Resenha: A Balada do Black Tom

  • 09:00
  • 27 de out. de 2020
  • Resenha: A Balada do Black Tom

    Minha segunda leitura da Maratona Literária de Halloween foi A Balada do Black Tom, que é uma homenagem e uma crítica muito bem-vindas do autor Victor LaValle a H.P. Lovecraft. O livro faz uma releitura de Horror em Red Hook, um dos contos mais racistas e xenofóbicos do autor clássico; e é uma história importantíssima por isso.

    Sinopse: As pessoas se mudam para Nova York em busca de magia e nada vai convencê-las que ela não está lá. Charles Thomas Tester luta para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a cabeça de seu pai, aceitando fazer trambiques e trabalhos obscuros do Harlem a Red Hook. Ele sabe bem o tipo de magia que um terno pode proporcionar, a invisibilidade que um estojo de guitarra lhe oferece e a maldição escrita em sua pele, atraindo os olhares atentos de ricas pessoas brancas e seus policiais. Mas quando faz a entrega de um livro oculto a uma feiticeira reclusa no coração do Queens, Tom abre uma porta para um domínio mais profundo de magia – despertando a atenção de seres que deveriam permanecer adormecidos. Uma tempestade que pode engolir o mundo está se formando no Brooklyn. Será que Black Tom irá viver para vê-la se dissipar?

    Na trama, acompanhamos o jovem Tommy Tester. Ele é um péssimo cantor, mas sabe tocar algumas músicas no violão, sempre carregando o estojo vazio para carregar suas coisas por aí. Depois da entrega de um misterioso livro numa casa estranha, Tommy acaba por cruzar o caminho de Robert Suydam, um homem estranho que o contrata para cantar em uma festa - festa essa que promete dar novas visões ao mundo que se conhece.

    Resenha: A Balada do Black Tom

    Do outro lado da história, temos Malone - figura carimbada no conto original de Lovecraft - um detetive lidando com investigações a respeito de Suydam e sua ligação com misticismo e possíveis seitas satânicas.

    - A indiferença seria um bom alívio.

    Eu nunca tinha lido Horror em Red Hook justamente por apontarem tanto como a história mais tóxica e preconceituosa do Lovecraft. Passei por muitos contos famosos dele com um misto de "a mitologia é muito boa" e "puta merda como esse homem era um bosta", então foi maravilhoso pegar esse livro, escrito por um autor negro, que faz uma releitura de uma história problemática pela voz de quem foi atingido por ela.

    A lição que Tommy Tester aprendeu em vez dessa foi a de que era melhor arranjar uma maneira de fazer seu dinheiro, porque este mundo não estava tentando deixar um preto rico.

    Não é aquela coisa de "separar a obra do autor", mas sim "pegar a obra do autor e reescrever para mostrar o quanto ela era problemática". O autor gostava dessas histórias, mas se viu machucado por elas, e fez uma coisa por si mesmo que foi pegar tudo que era ruim e mudar a perspectiva; no conto do Lovecraft, o racismo e xenofobia são escrachados. Estão ali em todas as páginas, na maneira com que ele descreve os personagens de cor, como se refere com humanidade aos brancos e com monstruosidade aos personagens negros.

    Resenha: A Balada do Black Tom
    Resenha: A Balada do Black Tom

    Victor faz um trabalho brilhante subvertendo o que já foi visto, mostrando o sofrimento do personagem Tommy e dando vida ao bairro em que ele vive. Tudo que é "demonizado" pelo olhar racista de Lovecraft é invertido por Victor, que mostra o preconceito e a brutalidade realista da época, o horror que as pessoas negras viviam nas mãos dos brancos. O racismo que imperava a sociedade é parte da narrativa, mas de maneira consciente e perturbadora como deve ser mostrado.

    O horror cósmico também aparece e é muito bem abordado pelo autor; todo o mistério e tensão em cima do que existe no Exterior, quem é o Rei Adormecido e o que Suyman está tramando que se relaciona ao desconhecido, esses detalhes carregam muito terror e são bem apresentados e desenvolvidos no decorrer da narrativa.

    Resenha: A Balada do Black Tom

    O final é devastador, mas também um sopro de ar fresco na obra original.

    A edição da Morro Branco, aliás, é linda e encaixa bastante no tema. Eu achei interessante que eles trouxeram o conto original, Horror em Red Hook, ao fim do livro - justamente para comparativos e também para mostrar o quanto era tóxica e perturbadora justamente por isso. O horror não estava nos elementos cósmicos, mas na visão preconceituosa do Lovecraft.

    Qualquer dia desses, vou trazer Cthulhu para vocês, demônios.

    Para quem gosta da temática e não quer ter que conviver com a narrativa racista e problemática do Lovecraft, A Balada do Black Tom é uma história rápida, concisa e maravilhosa que traz todos os elementos originais, mas também humanidade e bom senso no desenrolar da trama.

    Título original: The Ballad of Black Tom
    Autor: Victor LaValle
    Editora: Morro Branco
    Tradução: Petê Rissati
    Gênero: Terror
    Nota: 5

    1. Olá, Denise.
      Acabei de ver uma resenha de Território Lovecraft e confesso que nem sabia desse assunto até então. Nunca tive nenhum contato com a escrita do autor. Mas acho muito bacana o autor ter se proposto a mostrar o outro lado da história.

      Prefácio

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    2. Oi, Denise

      Nunca li nada do Lovecraft e sequer conhecia a obra que foi recontada. Apesar de nunca ter lido nada dele, conheço sua fama e por isso achei a ideia do LaValle muito boa. Aliás, têm várias outras por aí que se beneficiariam de algo assim.

      Beijos
      - Tami
      https://www.meuepilogo.com

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    3. Ai, mulher, eu com esse livro descobri que horror cósmico não é pra mim kkkkk mas gostei do Tommy ameaçando soltar tu-sabe-quem no meio do povão kkkkk
      Beijos
      Balaio de Babados

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    4. Oiii Denise

      Ai meu Deus eu quero muito ler esse livro, principalmente pelo autor ter feito essa releitura tão primorosa do conto original (que não li justamente por todas as criticas e avisos do quanto a obra é racista e xenofóbica e isso realmente me incomoda). Achei incrivel ele inverter isso, e dar um final novo e que faz o leitor se sentir de certa forma recompensado. Com certeza quero ler esse livro.

      Beijos, Ivy

      www.derepentenoultimolivro.com

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    5. Oi Denise, eu leio Lovecraft com o mesmo sentimento que o seu! Muito bacana essa releitura, não conhecia, mas quero conferir!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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