Resenha: Vitória, a Rainha

  • 09:00
  • 7.3.19
  • Resenha: Vitória, a Rainha

    A resenha de hoje é sobre o livro Vitória, a Rainha, uma biografia escrita por Julia Baird e publicada no Brasil pela editora Objetiva - que nos cedeu um exemplar para a resenha - e narra não apenas o reinado de Vitória, uma das monarcas britânicas que por mais tempo ocupou o cargo, como também sua vida e relacionamentos desde o nascimento.

    Sinopse: A biografia da rainha que subiu ao trono ainda adolescente e governou por mais de sessenta anos, emprestando seu nome a um dos períodos mais famosos da história da Inglaterra — a Era Vitoriana. Quinta na linha sucessória do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda, ninguém poderia imaginar que um dia Vitória subiria ao trono. Coroada em 1837, aos dezoito anos, esta improvável rainha teve uma ascensão extraordinária. Reinou por 64 anos e, não à toa, esse período entrou para a história como a Era Vitoriana. De temperamento forte, desafiou a autoridade da mãe e de seus ministros. Apaixonou-se perdidamente pelo príncipe Albert, com quem se casou aos dezenove anos e teve nove filhos. Sobreviveu a oito tentativas de assassinato e lamentou por décadas a prematura morte do marido, aos 42 anos. Durante o longo período em que Vitória reinou, o desenvolvimento industrial, a ciência e a tecnologia remodelaram o mundo. Mas sua mão firme e influência fizeram dela um símbolo da segurança e da tradição do povo inglês. Seu legado para a manutenção da Monarquia é imenso. E nos costumes, a era Vitoriana é até hoje um sinônimo de rigidez de princípios morais. Nesta incrível biografia, Julia Baird revela a verdadeira mulher por trás do mito: uma rainha ousada — uma Vitória para os nossos tempos.

    A vida de mulheres poderosas como as rainhas britânicas Maria I, Isabel I, a rainha escocesa Maria Stuart, a czarina Catarina, sempre me chamaram a atenção justamente por serem mulheres tão poderosas dentro de esferas de poder que sempre foram relegadas aos homens. Ver como agiam e pensavam essas mulheres, o que essa posição significava para elas, sempre foi uma curiosidade minha. E quando tive a oportunidade de conhecer mais Vitória, não hesitei.

    Até então eu sabia muito pouco sobre a vida e reinados dela, via a era vitoriana como uma época de repressão, do surgimento da literatura gótica, a ponte entre o antigo e mundo moderno que começava a emergir com as máquinas a vapor. Por isso, não me arrisco a dizer que é o trabalho definitivo sobre a vida da rainha, mas é, de fato, muito interessante.

    Julia Baird inicia a narração quando o pai de Vitoria, então o quarto na linha sucessória ao trono, decide se casar após a morte de sua sobrinha, princesa Charlotte, única filha do herdeiro do trono. Todos os seus irmãos mais velhos estavam casados e velhos, mas nenhum outro tinha um herdeiro, o que fez com que ele visse tudo isso como uma oportunidade para subir ao trono - levando sua progênie.


    Faz muito tempo que o nome de Vitória vem associado ao puritanismo preconizado por Albert na corte, mas foi ele, não ela, o verdadeiro defensor desses padrões.

    Dizem que o Duque de Kent sempre disse que sua filha, Vitoria, seria rainha, por mais improvável que parecesse. Porém foi o que aconteceu e, aos 18 anos, órfã de pai desde os 9 meses de idade, Vitoria subiu ao trono como a primeira rainha britânica em quase 150 anos - após a morte do avô paterno, a prima, três tios e o pai.

