Resenha: O poder da espada - Joe Abercrombie - Queria Estar Lendo

Resenha: O poder da espada - Joe Abercrombie

Publicado em 29 de abr. de 2026

Resenha: O poder da espada - Joe Abercrombie

A Editora Aleph mandou pra gente o box da trilogia A Primeira Lei, e O poder da espada abre essa série com carisma e um surpreendente bom humor ao contar a história de um espadachim, um inquisidor e um mercenário cujos caminhos acabam se cruzando na inevitabilidade de uma guerra.

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Logen está com alguns problemas. Todo o seu bando parece ter sido devorado por inimigos sanguinários e, para se salvar, ele precisa fugir pelos ermos selvagens e ficar à própria sorte. O lado bom é que Logen consegue conversar com espíritos; o lado ruim é que parece que estão procurando por ele. Um mago, mais especificamente, que quer a sua ajuda em assuntos... diplomáticos.

Glokta está sempre sofrendo. Vítima de torturas hediondas, ele agora comete essas torturas hediondas para a Inquisição, porque é um dos melhores inquisidores que o reino tem. É através dele que conspirações e traições são descobertas.

Luthar é um capitão e pretende se tornar campeão também, ainda que prefira passar suas horas de folga em jogatinas de azar do que treinando para o Campeonato que se aproxima.

Esses três não poderiam ser mais diferentes entre si, mas um elemento em comum coloca seus destinos para se cruzar: uma guerra se aproxima contra um inimigo até então subestimado pela coroa.

Resenha: O poder da espada - Joe Abercrombie

O poder da espada é um primeiro volume muito simpático, criativo e, para minha grata surpresa, muito engraçado. Eu não esperava que a narrativa do Joe Abercrombie flertasse tanto com o humor, mas em todos os pontos de vista ele quebra momentos de seriedade com deboche e tiradas inteligentes.

Tudo que Logen podia fazer era ir para as montanhas e tentar salvar sua vida lamentável. É preciso ser realista.

Essa história é permeada por um leque de personagens cinzentos. Um mundo cruel, realista dentro da sua existência, com regras de magia bem sutis e poucos exploradas por boa parte da história (pelo menos até a chegada dos magos), que se beneficia muito de ter protagonistas e coadjuvantes de moral duvidosa. Ninguém é bonzinho, nem mesmo os que você imaginava ser bonzinhos. Todos têm algum demônio, algo por que lutam e destroem, alguma coisa que os torna cruéis, egoístas e brutais.

Logen foi divertido de acompanhar. Um mercenário bruto, com um legado por trás da sua presença (chamado de Nove Sangrento pelas histórias). Sozinho, ele não tem que lidar com o peso que seu grupo trazia, mas sim as dificuldades em ser um mercenário nórdico abandonado à própria sorte. Que não é muita.

Ele é um sobrevivente nato, mas tem pouco nele de interações sociais, o que torna todos os seus momentos com outros personagens muito engraçados. Quando passa a acompanhar o mago, sua história dá uma guinada inesperada; mais do que um guarda-costas, ele se torna um dos poucos que entende o inimigo que se aproxima. Ainda que não fale muito bem sobre isso.

Glokta foi a minha maior surpresa nessa história. O primeiro capítulo dele já tem uma infinidade de lamúrias hilárias e crueldade chocante. Ele é um inquisidor implacável, inteligente. Já foi um grande guerreiro, mas a antiga guerra cobrou mais dele do que podia dar. Agora, relegado ao que restou dele mesmo, Glokta faz o possível para servir a Inquisição. Reclamando sempre internamente, é claro.

Perigo e oportunidade andam de mãos dadas.

Os pensamentos de deboche, revolta e indignação dele são engraçadíssimos. Contrastam com a persona contida e imperial que ele porta para outras pessoas, dá um contraste ao que vemos agindo como inquisidor com o que lemos dentro da sua própria cabeça.

Os embates dele com outros personagens tornam Glokta ainda mais interessante. Um protagonista que, como os outros, é de uma moral cinzenta espalhafatosa. Nem um anti-herói e nem um vilão, ele permeia o meio termo entre essas duas coisas.

E aí temos o Luthar, facilmente o mais detestável do livro. Enquanto outros eram cinzentos, Luthar é facilmente um verme. E falo isso como um elogio, porque o livro em momento algum tenta portá-lo como herói. Ele acha que é um herói, e a graça está justamente nisso. Ele não age heroicamente, ele não conduz atos heroicos. É o maior covarde, mesquinho e egoísta da história. E o livro faz questão de alardear isso com suas atitudes, enquanto o que ele fala é de grandiosidade.

