Vento e Verdade (Wind and Truth) é o encerramento do primeiro arco de Os Relatos da Guerra das Tempestades. O quinto volume é uma grande jornada em busca de respostas e esclarecimentos, colocando um breve ponto vírgula, e não um ponto final, na magnitude de toda a história sendo contada.
Esta resenha vai conter spoilers dos outros volumes da série:
Se ainda não leu, recomendo não ler a resenha.
Odium e Dalinar fizeram um acordo: em dez dias, seus campeões vão se enfrentar para decidir o destino de Roshar. O livro começa com o primeiro dia da contagem regressiva, ditando o tom de tensão que vai permear todo o desenrolar da história. Através dos muitos pontos de vista já estabelecidos, Brandon Sanderson nos encaminha para a verdadeira "jornada antes do destino" que cada um dos seus personagens vai ter que viver para confrontar a grande guerra.
Vento e Verdade foi uma experiência de leitura muito intensa pela carga dramática que carregou. Se você tá com medo de ler por causa da opinião alheia, já te adianto que o que você vai viver com esse livro é uma experiência unicamente sua. Como toda e qualquer leitura, ninguém pode ditar como você vai se sentir com um livro até ter lido. E, depois que tiver lido, o que vale é a sua opinião.
Preciso comentar que muitas críticas a esse calhamaço são preconceito disfarçado de comentário. Várias resenhas negativas em sites como Goodreads e Youtube, majoritariamente assinadas por homens brancos cis, reclamam de como esse livro é "woke". Sim, o Brandon Sanderson, um homem branco cis hétero e mórmon, foi chamado de woke pura e simplesmente porque escreve... pessoas. Pessoas em relações diversas, pessoas vivendo dilemas emocionais, pessoas sendo frágeis, pessoas amando pessoas.
Um dos personagens principais de Vento e Verdade, que já permeava a trama como um protagonista, se entende gay e vive um relacionamento amoroso gay. É tão lindo, tão natural e tão bem conduzido que eu entendi perfeitamente as 1 estrelas do livro quando fui procurar as críticas. É claro que o leitor médio de fantasia ficaria incomodado com uma relação num livro de fantasia épica. Deus me livre personagens queer existirem em cenários de alta fantasia complexos! (ironia).
Que bom que o Brandon Sanderson escreveu personagens queer. Que bom que ele deu protagonismo a vozes não-binárias num mundo tão pouco conformista com padrões. Que bom que não apenas um, mas dois dos seus personagens principais são gays!
Ursula K. Le Guin teria vergonha de quem ama fantasia e é homofóbico.
Agora que já tirei isso do peito, vamos pra resenha!
Vento e Verdade não é um livro perfeito. Eu entendo quem fez críticas construtivas a respeito de ritmo e edição, porque sinto que ele teve uns momentos truncados pelo tamanho e pela quantidade de coisas acontecendo. Mas, para mim, ele foi o melhor final que esse arco poderia ter.
Lembra que eu chamei esse fim de "um ponto e vírgula" e não de um ponto final? Porque foi. A construção e o encerramento de Vento e Verdade só mostram a magnitude dessa série, e eu gostei que o Brandon Sanderson não ofereceu soluções fáceis para o tamanho do problema que os personagens estavam enfrentando. O fim condiz com tudo o que eles viveram nesses cinco livros. É devastador, é desesperador, e é excelente por isso.
Os arcos de cada personagem encontram resoluções que me deixaram mais do que satisfeita. Alguns acabaram não encontrando uma resolução por causa da brusquidão do fim, mas a graça de escrever uma guerra impossível é justamente essa: nem tudo vai ser feliz, nem tudo vai se encerrar direito. Esse livro me passou o mesmo sentimento que Vingadores: Guerra Infinita - a gente vai tentar até o fim.
Dalinar está vivendo o maior e o pior momento da sua existência. Com o peso do duelo que se aproxima, sem saber o que esperar de Odium, tudo o que ele tem são dúvidas. Quando uma oportunidade de explorar o passado e entender de uma vez por todas tudo o que aconteceu com Roshar, e com Honra, entra em seu caminho, ele se agarra a isso. Ele entende que, sozinho, não vai conseguir. Todos os ângulos do acordo firmado com a divindade levam ao desastre; eles precisam de uma vantagem que talvez apenas o passado possa dar.
E ele não está só nessa busca. Navani, recentemente feita Bondsmith, embarca junto com Dalinar na busca por respostas. Em meio a catástrofes que se apresentam em seu caminho, ela é a razão num mar de perdição. Eu gosto demais como a relação dos dois foi firmada em confiança e entendimento, mas como ainda tem lacunas que os dois precisam preencher sobre si mesmos antes de ter plena paz.
E o Odium não vai facilitar a vida de ninguém.
Um dos arcos que mais me agradou na história foi o da Shallan, do Renarin e do Rlain. Falar sobre cada um deles é complicadíssimo por causa da quantidade de coisas que acontecem no decorrer do livro. Vou apenas pontuar que cada um desses personagens vivencia o pior dos seus passados. Suas jornadas têm a ver com entender seus demônios e abraçá-los, porque chegaram num ponto da própria vida em que não dá mais para simplesmente virar as costas para o que aconteceu.
Shallan, principalmente. Os traumas dela são tamanhos que construíram outras personas dentro dos seus poderes. Tudo o que Veil e Radiante podem fazer por ela já foi feito. Agora, é ela por ela. E que personagem forte e incrível que a Shallan se tornou! Traiçoeira, como os próprios poderes, mas sempre justa. A relação dela com os Ghostbloods chega a vias de fato nessa parte de Vento e Verdade, e nossa como eu vibrei com tudo o que rolou!