    Foi um livro longo, dado ao reinado de mais de 60 anos de Vitória, mas que me apresentou a uma mulher complexa, para sempre marcada pela perda do pai e falta de uma figura paterna - que viria a procurar sempre nos homens importantes de sua vida, como seu tio Leopoldo, seu marido Albert e seus primeiros-ministros. Uma mulher inteligente, com aptidão para a política, mas por muitos anos inferiorizada pelo  marido. Uma mãe zelosa, apaixonada pelos filhos, mas controladora e atormentada por nove gravidezes e partos difíceis. Geniosa, curiosa, apaixonada pelo circo e por bailes, que chorava ao saber de animais maltratados, mas que pouco fez frente a 1 milhão de pessoas que morreram de fome na Irlanda durante as épocas de Grande Fome.

    Resenha: Vitória, a Rainha

    Uma mulher que começou a carreira política como um ferrenha wig - partido de tendências liberais do Reino Unido - e terminou como a mais fiel tory - partido com tendências conservadoras.


    Durante toda a sua vida, Vitória foi paradoxal: um modelo de autoridade feminina numa cultura marcada pela domesticidade feminina.

    Ao falar de Vitória é quase impossível não falar de Albert, seu marido. O amor dos dois é algo que fica muito no imaginário de quem escutou alguma coisa por cima sobre o reinado de Vitória e muito se deve ao grande esforço que ela fez para que os britânicos o aceitassem e não o esquecessem - na época existia uma grande rejeição a Albert, por ser alemão; ele também foi visto como fraco e controlado pela esposa nos primeiros anos de casamento, uma vez que ela era a rainha e bastante geniosa, recusando-se a ceder seus poderes ao marido.

    Albert começou a ganhar mais destaque conforme Vitória entrava e saia de suas gravidezes - quase sempre uma seguida da outra - já que ficava mais debilitada e, conforme ela ia se dedicando mais a vida doméstica, cedia o controle do Império. Albert não acreditava que as mulheres eram intelectualmente iguais aos homens e constantemente comentava como Vitória não estava no mesmo nível que ele - em diários e cartas da época, podemos ver como ela duvidava de seus conhecimentos e se apoiava em Albert para todas as decisões, comumente apenas dando um aval em cima de algo que ele já havia decidido.

    Embora, por um lado, o relacionamento dos dois reluzia com amor mútuo, dedicação de ambos a educação e criação dos filhos, e anos de felicidade plena para a rainha, por outro estava marcado pelas fortes tentativas - que deram muitos frutos - de Albert de dominar Vitória e tornar-se seu senhor tanto no lar como na política, tornando-se rei em todos os aspectos, menos em nome.


    "Desde o princípio ela mostrou disposição para seguir estritamente seus próprios critérios de conduta, em vez de se adaptar ao padrão". Sua independência se tornou "um traço dominante ao longo de toda a vida". Mas o que ele deixou de apontar foi que, quando Vitória se casou, esse traço se evaporou quase por completo. A segurança de Vitória sempre foi maior quando estava solteira ou viúva.

    Ainda assim, após sua morte, Vitória fez questão de continuar endeusando Albert, de forma que nunca esquecessem quem ele foi. Havia dezenas de estátuas dele, ela comumente juntava os filhos para fotos mórbidas em torno do busto do pai e, ela mesma, nunca tirou o luto - mais tarde era comum se fazer de "pobre viúva" para conseguir manipular seus ministros.

    Julia Baird nos mostra, através de cartas da nobreza - tanto da família de Vitória como dos nobres que a serviam -, dos primeiros-ministros, diários, e até mesmo menções feitas por figuras famosas da época - como Charles Dickens, Charlotte Bronte e Florence Nightingale - tanto a figura de Vitória para seu povo e a pessoa que ela era no privado.

    Resenha: Vitória, a Rainha

    Para o povo, Vitória pintava a caricatura de uma pobre mulher indefesa, que precisava do cuidado e da orientação de seu primeiro-ministro e de seu marido - o que, após a morte de Albert, foi substituído pela "pobre viúva frágil" - o que gerava empatia e reconhecimento por parte da população. Mas no privado era uma mulher determinada, que tinha ciência da sua posição e exigia o respeito que ela demandava, sempre no pé de seus ministros, sempre trabalhando.

