Resenha: Horror Noire - A representação negra no cinema de terror

  • 09:00
  • 11 de nov. de 2019
  • Resenha: Horror Noire - A representação negra no cinema de terror

    Horror Noire começou como uma pesquisa acadêmica da Dra. Robin R. Means Coleman e acabou dando origem a um livro e um documentário que explora a representação negra no cinema de terror desde o seu nascimento, no fim do século XIX até os anos 2000. O livro foi publicado no Brasil pela editora DarkSide Books - que nos cedeu um exemplar para a resenha.


    Sinopse: Desde que Ben colocou ordem na casa em A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, ver um personagem negro como herói nos filmes de terror se mostrou possível — e pra lá de necessário. A Noite dos Mortos-Vivos é um clássico cult agora, e foi uma das maiores contribuições de Romero para o gênero e para a mídia, contudo, já se passaram cinquenta anos desde que o filme exigiu que nos perguntássemos o que era mais assustador: zumbis comedores de carne, ou aquilo que fazemos uns com os outros diariamente? O terror, como gênero que desafia limites, tem sido um lugar para análises provocativas de racialismo e racismo bem como alternativas na cultura popular estadunidense. E muito se tem pesquisado e escrito sobre a história dos negros no cinema, mas até agora sua presença — ou ausência — nos filmes de terror tem sido relegada a um único capítulo ou a várias notas de rodapé. Para contribuir com a narração histórica da negritude no cinema de gênero, a Dra. Robin R. Means Coleman — professora norte-americana nascida e criada na mesma cidade que Romero e Tom Savini — desenvolveu uma pesquisa profunda com a análise das imagens, influências e impactos sociais dos negros nos filmes de terror desde 1890 até o presente. Coleman afirma que o terror oferece um espaço representativo único para desafiarmos as imagens mais negativas e racistas vistas nos meios de comunicação. Sua ampla pesquisa cronológica do gênero para o livro Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror inclui grandes produções de Hollywood, filmes de arte, blaxploitation e as emergentes produções de horrorcore inspiradas pela cultura hip-hop. Uma obra única que encoraja o leitor a desmontar a imagem racializada do gênero, assim como as narrativas que compõem os comentários da cultura popular acerca de raça, e acende um debate feroz e necessário sobre o poder do horror, seu impacto na sociedade, e suas reproduções como reflexo dela.


    Assim que a DarkSide Books anunciou Horror Noire eu fiquei louca para ler. Gosto muito de filmes de terror e analisar a representação das minorias em todas as mídias é algo que dou muito valor - é importante compreender o passado para que possamos mudar o futuro, certo?


    No começo fiquei um pouco apreensiva, com medo de estar um pouco enferrujada e me embananar na narrativa. Pensei que, por ter começado como uma pesquisa acadêmica, eu teria alguma dificuldade para embalar a leitura.

    Mas não foi nada disso. A narrativa é muito fácil e Dra. Robin R. Means Coleman compôs seus argumentos e análises de forma muito clara e bem definida. Ela nos deu a base e o contexto para cada um deles e guiou-nos por todo o caminho com muita paciência.

    Resenha: Horror Noire - A representação negra no cinema de terror

    O livro é dividido em décadas, e cada capítulo analise os filmes de terror que saíram naqueles anos e como retrataram os negros na tela. De expressões racistas com o uso de Black Face e a criação e fortalecimento do negro selvagem como um perigo a branquitude, até os filmes influenciados pelo movimento dos direitos civis, que buscavam o empoderamento negro, Horror Noire traça um perfil do espaço relegado aos negros no cinema de terror.

    E foi uma leitura para lá de interessante. É muito comum escutar que o "politicamente correto" "estraga" o entretenimento. No entanto, em Horror Noire, é fácil perceber como o entretenimento foi (e ainda é) um força poderosa que pode tanto manter e apoiar opressões, como libertar.

    Ao explicar o nascimento da representação negra no cinema, Robin R. Means Coleman mostra como os estereótipos pregados não eram exclusivos do nicho terror e como persistiram mesmo em décadas onde movimentos pelos direitos civis eram fortes - e até mesmo após o fim da segregação racial. Uma época em que, tecnicamente, esperava-se uma revolução na forma de tratar raça em todos os meios e círculos.

    Resenha: Horror Noire - A representação negra no cinema de terror

    Dos mais persistentes, podemos ver o negro como alívio cômico, extremamente medroso e crédulo, como um serviçal leal ao protagonista branco e, ainda, com sua representação sujeita ao blackface - que hoje em dia se esconder por detrás de uma ideia de "homenagem", ignorando a origem racista da prática.

    Horror Noire também nos apresenta narrativas completamente negras, em especial durante os anos 70, que buscavam empoderar negros e criar representações positivas - mas que nem sempre estavam livres de problemas, especialmente no que se referia a representação negra feminina, por exemplo.

    Obras que buscavam eliminar a representação do homem negro como uma ameaça aos brancos - em especial as mulheres brancas - e a ideia do negro selvagem. Mas que, em contrapartida, criaram ideias tóxicas a cerca da masculinidade negras.

    No entanto, um dos pontos que mais me chamou a atenção foi perceber que pouquíssimos filmes conseguiram colocar pessoas negras como personagens bem desenvolvidos e interessantes, onde a cor de sua pele não os resignava automaticamente a um minúsculo papel secundário, servo leal medroso ou vítima número um.

    Uma dificuldade ainda maior com a chegada dos blockbusters, que acabaram com os cinemas de bairro e minaram as produções independentes - onde grande parte das obras completamente negras eram produzidas. E isso levando em consideração cem anos de filmes de terror.

    Resenha: Horror Noire - A representação negra no cinema de terror

    O que só prova a necessidade de, cada vez mais, apoiar artistas que produzam obras que quebrem estereótipos, invertam papéis e busquem respeito para comunidades marginalizadas por séculos.

    Horror Noire: a representação negra no cinema de terror foi, definitivamente, uma das minhas melhores leituras do ano e vou recomendar para todo mundo! Independente de como você se sente em relação ao cinema de terror (ou cinema no geral) é um baita exercício para o pensamento crítico e o impacto do entretenimento no sistema social e na nossa formação pessoal.

    Título original: Horror Noire: Blacks in American horror films from the 1890s to present
    Autora: Robin R. Means Coleman
    Tradutor: Jim Anotsu
    Gênero: Não Ficção | Cinema |
    Nota: 5


    1. Oi Bia, tudo bem? Eu ainda estou lendo, estou no capítulo 5 e amando cada página, tanta coisa que eu não sabia! É uma verdadeira aula sobre a representatividade ou ausência dela dos negros no cinema. Esse livro merece muito ser divulgado!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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