Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine - Queria Estar Lendo

Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine

Publicado em 15 de mai. de 2026

Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine

Em Uma lembrança chamada império, aclamada ficção científica publicada pela Editora Aleph - que cedeu este exemplar em cortesia -, Arkady Martine nos apresenta a uma embaixadora de uma estação espacial enviada ao coração do império da galáxia para substituir seu antecessor, só para descobrir que ele morreu em circunstâncias bastante suspeitas.

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Mahit foi selecionada para representar Estação Lsel no coração do império. Seu papel é fazer vias diplomáticas e garantir que a estação continue independente dos tentáculos imperiais que vêm conquistando cada vez mais planetas livres pela galáxia.

Um imago do seu ex-embaixador (com alguns anos de atraso) foi implantado na mente dela para guiá-la pelas intempéries sociais que é habitar a joia do império. O problema é que, quando chega lá, Mahit descobre que a morte do ex-embaixador é mais suspeita do que parece.

Ela tem quase certeza de que ele foi assassinado, mas o imago em sua memória dá defeito, o que a deixa sozinha em meio a uma civilização desconhecida para manter relações diplomáticas enquanto investiga a fundo o que aconteceu com o ex-embaixador.

Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine

Uma lembrança chamada império é de uma criatividade ímpar, tão complexa quanto as ramificações que Arkady Martine busca discutir no decorrer do livro. A autora traz conversas sobre as fronteiras da linguagem e da política; como tudo anda de mãos dadas em grandes impérios. Qual o peso de ser engolido por uma nação gigantesca, ter suas raízes apagadas, sua cultura mesclada a outras tantas que já se misturaram ao coração da tirania.

Parecia que o patriotismo derivava facilmente do extremismo.

Através de Mahit, conhecemos a beleza opressiva do império de Teixcalaan. Tudo é lindo, tudo é metodicamente organizado, tudo funciona através da ordem e das leis e do controle absoluto que o governo tem sobre as massas. É uma tirania discreta, uma opressão silenciosa; está nos pequenos detalhes, no apagamento de subculturas, tornando tudo uma coisa só. Está na língua que silencia outras línguas, que obriga linguagens a se adaptarem a ela. Está nos olhares e sussurros a respeito do "selvagem" que vem de fora (no caso, representado pela Mahit).

A autora faz um trabalho excepcional ao transformar o significado de palavras em gestos políticos. Através de poemas e canções e de pequenas rebeldias diárias da parte de Mahit, se recusando a dobrar seus conhecimentos para se adequar ao que o império traduz como correto.

Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine

Uma lembrança chamada império também tem um que de investigação, com todo o mistério sobre o que aconteceu com o ex-embaixador, Yskandr. O Yskandr que habita seu imago é diferente daquele que transitava pela mandíbula aberta do império. Um homem misterioso que Mahit tem que decifrar se quiser entender o que realmente ocorreu com ele.

O que a coloca cada vez mais próxima do coração político da cidade. Complôs, traições silenciosas e uma grande trama corrupta cresce em silêncio na sombra do império. Quanto mais Mahit investiga, mais ela se aproxima de ter a própria vida ceifada.


O lado positivo é que ela não está sozinha. Alga Três é designada como o seu contato cultural, mas acaba se tornando muito mais do que isso. Uma confidente, conspiradora e até mesmo crush, com o passar do tempo. É uma personagem interessantíssima que ganha cada vez mais camadas conforme a história acontece; de simples patrícia relegada a acompanhar a "selvagem" pela capital, ela passa a entender mais sobre si mesma e sobre seu papel no império conforme convive com Mahit.

- Nem todos da Cidade amam a Cidade.

Outro que cresce no decorrer da narrativa é Azaleia Doze. Um personagem bem mais contido que, aos poucos, se solta na narrativa conforme interage com as pequenas rebeldias e questionamentos de Mahit.

Há um leque de outras figuras importantes para a história, mas a que mais se destacou pela complexidade e por ser tão difícil de entendê-la foi a Enxó Dezenove. Que baita personagem foda! A personalidade é difícil de ler, seus motivos são intrincados a outros tantos, e ela se torna tanto uma personagem confiável quanto alguém que pode nos dar uma facada nas costas (através da Mahit). Bom demais ler personagens femininas tão multifacetadas em um gênero sempre tão dominado pelos homens.

Resenha: Uma lembrança chamada império - Arkady Martine

Se eu tenho alguma crítica a Uma lembrança chamada império é ao começo. O livro demora um pouco a se tornar familiar, com uma excessividade de nomes compostos e termos novos e a grandiosidade do império. Eu levei um tempo até me acostumar com tudo (o que pode ser considerando irônico, já que é o que a Mahit está vivendo também) e acabou atrapalhando um pouco o meu ritmo de leitura. Deixo o aviso aqui para quem tiver curiosidade: vá com calma e aproveite bastante a ambientação para se adaptar a ela.

A mandíbula do Império se abria mais uma vez, a postos, presas ensanguentadas.

A tradução de Beatriz D'Oliveira ficou excepcional. Eu nem imagino a dificuldade que deve ter sido fazer as adaptações de uma narrativa tão complexa quanto a dessa autora. A edição da Aleph também ficou linda, confortável de ler. Eu só queria que não tivessem trocado a capa; a original é majestosa e passa melhor a ideia da grandiosidade que é o império através da representação do trono.

Uma lembrança chamada império me arrebatou pelos caminhos que tomou, pelo desenvolvimento das suas personagens femininas (com direito a um romancinho sáfico) e por expressar tão bem o poder que as palavras carregam. O fim dá margem a um encerramento eletrizante para a duologia, e eu mal posso esperar para voltar ao universo do império de Teixcalaan.

Sinopse: Quando a Estação Lsel recebe um pedido urgente por um novo embaixador, prontamente nomeiam e enviam Mahit Dzmare à capital do império de Teixcalaan. É a candidata ideal: jovem, aplicada, estudiosa do império desde a infância. Saberá circular a corte local como ninguém.  Ao chegar, a nova diplomata fica a par da morte de seu antecessor, cujas circunstâncias levantam suspeitas e parecem forçadas. Seria ela a próxima a morrer? Afinal, a corte teixcalaana se comprova fascinante, mas também se revela, aos poucos, ardilosa e cheia de cobiça. Mahit, então, precisa ainda mais guardar seus segredos — incluindo aquele escondido no próprio corpo — se de fato quiser manter Lsel protegida das garras de Teixcalaan.  

Título original: A memory called empire
Autora: Arkady Martine
Editora: Aleph
Tradução: Beatriz D'Oliveira
Gênero: Ficção científica
Nota: 4,5

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