    Mas o ponto que mais me chamou a atenção foi seu posicionamento frente as questões femininas. É muito comum a gente olhar uma figura feminina de poder e automaticamente assumir que ela trabalhou para o bem comum das mulheres. Mas quando o movimento sufragista crescia na Inglaterra, Vitória se opunha.


    Vitoria, de uma maneira que não previa, mudara tudo para as mulheres. Ela incentivava algo difícil de nomear, uma vontade, um fortalecimento das atitudes; era a manifestação visível de uma mulher que adorava a família, e ainda assim tinha plenos direitos e renda independente.

    Em uma questão paradoxal, ela via seu dever como monarca como uma tarefa impossível de recusar, era uma imposição divina. Porém, não acreditava que as mulheres devessem ser donas de si, mas sim estarem subjugadas a um poder maior - masculino. Também não achava certo ou apoiava as empreitadas das mulheres com o sufrágio feminino, pois não acreditava que a política era um assunto destinado ao sexo frágil.

    Por influencia de Albert e com o avanço da idade, Vitória abandonava os ideias liberais com os quais se identificava na juventude e caminhava cada vez mais para o conservadorismo - curiosamente, 4 das suas filhas foram defensoras dos direitos das mulheres.

    Mesmo assim, a era vitoriana trouxe incontáveis avanços para o Reino Unido em questões de leis trabalhistas, direitos para as mulheres, questões sociais, e avanço na tecnologia e ciência.

    Resenha: Vitória, a Rainha

    Julia Baird esmiúça a vida de Vitória e constrói uma narrativa impressionante, que busca recriar os dias na corte e representar a figura política e pessoal de Vitória. Trazendo a tona as mudanças políticas da época, as guerras, os problemas econômicos, e mesclando-os com a vida doméstica de Vitória como uma mãe zelosa que buscava ter o controle da vida dos filhos, um esposa que era sempre o mais feliz possível quando podia viver uma vida "normal" nas highlands escocesas com a família, sem ser reconhecida.

    Não acredito que uma resenha seja capaz de definir a experiência que foi ler Vitória, a Rainha. Mais de 60 anos de reinado não cabem aqui, suas tantas peculiaridades, avanços e polêmicas. É uma leitura que vale muito a pena, que traz um bom entendimento da situação europeia por grande parte do século XIX - uma vez que, ao fim do século, descendentes de Vitória enchiam diversas cortes europeias - e a trata como um ser complexo, com paixões e dores e uma determinação ferrenha.

    Título: Victoria the Queen: An Intimate Biography of the Woman Who Ruled an Empire
    Autora: Julia Baird
    Tradutora: Denise Bottmann
    Editora: Objetiva
    Gênero: Biografia | Não ficção
    Nota: 5
    Skoob

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    1. Parece ótimo esse livro. Eu não tenho costume de ler romances de época, mas alguns me interessam bastante.

      Iasmin Guimarães | E agora?

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    2. que demais conhecer esse livro, eu adoro romance historico e historias reais assim mais ainda, fiquei super interessada na leitura

      www.tofucolorido.com.br
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    3. Oi, Bibs!
      Pela sua resenha, a experiência com o livro foi das melhores. Infelizmente esse tipo de história não é muito minha praia :(
      Beijos
      Balaio de Babados

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    4. Amei essa sua postagem, sempre estou visitando seu blog e lendo suas postagens.. Seu blog está salvo em meus favoritos..

      Parabéns!

      Amo seu blog ❤️..

      Meu Blog: Resultado Proeste Cap

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    5. Oi Bianca, sinceramente sua resenha ficou sensacional! Quanta informação interessante o livro tem e realmente a gente pensa que toda figura feminina de poder luta pela igualdade das mulheres e, infelizmente, nem sempre é assim. Certeza que vou adorar a leitura!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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