Resenha: Misery #MLI2016


FAZ CINQUENTA E SETE MINUTOS QUE ESTOU TENTANDO REDIGIR ESSA RESENHA e nada. Porque esse livro. Cara, esse livro! Eu já conhecia a história de Misery, assisto o filme há muitos anos, mas a MLI deste ano me convenceu a parar a enrolação e ler, enfim. E eu li. Não, eu devorei. E a história acabou e eu fiquei olhando para as páginas pensando Stephen King, me ensine a ser você.


Sinopse: Paul Sheldon descobriu três coisas quase simultaneamente, uns dez dias após emergir da nuvem escura. A primeira foi que Annie Wilkes tinha bastante analgésico. A segunda, que ela era viciada em analgésicos. A terceira foi que Annie Wilkes era perigosamente louca. Paul Sheldon é um famoso escritor reconhecido pela série de best-sellers protagonizados por Misery Chastain. No dia em que termina de escrever um novo manuscrito, decide sair para comemorar, apesar da forte nevasca. Após derrapar e sofrer um grave acidente de carro, Paul é resgatado pela enfermeira aposentada Annie Wilkes, que surge em seu caminho. A simpática senhora é também uma leitora voraz que se autointitula a fã número um do autor. No entanto, o desfecho do último livro com a personagem Misery desperta na enfermeira seu lado mais sádico e psicótico. Profundamente abalada, Annie o isola em um quarto e inicia uma série de torturas e ameaças, que só chegará ao fim quando ele reescrever a narrativa com o final que ela considera apropriado. Ferido e debilitado, Paul Sheldon terá que usar toda a criatividade para salvar a própria vida e, talvez, escapar deste pesadelo.

Paul Sheldon é um escritor renomado e acaba de terminar seu novo romance; conhecido pela série de Misery, seu sucesso de vendas, Paul decidiu que era hora de mudar. O resultado? No recente e último lançamento de Misery, ele deu um fim à personagem querida, libertando-se para novas histórias. Voltando para casa com o livro novo finalizado durante uma nevasca, Paul sofre um acidente de carro e acorda na casa da sua fã número um. Annie Wilkies promete que cuidará dele até que as estradas sejam liberadas, assim como promete que vai ajudá-lo a escrever a sua obra-prima. Com o tempo, no entanto, o que parecia uma ajuda se torna um cativeiro, e a mulher que se dizia fã se mostra uma carcereira obsessiva.


Ele era Paul Sheldon, que escrevia dois tipos de romance: romances bons e romances campeões de venda.
Eu e meus resumos ruins sobre livros que amei demais. Fazer o que?



Misery é aterrorizante, incrivelmente real e de uma tensão desesperadora. É um terror psicológico, muito mais sobre o suspense a respeito das ações da Annie do que um terror de fato. O que mais amedronta nesse livro é ele parecer tão real, coisa que o King sempre faz muito bem em seus romances. Os personagens são vivos. Eles saltam das páginas, com seus defeitos e seus medos e seus problemas. Paul e Annie são os protagonistas e 90% do livro gira em torno das interações entre eles. Paul está completamente submisso à sua salvadora, uma vez que suas pernas estão em frangalhos pelo acidente. Num primeiro momento, Annie é só uma fã adorável, solitária e apaixonada, mas conforme a trama cresce, as sombras na mente dela se expandem até o conhecimento de Paul. De mulher estável para uma surtada psicótica, Annie é tão desequilibrada quanto genial. Tudo é bem orquestrado, tudo é milimetricamente desenvolvido. Paul não está só preso, ele está condenado.


Ele se recostou, cobriu os olhos e tentou agarrar-se à raiva que sentia, pois a raiva o deixava valente. Um homem valente conseguia pensar. Um covarde, não.
Uma vez que Annie lê o último volume de Misery e descobre sobre a morte da mesma, as coisas perdem o controle. A obsessão dela transpassa as páginas, te deixa agoniada. Annie quer que Misery retorne, e Paul tem a missão de escrever um novo volume. Sua obra-prima. E, se depender da Annie, seu último livro.