Do outro lado da moeda, enquanto investigações e passados são revirados, Adolin precisa segurar a barra que é um cerco na cidade capital de Azimir, capital de Azir. As forças de Odium são poderosas, e aquele vagabundo se aproveita de brechas no contrato firmado para atacar onde pode, como pode. O que coloca as forças de Roshar em divisão.
Mas não pense que o Brandon Sanderson deixou apenas força bruta pro Adolin, não! Ele também tá tendo que passar por batalhas espirituais fortíssimas contra a própria personalidade e o seu entendimento do mundo, ainda mais depois de ter descoberto tanto sobre o passado do pai. Seu isolamento ali em Azimir - não um total isolamento, porque ele constrói uma amizade muito querida com o garoto-imperador - o coloca frente a frente com todas as questões não resolvidas.
O arco do Adolin também foi um dos que eu mais curti. É lento, mas por necessidade, e equilibra isso às batalhas insanas e aos momentos de desespero e de arrancar os cabelos dignos de um Sanderlanche muito bem servido. A cena com o thunderclast! Eu berrei!
Além deles, tem outros tantos pontos de vista que muito importam para a história dessa divisão de núcleos: Sigzil e a Ponte Quatro, lutando como sempre lutaram, resistindo, acima de tudo; Lift fazendo o que ela faz de melhor, que é causar; Jasnah sendo confrontada por suas maiores fraquezas em um momento tão crítico; Wit e seus problemões porque sabe demais e de repente não sabe tanto quanto precisaria saber, e por aí vai.
O arco da Venli me ganhou de novo porque eu tenho um carinho enorme por essa personagem e pelos singers. Gostei do ponto em que foram reintroduzidos e como se encaminhou a trama deles, focando menos na violência e mais na conciliação. O final, inclusive, me arrancou umas lágrimas!
Na verdade o final de tudo me arrancou soluços e lágrimas e a sensação de que eu ia morrer porque esse livro me devastou de maneiras que eu não imaginava.
Saindo da porradaria e da adrenalina, a gente entra no que foi a minha parte favorita do livro: Kaladin e Szeth estão em Shinovar para resolver um problemão adormecido ali. O que significa que Dalinar está sem o seu melhor soldado. O que significa que o Kaladin está vivenciando um momento bem tranquilo fisicamente, mas muito exaustivo mentalmente (de novo).
O arco do Szeth é maravilhoso. Ele foi um dos personagens que mais me surpreendeu nessa história toda, começando como um assassino qualquer e se tornando uma das peças-chave da trama principal. Que personagem bem feito, bem desenvolvido, bem trabalhado!
O livro traz flashbacks para nos apresentar quem ele foi antes de se tornar Insincero, o que também explica tudo sobre ele. Enquanto isso, no presente, Szeth está em uma jornada árdua, batalhando pela verdade e também por si mesmo, ainda que inconscientemente.
E quem está ali para apoiá-lo? O primeiro terapeuta de Roshar, meu menino Kaladin!
Eu acho que nunca vou amar um personagem tanto quanto eu amo o Kaladin. Ele é, para mim, o melhor exemplo de uma criação artística bem feita. A complexidade dele se equilibra à fragilidade, aos defeitos, aos medos, a tudo que faz dele humano. Mais do que aquela figura heroica e grandiosa que atravessa tempestades e batalha contra inimigos poderosos, ele é só um cara tentando seguir em frente.
E Vento e Verdade é sobre isso. Sobre a jornada antes do destino. É uma grande representação dos juramentos dos Cavaleiros Radiantes, mas, acima de tudo, é sobre seus personagens e seu mundo.
O passado de Roshar, a relação dos Arautos com Honra, tudo isso ganha seus pontos finais. Inclusive, ler o prólogo de O Caminho dos Reis depois de ler esse livro revirou minha cabeça da melhor maneira possível.
Esse é um livro que explora a fundo tudo o que havia deixado em aberto e, ao fazer isso, deixa mais coisas em aberto para o próximo arco da série. Como eu mencionei antes, é um livro que eu entendo quem não gostou porque eu consegui sentir problemas na edição e no ritmo, mas não foi nada que me atrapalhou. Para mim, a jornada foi impactante, e o destino final, devastador.
O fim é de arrancar o tapete debaixo dos nossos pés. O Brandon Sanderson realmente falou "quer resolução? Aguarde" porque esse aqui é só o meio da grande série de dez livros, e fica bem claro o motivo ali no encerramento de Vento e Verdade.
Eu sinto que nunca vou conseguir explicar o suficiente o quanto essa leitura mexeu comigo, em todos os sentidos. Foi um livro intenso, emocionante, divertido e, acima de tudo, digno dessa série. Quem não gostou, paciência. Mas, para mim, foi o ponto vírgula que Os Relatos da Guerra das Tempestades precisava até chegarmos ao seu fim lá no próximo arco.
Já estou com saudade da trupe que o autor construiu tão bem. Do Kaladin, principalmente, que entregou aqui heroísmo, fragilidade e um dos melhores momentos que um personagem principal poderia viver. Vento e Verdade arranca o coração do peito e bagunça as emoções. Quando acaba, deixa aquele gostinho de quero mais que vem aí no futuro.
Sinopse: Dalinar Kholin desafio Odium, o deus maligno, para um duelo de campeões, e os Cavaleiros Radiantes e as nações de Roshar têm apenas dez dias para se preparar para o pior. O destino do mundo todo - e da Cosmere - está por um fio.
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