Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls - Queria Estar Lendo

Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls

Publicado em 22 de jun. de 2026

Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls


Meus Fantasmas é a HQ de estreia de Tessa Hulls, publicada por aqui pela editora Companhia das Letras - que nos cedeu um exemplar para resenha. O livro autobiográfico é uma investigação da autora do trauma que transformou a relação das mulheres de sua família.

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Tessa Hulls começa seu livro explicando como a história de sua família - e principalmente de sua avó, Sun Yi - se interliga a história da China pós-segunda guerra mundial. O fio que conduzirá o começo de sua HQ e por onde ela começa a destrinchar o trauma que transformou sua família e que respingou até ela, mesmo tendo nascido décadas depois, em um continente completamente diferente.

Sun Yi é perseguida pelo governo Chines no pós-guerra por ser uma jornalista em oposição ao governo de Mao, por ter amigos no alto escalão do partido nacionalista e por ser mãe de uma criança birracial - cujo pai, um diplomata europeu, nunca a reconheceu, de acordo com suas próprias palavras em uma biografia publicada nos anos 50.

Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls

Um livro que virou bestseller e permitiu que ela matriculasse a filha em um colégio interno ocidentalizado em Hong Kong, antes de se internar em um dos primeiros hospitais psiquiátricos do país.

A biografia de Sun Yi, de acordo com Tessa, ditou não somente o declínio de sua saúde mental. Mas também a forma como sua filha viria a entender o amor entre mãe e filha. E como ela repassaria isso a própria filha, Tessa.

Além da forma como o trauma afetou a relação entre sua avó e mãe - que desde muito cedo ficou responsável pelo ancoramento de Sun Yi na realidade -, Tessa também explora a forma como a diferença cultural e linguística afetou sua relação com a própria mãe.

Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls
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Tessa nunca aprendeu a falar a língua materna da mãe da avó. Nem o mandarim e nenhum outro dialeto local. Além do mais, ela própria é filha de um homem europeu com uma mulher birracial forçadamente ocidentalizada. E a falta de caracteristicas físicas asiáticas sempre fez com que sua mãe não a considerasse "chinesa" o suficiente. O que, de alguma forma, as afasta ainda mais.

Adicionado a isso, tem o fato de que Tessa é uma pessoa criativa. Desde muito cedo gostava de desenhar e escrever. Um traço que dividia com sua avó. E que fez nascer em sua mãe um medo terrível de que ela pudesse ter herdado a doença mental da avó. Dessa forma, desde os 10 anos de idade, Tessa era encaminhada para diferentes psiquiatras e psicólogos em busca da confirmação do maior medo de sua mãe: ela seria exatamente igual a Sun Yi.

Criada em um contexto ou o medo era uma expressão de amor, a mãe não sabia demonstrar o afeto pela filha de outra forma. Ao mesmo tempo, tudo que a filha queria era não ter medo de si mesma.

Meus Fantasmas é uma análise social e pessoal sobre trauma geracional. E também a busca de uma mulher para compreender esse trauma, encontrar o ponto de ruptura de sua família, e poder curar e reconstruir a relação que tem com a mãe e com suas próprias raízes.

Ao mesmo tempo em que Tessa Hulls aborda uma situação extremamente específica (a de sua família), ela também fala sobre tudo que leu e estudou para entender o que significa um trauma geracional, para que pudesse de fato reinterpretar as ações da mãe e da avó. Não pelos olhos da filha e da neta, mas pelos olhos de uma socióloga tentando entender os eventos que as levaram até ali.

Resenha: Meus Fantasmas - Tessa Hulls

De certa forma,  Meus Fantasmas é um relato do momento em que começamos a entender nossos pais como seres humanos. Como pessoas além do nosso universo particular.

Tessa Hulls desmantelou todas as "verdades" de sua família ao investigar o passado da avó, mesmo que as descobertas não fossem bonitas ou condizentes com os mitos e as histórias que sempre escutou. E a partir dai, não só ressignificou hábitos e redefiniu sua própria identidade.

Não sei bem o que eu esperava encontrar em Meus Fantasmas, mas sei que acabei descobrindo algo muito melhor. A autora fez um ótimo trabalho criando a linha temporal da família de forma que não ficasse confuso para quem está conhecendo-as apenas agora.

Ela também traz uma sinceridade tocante para a narrativa, que faz com que a gente se conecte muito fácil. Mesmo que nunca tenhamos vivido nada daquilo. E faz com que a gente torça de verdade para que esse processo todo tenha dado certo. Que ela tenha se reencontrado e começado essa jornada de cura que lhe era tão importante.

Recomendo demais, independente de você gostar ou não de não-ficção, de histórias em quadrinho ou sociologia. Meus Fantasmas o tipo de leitura que todo mundo pode aproveitar, de uma forma ou outra.

Sinopse: Vencedor dos prêmios Pulitzer e Eisner. Numa narrativa em quadrinhos visualmente extraordinária e dotada de minuciosa pesquisa, Tessa Hulls conta a história comovente de três gerações de mulheres da sua família. Uma poderosa obra de estreia de um talento espetacular. Sun Yi foi uma jornalista de Xangai envolvida nas disputas políticas que se seguiram ao estabelecimento da República Popular da China em 1949. Depois de fugir para Hong Kong com a filha pequena, escreveu um livro de grande sucesso em que narra suas memórias dos anos de perseguição e sobrevivência. Cada vez mais isolada, sofre um colapso mental do qual nunca se recuperará inteiramente. Enquanto crescia, Tessa Hulls via sua mãe cuidar de Sun Yi, sua avó, ambas lutando sob o peso da doença e do passado. “Sofrer um trauma”, escreve, “significa continuar organizando sua vida como se ele ainda estivesse acontecendo ― inalterado e imutável”. Decidida a escapar do medo sufocante da mãe, Hulls sai de casa e passa a viajar para os cantos mais remotos do planeta. Mas ao completar trinta anos, sente que na verdade parece estar fugindo de algo, e decide voltar para encarar o que moldou sua história. Meus fantasmas é este retorno ao lar. Com imagens e texto incandescentes, Tessa Hulls escava a história emocionante de sua avó e mãe, enfrentando os fantasmas do trauma, da doença mental e da solidão. Uma jornada vívida e magnífica ao coração pulsante de uma família. Uma busca por compreender como o medo e o silêncio atravessam o tempo, os labirintos da identidade, da memória e de tudo aquilo que se transmite, se repete e se cala.

Título original: Feeding Ghosts: a graphic memoir
Autoria: Tessa Hulls
Tradução: Érico Assis
Editora: Companhia das Letras
Gênero: HQ | Não-ficção
Nota: 5

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