Resenha: Quarto do Despejo - Diário de uma Favelada

  • 09:00
  • 5 de nov. de 2020
  • Resenha: Quarto do Despejo - Diário de uma Favelada

    Neste ano de 2020, essa obra completa seus 60 anos de publicação. O Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada foi escrito por Carolina Maria de Jesus, uma mulher preta, que só teve dois anos de estudo - somente o suficiente para aprender a ler e a escrever - e que viveu na extinta favela do Canindé, na cidade de São Paulo.

    Sinopse: O diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus deu origem a este livro, que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.

    Como o próprio nome diz, a obra foi escrita em formato de diário. Nele, a autora vai relatando o seu sofrimento em ter que viver às margens da sociedade, dividindo o seu barraco com seus 3 filhos, Vera Eunice, José Carlos e João José. Carolina, que era mãe solteira, sustentava sua família com o dinheiro que conseguia catando papelão nas ruas de São Paulo.

    Muitas coisas neste livro me chamaram atenção. Apesar de só ter estudado formalmente por 2 anos, Carolina escrevia seus textos de forma simples, mas com muita sensibilidade. Os textos foram publicados da mesma forma como foram escritos e portanto existem inúmeras palavras que estão grafadas fora da norma culta da língua portuguesa, mas isso não tira o brilho do trabalho dessa mulher, ao contrário, traz ainda mais sensibilidade ao texto.

    Outra coisa que muito me chama a atenção, é a capacidade da autora de analisar as situações de forma muito crítica. Ela faz comentários sobre políticos da época, sobre o quanto a favela é um espaço esquecido dentro da cidade. E aproveitando o gancho, é possível perceber que mesmo 60 anos depois, muita coisa continua do mesmo jeito que ela relata no livro.

    Além da sua relação com o espaço da favela, outro elemento muito presente no texto é a fome.

    São muitos os momentos em que a escritora traz relatos de fome. Não só a sua fome, mas a fome de outras pessoas, dos filhos, vizinhos, e de outros catadores de papel. Em alguns relatos, ela expõe a triste realidade de quem não tem o que comer e acaba comendo comidas já impróprias.

    Apesar de não gostar da favela, da fome, da pobreza, Carolina também tem um traço muito forte de solidariedade para com as pessoas que vivem na comunidade. Em muitos momentos ela e seus filhos são hostilizados pelos vizinhos, mas mesmo assim, em muitos outros momentos ela presta ajuda a esses mesmos vizinhos.

    Embora não tenha conhecimentos acadêmicos ou escolares, a autora demonstra uma visão crítica muito lúcida acerca do papel dos governos da época. Ela faz algumas críticas que vão além do senso comum.

    A violência enfrentada pela população periférica fica explícita desde o começo. Não só a violência física, mas a violência social, moral e claro, física também. É triste olhar para essa história que já tem 60 anos e ver que a situação dessa população que vive às margens da sociedade continua tão ruim e até pior do que era nessa época.

    Finalizo com uma quote dessa obra maravilhosa:
    “Sempre ouvi dizer que o rico não tem tranquilidade de espírito. Mas o pobre também não tem, porque luta para arranjar dinheiro para comer.”

    Título original: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada
    Autora: Carolina Maria de Jesus
    Editora: Ática
    Gênero: Biográfico
    Nota: 5

    1. Olá,
      Esse que é o mais triste mesmo, saber que tantos anos se passaram e a situação dos mais pobres só piorou enquanto poucos escolhidos e privilegiados enriquecem. Acho muito legal que o livro foi publicado da maneira que ela escreveu. Só enriquece a obra.

      Prefácio

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