      http://territoriogeeknerd.blogspot.com/

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    7. Este comentário foi removido pelo autor.

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    8. Oi, Bibs Concordo que contra fatos, não há argumentos. Eu procuro sempre deixar claro quando não gosto da trama por determinado motivo, mas que não deixo de incentivar a leitura. Agora promover algo maléfico é outra história.

      Beijos
      - Tami
      https://www.meuepilogo.com

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    9. adorei esse post, e concordo mt com sua opiniao; apesar de gosto ser pessoal tem certos temas que nao devem ser apoiados

      www.tofucolorido.com.br
      www.facebook.com/blogtofucolorido

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    10. Oi Bi
      Adorei o seu texto. Infelizmente ainda existem muitos livros romantizando abuso, crimes e coisas assim. E devemos, sim, falar sobre isso, expor. Não gostar de um livro acontece, mas enaltecer comportamentos abusivos é simplesmente errado.

      Vidas em Preto e Branco

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