A segunda-feira começa no sábado é um clássico russo de ficção científica dos irmãos Arkádi e Boris Strugátski. Publicado aqui pela Editora Aleph - que cedeu este exemplar em cortesia - acompanha a história de Privalóv, um programador que acaba sendo empurrado em direção a um emprego inesperado num instituto que lida com magia, bruxaria e ciência.
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Sacha Privalóv tinha planos: seguir viagem de carro pelo norte da Rússia para visitar alguns amigos. Mas o inesperado entrou em seu caminho na forma de dois viajantes, uma estadia num museu para lá de maluco e uma oferta de emprego no Instituto de Magia e Bruxaria.
Um lugar impossível se torna parte do cotidiano desse simpático programador sobre o qual acompanhamos três histórias impossíveis: uma em que ele tem que lidar com o museu de uma senhora controladora e maluca; uma que fala sobre a vez em que uma véspera de ano novo desafiou experimentos quase suicidas; e uma que explora as infinitas possibilidades do futuro.
eu refletia se existia ou não um limite para a capacidade de se surpreender.
A segunda-feira começa no sábado faz tudo isso de maneira magistralmente hilária, criativa e até filosófica. Com questionamentos que ressoam questões sobre sociedade, governo, sentimentos e liberdade, os autores exploram a temática surreal uma instituição que estuda de conceitos sobre multiverso até a felicidade plena para trazer, através do seu protagonista, questionamentos sobre a imensidão do mundo, da criação e da vida.
O senso de humor do livro é muito pautado nos absurdos e no fato de personagens reagirem aos absurdos de maneira bastante trivial. O primeiro conto, Rebuliço ao redor do sofá, trata justamente disso. Sacha contempla, pela primeira vez, coisas além da razão; um gato esclerosado que fala, um sofá que parece um transporte mágico, uma casa que anda sobre pernas de galinha, e por aí vai.
O fato de outros personagens tratarem isso como parte do comum é o que o incentiva a entender que aquilo tudo faz parte do comum... deles. E que vai passar a fazer parte do seu também.
E é nos contos Rebuliço dos rebuliços e Tudo é rebuliço que os autores vão além de tudo que se espera. A lógica que impera no Instituto é de que não existe uma lógica só. A razão é contestada o tempo todo com invencionices estapafúrdias e criações mirabolantes. Privalóv vive intensamente o tempo todo, tudo graças aos seus colegas de profissão.
No segundo conto, sua tarefa era de ser o vigia noturno, o que nos leva a explorar os andares e salas do Instituto com um que de curiosidade crescente. O livro nos apresenta a tudo que aparece, questiona através do protagonista e oferece soluções malucas que em muito funcionam com o que foi mostrado.
Idem para o último conto, que coloca Sacha em uma viagem em direção ao futuro, explorando não apenas o que o oriente considera como futuro, mas o do ocidente também. Traz choques culturais de expectativa e realidade, introduz conceitos que, para a época (1964) pareciam tão distantes e que, hoje, nem sequer passam perto de tudo que vivenciamos. E entrega questionamentos sobre a inevitabilidade de certas coisas que causam até um momento de emoção.
Minha única crítica é que o terceiro conto pesou um pouco a mão no final com a questão do papagaio. Ainda que interessantíssimo o conceito, o modo com os autores desenvolveram as explicações pesou num texto que estava tão fluido.
Pessoas que consideravam mais agradável estar umas com as outras do que separadas e que não suportavam os domingos, porque ficavam entediadas nesse dia. Eram magos, Pessoas com P maiúsculo, e seu lema era: "A segunda-feira começa no sábado".
A segunda-feira começa no sábado é um livro extremamente criativo, de leitura fácil e curiosa, e que usa do bom humor para falar dos mais gigantescos absurdos da fantasia e da ciência. Através de personagens carismáticos - especialmente Sacha - conhecemos e nos tornamos parte do Instituto que tem como principal missão uma infinidade de missões.
A tradução de Yuri Martins de Oliveira dá um toque especial à leitura, com excelentes adaptações ao português, traduzindo toda uma cultura para o nosso entendimento. O prefácio de Letícia Mei também é ótimo para dar dimensão do que estamos para ler e vivenciar, ditando o tom que permanece tão vívido na narrativa dos autores.
As notas de rodapé também são um show à parte porque dão contexto e explicação a coisas da cultura russa e da literatura russa que os autores muito referenciam, o que complementa a história como um todo e ainda acrescenta mais camadas nas tiradas humorísticas e na criatividade dos autores!
Eu não esperava me conectar tanto com o senso de humor de dois camaradas russos dos anos 1960, mas A segunda-feira começa no sábado questiona e invenciona tanto que, quando termina, deixa saudade. Não à toa esse livro é um marco na ficção científica russa.
Sinopse: O jovem programador Sacha, natural de Leningrado, parte de carro rumo ao norte da Rússia para visitar alguns amigos na longínqua Soloviéts. No caminho, à beira da estrada, encontra dois sujeitos peculiares que lhe pedem uma carona até essa cidade que não é exatamente o que parece. Por obra do acaso ou do destino, o que começa com um gesto de camaradagem termina em uma inusitada oferta de emprego no misterioso Instituto de Pesquisa Científica em Magia e Bruxaria — um lugar inusitado onde mágica, ciência e o funcionalismo público se encontram para investigar "a felicidade humana" e "o sentido da vida".
Título original: Понедельник начинается в субботу
Autores: Arkády & Boris Strugátski
Tradução: Yuri Martins de Oliveira
Editora: Aleph
Gênero: Ficção científica
Nota: 4,5

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