Sangue sobre Bright Haven foi a nossa leitura de agosto no Clube do Livro do QEL, com o exemplar cedido em cortesia pela Editora Jangada. Essa história acompanha uma maga que se embrenha nas sombras do conhecimento para conquistar a sua glória, sem imaginar os horrores que se escondem ali.
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Sciona vive em um mundo em que as mulheres não têm muitos direitos à grandiosidade. A elas é relegado o trabalho de educar e de cuidar das casas. Mas Sciona não quer nada disso; ela quer se tornar uma Alta Maga, quer usar seus conhecimentos para alçar a glória de grandes conjuradores antes dela.
Uma vez aprovada na Magistratura, ela passa a conviver com outros Altos Magos e todos os preconceitos enraizados deles a respeito do papel das mulheres na sociedade. Não apenas isso, mas ela também passa a conhecer mais da história do seu mundo, da magia e das sombras por trás de tudo.
Um império tão grandioso quanto Tirana guarda seus segredos. Construído sobre os ombros de refugiados, é através de um deles, Thomil, assistente de Sciona, que ela passa a entender como o que ela vive não chega perto ao horror do que os subjugados pelo império vivenciam todos os dias.
Sangue sobre Bright Haven foi uma leitura impactante do começo ao fim. Em todos os sentidos. M.L. Wang nos transporta para esse mundo em que a magia e a religião andam de mãos dadas. Tudo que é mágico foi cedido à Tirana por um Deus sábio e misericordioso a quem devem honrar; a cidade existe e sobrevive graças a essa figura divina e aos fieis que seguem seus ensinamentos.
Tirana é uma cidade antiga, mas tecnológica. Tudo funciona à base de feitiços complexos rascunhados em máquinas de escrever mágicas. Os magos criam feitiços em todos os momentos, usam sua sabedoria para drenar energia do Outrorreino e garantir que os habitantes de Tirana perdurem contra os horrores que existem além da barreira protetora.
O sistema de magia foi um dos pontos mais fascinantes da leitura. Ele é complexo e bem estruturado, com detalhes que se conectam a informações que só vamos conhecer futuramente. O jeito como a magia funciona, interligada às máquinas, usada como ferramenta e ponte de estudos, me deixou encantada. E horrorizada, conforme conhecemos mais sobre esse sistema.
Tudo o que Sciona mais quer é alçar a glória com que tanto sonhou. Uma vez escolhida para um projeto grandioso, que pode mudar os rumos de Tirana, ela tem certeza de que está pronta para fazer história. Mas, quanto mais investiga, quanto mais entende sobre as entranhas da sua morada, do seu povo, mais ela se aproxima dos seus segredos mais obscuros e tenebosos.
Sangue sobre Bright Haven faz um excelente papel como fantasia complexa, mas também como paralelo com a nossa realidade e história. O tratamento dos tiraneses para com os estrangeiros, chamados kwen, é de subjugar e relegar à sarjeta, aos guetos, aos bairros esquecidos pela sociedade. Os imigrantes fazem o trabalho duro, enquanto os habitantes de Tirana se acham os realmente dignos.
São relações extremamente paralelas a muito que vimos na história do nosso mundo. Para o "progresso" acontecer, o silenciamento, a aniquilação, a opressão os acompanhavam. Enquanto eu lia, só conseguia pensar no que os estrangeiros fizeram com os indígenas nas Américas, com o que aconteceu com os romani, os palestinos, e tantos outros que viveram (e ainda vivem) o inferno.
A relação entre a Sciona e seu assistente kwen, Thomil, ganha margens cada vez mais grandiosas conforme discussões sobre opressão e preconceito aparecem nas conversas. Thomil é um personagem complexo, cheio de nuances, quieto e subjugado a princípio. Mas porque Sciona quer quebrar estigmas e obstáculos, ela abre espaço para a voz dele também - e acaba se surpreendendo com o que ele tem a dizer. Com o quanto ele pode mudar seu eixo de entender o mundo.
- Você sabe que não estamos fugindo para esquecer. Estamos correndo rumo à esperança.
O livro tem uma gama de personagens fascinantes, dos cínicos aos ingênuos, dos revoltosos aos condescendentes. O jeito com que a Sciona interage com cada um deles a partir das suas descobertas, dos horrores e da nova noção de mundo, é de encher os olhos.
Eu também gostei muito de como o livro não desmoraliza a luta da Sciona por direitos como uma mulher, mas aponta dedos na cara dela em relação à hipocrisia da sua demanda quando confrontada com as opressões que os kwen (e as mulheres kwen) vivem. Bem na vibe do feminismo branco que se recusa a ser interseccional, que não aceita que outras vivências estejam passando por situações muito mais terríveis que as suas.
O fim é agridoce, se não devastador, mas combina com toda a jornada que ambos os personagens principais vinham trilhando. Mostra o real poder da verdade, da justiça e da liberdade, que Sciona leva tanto tempo a entender, e mostra o impacto da lealdade e da união de um povo. Eu terminei aos prantos, sem saber como superar um livrão desses.
Os prados mais brilhantes cresciam de coisas mortas.
A edição da Jangada ficou excelente. Adorei que mantiveram a capa original, os detalhes internos acrescentam em muito à história (como o mapa de Tirana e da região) e a tradução de Jacqueline Damásio Valpassos adaptou perfeitamente o tom sombrio e mágico da história.
Sangue sobre Bright Haven explora com profundidade questões sociais, raciais e psicológicas em um mundo onde a magia é uma moeda valiosa, mas perigosa também. Ela rege a sociedade, os costumes arcaicos e o pensamento crítico. Ela dá poder, mas também tira. E é através de uma protagonista egocêntrica e ambiciosa que a autora destrincha as consequências de ter tamanho poder em mãos.
Sinopse: Todo poder tem um preço e o conhecimento pode ser o segredo mais letal de todos. Nesta fantasia sombria e envolvente, Sciona alcança o impossível ao se tornar a primeira mulher aceita na Alta Magistratura da Universidade de Magia e Indústria. No entanto, o triunfo é ameaçado pela sabotagem de seus colegas, que a relegam ao laboratório mais desprestigiado sob a assistência de Thomil, um funcionário tratado como invisível. O que ninguém suspeita é que Thomil, um antigo caçador nômade, guarda as cicatrizes de um povo dizimado e busca respostas sobre as forças que destruíram sua terra natal. Unidos por uma aliança frágil, a maga e o forasteiro tropeçam em um segredo ancestral que sustenta o sistema mágico da cidade e ameaça o destino de toda a civilização.
Título original: Blood over Bright Haven
Autora: M.L. Wang
Tradução: Jacqueline Damásio Valpassos
Editora: Jangada
Gênero: Fantasia
Nota: 5+
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