Resenha: Dread Nation

  • 09:00
  • 16 de mar. de 2020
  • Resenha: Dread Nation

    Uma ficção apocalíptica que usa o cenário da guerra civil norte-americana para falar sobre racismo e problemáticas misóginas, Dread Nation começou com uma narrativa enérgica e entregou uma das melhores histórias que já li do gênero.

    Sinopse: Jane McKeene nasceu dois dias antes dos mortos começarem a percorrer os campos de batalha de Gettysburg, Pensilvânia - descarrilando a Guerra entre os estados e mudando o país para sempre. Nesta nova América, a segurança para todos depende do trabalho de poucos, e leis como a Lei da Educação para Nativos e Negros exigem que certas crianças frequentem escolas de combate para aprender a abater os mortos. Mas também existem oportunidades - e Jane está estudando para se tornar uma Atendente, treinada em armamento e etiqueta para proteger o bem-estar das damas brancas da sociedade. É a chance de uma vida melhor para garotas negras como Jane. Afinal, nem mesmo ser filha de uma rica mulher branca do sul poderia salvá-la das expectativas da sociedade. Mas essa não é uma vida que Jane quer. Quase terminando os estudos na Escola de Combate Miss Preston, em Baltimore, Jane está voltando para sua casa em Kentucky e não se preocupa muito com a política das cidades do leste, com a conversa de devolver a América à glória de seus dias. antes que os mortos ressuscitassem. Quando as famílias do condado de Baltimore começam a desaparecer, no entanto, Jane é pega no meio de uma conspiração, e se encontra em uma luta desesperada por sua vida contra alguns inimigos poderosos. 

    Na história, estamos a alguns anos da Guerra Civil que dividiu os Estados Unidos - no entanto, neste universo paralelo, ela foi interrompida quando os mortos se ergueram de seus túmulos, forçando o Norte e o Sul a chegar a um acordo (com a vitória da União aqui também) e libertar os escravos para ajudar na luta contra os zumbis.

    A voz da história é de Jane. Ela foi mandada para estudar em uma escola especial que forma garotas negras para se tornarem Acompanhantes, guerreiras capazes de proteger damas brancas dos ataques de mortos-vivos. Tal como muitas outras, Jane não teve escolha; ela foi tirada de casa, de sua mãe e de tudo que conhecia para ser obrigada a aprender a lutar. Para ela tudo bem, no entanto, se significa que pode voltar para Rose Hill quando os estudos acabarem.

    Infelizmente para ela, algo de estranho tem acontecido nas redondezas. Famílias ricas têm desaparecido, mortos-vivos surgem onde menos se espera e uma conspiração parece nascer entre seus superiores, forçando Jane e sua curiosidade a tentar investigar o que está mudando por ali.

    Justina Ireland já começa esse livro de maneira magistral. Apresenta o mundo dividido não apenas pelos zumbis, mas também pela cor; a vitória da União, assim como na nossa realidade, pode ter dado liberdade aos negros, mas não deu voz e muito menos escolhas de crescimento pessoal. Tirou as algemas e os deixou seguir em frente, mas para onde? Aqui, de volta ao domínio dos brancos, só de maneira um pouco diferente.

    Eu aprendi que posso ser cruel quando preciso, e que eu posso ser misericordiosa quando sou capaz. Eu aprendi que não há nada que não possa fazer no escuro se tiver um pouco de esperteza. E não tenho dúvida de que sou bastante esperta.

    Em vez de serem obrigados a servir nos campos, na história eles são "convocados" como frente de batalha. As garotas, para ajudar as damas brancas; os garotos, para acompanhar mas também para ir até os campos de guerra ajudar com as hordas de mortos-vivos. É um mundo de servidão baseado na sobrevivência, mas ainda uma espécie de servidão.

    Resenha: Dread Nation

    E o racismo que corre solto entre a alta sociedade é nocivo e perturbador e tão bem demonstrado pela autora que perturba nas suas mais diversas formas. Seja um comentário feito por uma dama, um olhar de um membro da elite ou até mesmo o rebaixamento forçado às garotas guerreiras pelo simples fato de terem uma cor de pele diferente daquela que comanda, a crítica da autora é ácida através dos comentários da Jane e às vezes até através de sua cegueira quanto ao que vive.

    Afinal, é uma sociedade racista. Faz parte do dia a dia; enquanto coisas mais descaradas causam revolta na protagonista, outras são corriqueiras, não são questionadas porque, apesar de horrendas, ali são vistas como comuns por todo mundo, inclusive por quem é afetado. É o famoso "não tem como questionar como não sabe o que deve ser questionado" que permeia tantos grupos inferiorizados na nossa sociedade.

