Skeeter #11: Abuso não é Opinião, é Fato - Queria Estar Lendo

Skeeter #11: Abuso não é Opinião, é Fato

Skeeter #11: Abuso não é Opinião, é Fato

O texto de hoje vai puxar o assunto de que abuso não é opinião, é fato, e isso porque eu tenho me incomodado com a forma como as pessoas tem respondido a críticas sobre romantização de abuso, seja no skoob, em grupos do facebook e até em algumas postagens aqui do blog.
Eu já falei sobre algo parecido no texto Não é Erótico, é Abuso.
Eu acredito que hoje tem-se fortalecido muito uma cultura de respeitar a opinião alheia, mesmo quando contrária a sua, em debates pela internet - ao menos no tocante a livros de romance. E eu acho isso muito bacana, você ser capaz de ouvir um ponto de vista diferente do seu a respeito de um livro, e respeitar o direito das outras pessoas de terem uma opinião própria a sobre o que leram.

Eu sempre digo que um livro nunca é lido da mesma forma, especialmente porque as pessoas vão interpretar as informações dele a partir das suas bagagens pessoais. As vezes perdemos algumas referências, pegamos outras. As vezes um detalhe desencadeia toda a uma relação de identificação conosco, porque vivemos algo semelhante, mas não desperta absolutamente nada em alguém que não tenha uma experiência parecida.

E eu realmente acho que isso enriquece muito a história de um livro, e o debate e a troca de ideias é importantíssimo para conseguirmos enxergar vários ângulos de uma mesma história.

E tendo dito isso, eu gostaria de reforçar apenas, no entanto, que abuso não é opinião, é fato. Opinião é quando a gente especula os motivos de uma personagem agir como agiu, se isso não é explicado no livro. Opinião é quando a gente se conecta ou não com um personagem, quando o ritmo lento - ou muito acelerado - do livro nos entedia ou empolga. Opinião é não curtir a narrativa ou as escolhas de palavras.

Opinião não é criticar abuso. Eu acho muito interessante quando eu aponto algum abuso romantizado - ou nem tanto - e as pessoas vem me falar "não concordo com você, mas respeito sua opinião". Fico pasma. Não estou dando minha opinião. A partir do momento que a "cena de sexo" continuou mesmo com a mocinha dizendo NÃO, é um estupro. E isso não está aberto para discussão, é um fato.

Se a mocinha vocifera uma opinião e o mocinho tenta convencê-la de que ela está errada e louca, a ponto dela duvidar de si mesma, é gaslight e isso é abuso, fato, não opinião. Se o mocinho envergonha o parceiro por causa da sua orientação sexual ao ponto dele sentir necessidade de pedir desculpas por quem é, isso é abuso, não opinião.

Skeeter #11: Abuso não é Opinião, é Fato
Imagem do blog Crítica Consciente, leia mais aqui.
E também não é "falar de uma cena fora de contexto" porque NÃO EXISTE um contexto onde a mocinha diga NÃO ao sexo (ou comece a chorar no meio dele, ou trema de medo ao ser tocada, etc), o mocinho continue e isso não seja um estupro. Não importa o quanto o/a autor/a se esforce para você acreditar o contrário, se foi dito um não, se existiu uma resistência ou um desconforto, por exemplo, e a cena continuou, é estupro em todo e qualquer contexto.

Não importa que o/a autor/a te diga que a mocinha chorou ou tremeu quando o mocinho tocou ela "mas no fundo ela queria muito aquilo", porque sabe quem mais diz isso? TODO ABUSADOR, SEMPRE. "Ela queria ser estuprada", "ela gosta de apanhar" é uma das coisas que a gente MAIS ESCUTA quando crimes do tipo são denunciados e não são nem um pouco verdade. E é esse tipo de atitude que abuso romantizado reforça.

O abuso é um fato que não pode ser mudado de acordo com o seu ponto de vista. Lolita é um livro que fala de abuso, e isso fica claro. Você querer enxergar ele como um romance, porque acha que Lolita estava "seduzindo" Humbert Humbert o tempo inteiro, não vai mudar o fato de que ele era um homem de meia idade e Lolita uma garota de 12 anos. Não vai mudar o fato de que tudo que aconteceu naquele livro foi abuso.

Não é a minha opinião que Humbert Humbert abusou e estuprou Lolita, é um fato marcado nas páginas do livro e imutável, não importa o quanto você bata o pé para dizer que não. Basta ler a definição no dicionário que vai ficar bem claro.

Acredito que essa política de "educação" contribui para um certo desapego da responsabilidade social do livro - além de passar pano para o abuso porque tudo pode na ficção. E essa ideia de dizer que a crítica ao abuso romantizado é uma opinião serve apenas para que as pessoas possam se esquivar de encarar a realidade de que estão apaixonadas por uma personagem abusiva, que estão fantasiando e desejando para si algo que na realidade poderia terminar por matá-las.