A voz insolente de pistoleiro da máquina de escrever sussurrou naquele sonho cada vez mais denso. 
O que nós temos aqui, pessoal, é muita conversa e muitas páginas em branco. Sai dessa?

A mulher é assombrosa. Maníaca obsessiva, psicótica ao extremo. Ela tem surtos e tem momentos de calmaria, e os surtos sempre vêm acompanhado de alguma ação horrenda. Annie tem um passado perturbado e um presente incerto. O livro consegue carregar muito bem esses momentos instáveis de tal modo que você acaba se assustando junto com o Paul; Annie perde o controle por coisas simples ou por coisas grandiosas. Uma sopa derramada ou uma reclamação. E pobre do Paul por estar encarcerado na casa da sua fã número um...

O machado citado na sinopse? Ah, que cena desesperadora!

A loucura da Annie afeta o Paul, assim como a solidão da casa em meio à floresta. Ele não pode fugir, não pode se mexer e não pode pedir ajuda. Paul sabe que, com o tempo, vão começar a procurá-lo, e ele interpela Annie através da escrita do livro para ganhar esse tempo. O problema é que Annie não é burra, e ela tem tudo orquestrado. O tique taque do relógio e as páginas do Retorno de Misery marcam a proximidade do fim; eu amei como o King trabalhou a ânsia do Paul para escapar. Ele poderia muito bem ter se deixado levar pela solidão enlouquecedora, mas ele quer viver. Em alguns momentos, Paul percebe como seria muito mais fácil seguir os planos de Annie, mas há outra voz dentro dele que anseia pela liberdade, pela fuga, pela vida.



A ironia é que Annie o forçara a escrever o que sem dúvida era o seu melhor romance de Misery.
Outra coisa interessante no desenvolvimento da história foi como o novo romance de Misery trouxe cor à mente do Paul. Apesar de detestar a personagem, de tê-la matado no outro livro para se livrar da série, Paul ainda está conectado com ela. Ele percebe, com assombro, que toda aquela situação talvez o ajude a escrever o melhor livro de sua carreira. O modo como o King coloca todas as inseguranças, trejeitos e problemáticas que um escritor enfrenta na vida me fez identificar muito com o Paul. A ansiedade e o planejamento, os bloqueios e o processo criativo. Ok que o Paul está sob a mira de uma fã maníaca, sentenciado a sentar e escrever para salvar a própria vida, mas ainda assim é identificável. O cativeiro e o retorno da personagem se intercalam em meio à narrativa, e ambos seguem o mesmo preceito; "sai dessa". Como Paul usa essa artimanha para arrumar a morte criada ao fim do romance, ele também usa a artimanha para salvar a si mesmo. E o final! O FINAL! Que final magistral, que cena linda, que JKASNFUIASBGOABA.


Porque escritores se lembram de tudo, Paul. Especialmente o que dói. Tire toda a roupa de um escritor, aponte para as cicatrizes e ele vai contar a história de todas, até as menores. As maiores rendem romances, não amnésia. É bom ter algum talento se você quer ser escritor, mas o único requerimento real é a habilidade de lembrar a história de cada cicatriz. Arte é a persistência da memória.

Ah, e eu aproveitei a onda de Misery para assistir ao filme logo que terminei o livro. Que adaptação! O King comumente não dá sorte quando se trata de livros adaptados, mas acho que Misery foi a mais fiel à obra original. Kathy Bates, no papel da Annie, foi visceral. Você via a personagem que tinha lido em seus olhares maníacos e seus sorrisos doentios. Annie é muito sobre delicadeza e repentina fúria, e a Kathy tirou isso de letra - não é a toa que a mulher ganhou o Oscar de "melhor atriz" por esse papel.

No mais, para interessados em um bom terror psicológico, um thriller que vai te arrepiar dos pés à cabeça, Misery é uma boa pedida. A narrativa, os poucos personagens incrivelmente bem construídos, a ânsia pela fuga de Paul e por sua vingança por todo o martírio que Annie o faz passar, tudo foi escrito com a maestria de um grande escritor. Stephen King, senhoras e senhores...



Título original: Misery
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Terror psicológico
Nota: 5 +

Saiba mais: Skoob | Buscapé

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