    Não há nada que brancos odeiem mais do que perceber que trataram um negro como uma pessoa.

    Conforme a narrativa avança e a jornada de Jane percorre caminhos inesperados, maior e maior é nossa revolta e fúria e desejo de justiça pelo que ela é forçada a viver. É uma ficção onde mortos caminham pelo mundo, mas o maior inimigo ali é o homem branco, mais uma vez.

    Jane em si é uma das melhores personagens femininas que li em muito tempo. Ela é destemida, questionadora, curiosa e cheia de carisma. Tem o tipo de voz que dá vontade de continuar acompanhando; somando isso à energia da narrativa e à tensão que a ambientação carrega, com suas cidades isoladas e futuro incerto, eis um livro impecável.

    Desafio, fúria e terror tomam a minha voz. Eu me recuso a fugir, e não vou deixar meus companheiros falharem também. "Somente os mortos morrem hoje!

    Sua convivência com os demais personagens vai desde simpatia até uma fúria completa e vingativa - sempre muito justificada, diga-se de passagem. É bom vê-la feliz, é bom vê-la com raiva, é bom ver suas emoções crescendo e ajudando Jane a seguir em frente.

    Uma personagem em especial que ajudou Dread Nation a ficar ainda melhor é Katherine. Ela é uma das colegas de Jane na escola e, a princípio, existe um tipo de rivalidade entre as duas por causa da competitividade e por Jane ser explosiva e Katherine um exemplo de aluna - a queridinha da turma, que se sobressai em tudo, etc.

    "Eu odeio como eles pensam. E odeio saber que meu rosto vale mais do que o resto de mim."

    Por trás disso, no entanto, existe uma personagem densa carregada em angústia. Enquanto os dilemas com Jane existem em volta da condição imposta a ela como guerreira e também da sua ânsia por voltar para casa, os de Katherine falam sobre pertencimento e sobre solidão. A autora aborda com delicadeza a questão do colorismo - sendo a pele de Jane mais escura e a de Katherine mais clara a ponto de algumas pessoas a confundirem com uma branca - e como isso se molda na cabeça das personagens. Rendeu um dos melhores diálogos do livro e certamente ainda vai trazer muita coisa para a continuação da história.

    Esse é um mundo cruel. E as pessoas são a pior parte.

    Não bastasse TUDO ISSO, Dread Nation também aborda diferentes sexualidades (bi e aro) e misoginia (quase 100% intrincada com o racismo, mas tem um pouco de espaço para falar sobre as mulheres brancas marginalizadas pela alta sociedade a partir do fato de não pertencerem a ela). Junte todas essas críticas sociais e raciais a um enredo recheado de ação, tensão e suspense, com uma ambientação histórica fabulosa e você tem um dos melhores livros de ficção histórica/científica/fantástica que existe.

    Eu não poderia ter escolhido uma obra melhor para a segunda leitura do Desafio das Mulheres da Literatura. Justina Ireland entrega uma trama poderosa, com personagens femininas ricas e impactantes e um apocalipse zumbi como eu nunca vi antes.

    Título original: Dread Nation
    Autora: Justina Ireland
    Editora: Balzer + Bray
    Gênero: Ficção Histórica | Fantasia
    Nota: 5 +

    1. Uau, estou impactada Denise! Eu gostei muito da premissa da obra, e acho muito necessária. Principalmente agora que o racismo está cada vez mais evidente, sabe. Estou querendo sair da zona de conforto e ler gêneros que não curto tanto, como a distopia. Mas não sei se seria por agora já que eu tô de ressaca literária, mas vamos na fé.
      Beijo!
      http://www.capitulotreze.com.br/

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    2. Nossa D~e, achei a premissa tão boa e ja nem acho mais tão irreal assim rsrsrs, confesso. E tem tantos temas interessantes e importantes, já quero ler em português.

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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    3. Oi Nizz!
      Eu adorei a premissa. Não conhecia mas so pelas questões que aborda ja fiquei curioso *-* parece muito bom .

      Abraços
      Emerson
      http://territoriogeeknerd.blogspot.com/

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    4. Olá, Denise.
      Já fui ver se tinha por aqui porque preciso ler ele hehe. Além de uma história muito bem construída, ainda com isso tudo de criticas sociais? Já quero com certeza.

      Prefácio

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