Skeeter #11: Abuso não é Opinião, é Fato
Imagem do site Compromisso e Atitude, leia mais aqui.
E eu compreendo que quando lemos um livro queremos escapar da realidade. Que não podemos pensar a cada segundo do dia que uma mulher é estuprada no mundo (no Brasil, uma a cada 11 minutos) ou que a cada 27 horas uma pessoa trans é assassinada no Brasil. Que no Brasil 3 mulheres morrem todos os dias apenas por serem mulheres, e a cada 2 minutos uma mulher denuncie um abuso.

Mas também compreendo - e compactuo - com a ideia de que os livros são instrumentos de conhecimento e, por tanto, devem nos fazer questionar. Por mais entretenimento que eles pareçam, geralmente podemos tirar alguma discussão a partir deles. E quando a gente taxa fatos de opinião, estamos removendo a necessidade de nos questionarmos sobre o que acabamos de ler.

Quando o mocinho segue a mocinha para onde quer que ela vá, isso não é ciúmes. É obsessão, é sentimento de posse, e quando tenta justificar o fato de você ter gostado disso com um "o abuso é opinião do outro" você está deixando de se questionar por que achou aquilo romântico em primeiro lugar. E quando a gente não se questiona, ficamos estagnados e alienados e sempre exatamente no mesmo ponto.

Temos o privilégio de poder ler um infinito de livros diversos, e nos recusar a aproveitar esse potencial de senso crítico por medo de examinar melhor a nós mesmos parece um desperdício.

Então não, o abuso apontado não é uma opinião, um ponto de vista, é um fato imutável. E se você se deparar com alguém expondo algo do tipo sobre um romance que você curtiu, talvez seja melhor realmente questionar-se sobre o que leu, e como chegou aquela interpretação, do que taxar logo de opinião e seguir em frente.

Fazer uma leitura por prazer ou entretenimento não significa que precisamos deixar o nosso senso crítico adormecido. Além do mais, descobrir coisas novas e abrir os olhos para outras realidades não deveria ser visto como um problema, com relutância, mas sim uma oportunidade para crescer. E não existe vergonha nenhuma em crescer como pessoa.

Por fim, eu queria poder dizer "não me leve a mal, não é pessoal", mas a verdade é que é pessoal sim. Para mim e para todas as mulheres que já sofreram e ainda sofrem esse tipo de violência. Não dá apenas para abominar o machismo, é preciso ser anti-machismo, anti-misoginia e enfrentá-los de frente. É preciso apontar para quem ainda escreve esse tipo de narrativa romantizada e dizer "pare, não vou mais ler seus livros ou apoiar você. Você é parte do problema" porque é verdade.

Tudo aquilo que contribui para a manutenção da cultura do estupro é parte do problema - mesmo quando é a nossa omissão. E precisamos parar com isso já.

Share this:

, , ,

COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Oiii Bibs

    Concordo com tudo o que vc diz, também fico pasada com algumas opiniões que leio, em sua grande parte em livros eróticos porque lá tem muito isso do milionário seduzindo a secretária que a a principio reluta mas, vamos ele é CEO, então tá tudo bem. Acho revoltante, acho grotesco e acho assustador notar tal inversão de valores e até mesmo uma certa frieza. Romantizar abuso, estupro ou pedofilia (na minha opinião esse é o caso de Lolita, ela tinha 12 anos, acho que se enquadra até como pedofilia) é um tema que deveria ser discutido mais e mais nas redes, criar uma conscientização nas pessoas. A maioria das leitores desse tipo de livro é mulher e vê-las aceitando, achando normal e até bonitinho algo assim só demonstra o quanto a sociedade ainda precisa refletir mais e evoluir pelo amor de Deus

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

    ResponderExcluir
  2. Olá, Bibs.
    Tem horas que eu nem acredito no que estou lendo, principalmente em alguns grupos no face. Vejo mulheres defendendo tudo quanto é tipo de abuso e achando tudo romântico. Eu nem leio mais New adults porque até agora não encontrei nenhum que não tivesse algum tipo de abuso. E quando comento sobre alguns com o povo, eu que sou muito exigente. Aff. E ciumes na minha opinião já é um abuso porque a base de todo relacionamento é a confiança. Não aceito é pronto. Gostei muito da sua postagem.

    Prefácio

    ResponderExcluir
  3. Oie, tudo bem?
    Nossa, amei tanto esse texto.
    Tem coisas que NÃO são questão de interpretação; como você disse, são FATOS.
    E o que tem de livro usando abuso como se fosse romance... vish!
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, sua opinião é sempre muito bem-vinda!