Infelizmente para mim, ele foi tão detestável que seus pontos de vista ficaram arrastados. Sempre que passava do Glokta, do Logen, até mesmo de outros que ganharam POV com o meio do livro, e vinha um capítulo do Luthar, eu revirava os olhos. Interessante para a história, um porre para mim.

A trama principal de O poder da espada é centrada nesses três personagens, mas outras figuras ganham destaque com o passar das páginas. Ferro e Bayaz são dois nomes que se destacaram para mim, trazendo novas dinâmicas e personalidades para o que já tinha se estabelecido com os personagens principais. A Ferro, principalmente, foi de longe a personagem mais interessante.

- Não existe nada além de morte em você, Ferro? 
- Antigamente existia. Mas eles arrancaram a chicotadas. Chicotearam a gente até terem certeza de que não resta nada.

Talvez eu tenha me agarrado firmemente a ela por ser a única personagem feminina com ponto de vista no livro? Sim. Mas é um sopro de ar fresco, ainda que eu espere ver um pouco mais de desenvolvimento por parte dela.

Porque um ponto que eu tenho a criticar nesse livro é justamente a representação feminina. Tem quase nenhuma mulher, e o mundo criado pelo autor se pauta muito naquela coisa de que mulheres só servem para ser femininas, parir e seguir seus esposos. Não tem um traço de sociedade que questione isso; além da Ferro, tem mais duas personagens femininas com participação na trama.

Resenha: O poder da espada - Joe Abercrombie

Ardee, irmã de um comandante do exército. Ela tem uma personagem rebelde e questionadora, mas acaba subjugada na trama a ser apenas interesse amoroso do Luthar. E a prática Vitari, que aparece tão pro fim do livro que quase não existe nele.

Sei que O poder da espada é uma publicação antiga (de 2004), mas as mulheres já eram gente nessa época! Tenho preguiça de universos fantásticos que fazem um grande esforço para inserir magia, novos conflitos políticos, inventar raças novas e tudo o mais, mas não saem da caixinha em relação às mulheres. Misoginia já tem de monte no mundo real, me dê menos disso na fantasia.

Dou louros ao autor por ter ao menos inserido uma personagem importante na trama principal, mas quero ver para onde vai o desenvolvimento da Ferro antes de elogiar demais.

- O mundo está transbordando de coisas que você não sabe, meu jovem.

À exceção disso, O poder da espada é um livro de fantasia excelente. Tem ótimas cenas de ação, reviravoltas interessante, um progresso instigante para seus personagens principais, e fez uma inserção de magia tão curiosa que me deixou animada para ler o resto. O sistema de magia daqui é bem sutil, quase inexplorado, mas os magos aparecem para trazer essa novidade ao leitor e aos personagens de maneira bastante épica.

A edição da Aleph está linda demais. Eu amei as capas novas da edição brasileira, a ilustração ficou muito bonita. A tradução de Alves Calado está um primor (meus elogios ao excelente uso da palavra cocuruto). Só a diagramação que ficou bem apertadinha, com letras bem pequenas. Míopes como eu sofrem um tico, ainda mais para ler de noite.


O poder da espada foi um primoroso primeiro capítulo nessa saga de fantasia que promete muito épico e política para os próximos volumes. A guerra se aproxima, e cabe a um mercenário meio ignorante, um inquisidor cheio de dores, um mago careca, uma forasteira ranzinza e um espadachim medíocre tentar salvar seu reino.

Sinopse: Confrontos eclodem por toda parte: forças inimigas se enfrentam ao norte e ao sul, e um bárbaro, um inquisidor e um espadachim estarão no centro dos conflitos para decidir o futuro da nação. Afinal, guerras são uma excelente oportunidade para alcançar aquilo que mais se deseja. Logen Nove Dedos é um homem marcado por batalhas, mas precisa se afastar urgentemente da fama de bárbaro irreprimível se não quiser que a próxima luta seja a sua última. Sand dan Glokta hoje é um inquisidor escuso, depois de deixar para trás a carreira como coronel e passar por uma tortura inimaginável. E Jezal dan Luthar, que vem de uma família rica, é um espadachim fracassado que confia nas aparências para subir na hierarquia do exército. A chegada do grande mestre Bayaz vai deixar a vida desses três indivíduos muito mais complicada…

Título original: The blade itself
Autor: Joe Abercrombie
Editora: Aleph
Tradução: Alves Calado
Gênero: Fantasia
Nota: 4

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