Resenha: Eleanor & Park

  • 09:00
  • 10 de ago. de 2020

  • Cinco anos atrás, eu li Eleanor & Park e gostei. A história escrita pela Rainbow Rowell é um dos YA contemporâneos mais falados dos últimos tempos, e a editora Seguinte relançou aqui recentemente - e enviou este exemplar em cortesia para a resenha. Cinco anos atrás, eu não tinha o olhar crítico que tenho hoje. Por isso, resolvi fazer essa nova resenha pra falar como eu me senti com a releitura.


    Sinopse: Eleanor é nova na cidade. Com roupas inusitadas, cachos ruivos indomáveis e uma família problemática, ela sente que nunca vai conseguir se encaixar. Park senta sozinho no ônibus da escola. Sempre de camiseta preta, fones de ouvido e a cabeça enfiada num livro, acha que consegue passar despercebido. Mas não para Eleanor. Aos poucos, entre fitas cassetes gravadas, pilhas de histórias em quadrinhos e conversas até tarde da noite, Eleanor e Park se apaixonam. Narrada durante o ano letivo de 1986, essa é a história de dois jovens de dezesseis anos que, mesmo sabendo que o primeiro amor quase nunca é para sempre, têm coragem e esperança suficientes para tentar.

    O livro é uma história sobre o primeiro amor, com todos os altos e baixos. Acompanha Eleanor em sua mudança para uma escola nova, lidando com situações tóxicas em casa e com os colegas; acompanha Park e sua família estável, mas as mudanças que vêm com a idade e com as escolhas a respeito de liberdade e independência. E acompanha os dois quando se conhecem e se apaixonam e vivem esse amor.

    Cinco anos atrás, eu tinha caído de amores pela história doce e trágica que existe nesse livro. É um YA bonitinho, que dá voz a uma protagonista gorda com todas as sensibilidades da vivência da autora; mas também é um livro bem problemático, porque não tem a mesma sensibilidade ao falar sobre o Park. Ele é descendente de asiáticos e é nítida durante a leitura a falta que fez uma leitura sensível quando a autora tentou abordar a voz dele.

    Eu não tinha me ligado nisso da primeira vez que li porque, honestamente, cinco anos atrás meu olhar crítico não chegava perto do que é hoje. E cinco anos no futuro eu talvez me torne ainda mais crítica; quanto mais a gente entende os problemas de diversidade e diversidade falha, mais fica difícil engolir histórias como essa.

    E com o tempo de publicação e os anos que se passaram e a quantidade de críticas que Eleanor & Park recebeu pela representação asiática que a autora branca dá, é surpreendente que ninguém tenha pensado "hm, melhor uma edição nova com um olhar mais sensível sobre isso, em?". Esse livro vai virar um filme, e vai dar protagonismo a um garoto asiático que não foi escrito com o cuidado e a voz de alguém dessa etnia.

    Eu li Eleanor & Park muito rápido porque é um livro extremamente bem escrito. Bem desenvolvido e resolvido. Tem muito carisma na narrativa da Rainbow, muita emoção e timing certo pra mexer com você. Mas isso não esconde as problemáticas dele; mascara, mas estão ali.

    Eu amo como ela construiu a Eleanor porque tem muita sensibilidade na hora de dar voz a uma garota gorda sofrendo bullying pelo seu peso, sua aparência e sua forma de se vestir. Dá pra sentir nos relatos e nos diálogos e nos medos dela o quanto isso é cuidadoso.

    Com o Park, no entanto, perturba. Tem aquela coisa de saber diferenciar o pensamento do personagem do pensamento do autor; eu não vi isso aqui. A Eleanor tem ideias preconceituosas a respeito do Park. O livro usa descrições e situações preconceituosas a respeito do Park. Sua mãe é a definição de esteriótipo asiático extremamente caricato e não tem como isso estar ali para nada além de romantizar o preconceito da narrativa.

    Coisas como "Park arregalou os olhos. Bom, tanto quanto podia. Às vezes ele se perguntava se o formato de seus olhos influenciava o modo como via as coisas." e "Quando olho para você, não sei se acho que você é bonito porque é coreano, mas sei que não é apesar disso." Tipo, sabe???

    O que ela entende das vivências e dos receios e dos problemas de garotos coreanos pra falar sobre eles assim? Soa artificial e de uma artificialidade ignorante, porque é uma mulher branca escrevendo os terrores e intolerâncias que o Park vivia.

    E meu deus eu perdi a paciência do tanto de vezes que a Eleanor se referia a ele como o "tonto do garoto asiático.". Se ele fosse branco, ela não se referiria a ele como nada além de "o tonto do garoto" que a gente sabe.

    Não que ela não possa escrever. Mas não teve a sensibilidade ao fazer isso e IT SHOWS.

    E eu tô aqui como mulher branca apontando coisas que me incomodaram, mas vi infinitas threads e artigos e resenhas apontando as problemáticas de Eleanor & Park antes de vir pra essa resenha. Inclusive, vou linkar algumas aqui:



    Se você fizer uma busca em resenhas negativas do Goodreads, te garanto que tem mais um monte expondo os problemas.

    Como eu comentei, Eleanor & Park tem uma construção boa e por isso consegue mascarar o abismo discutível de esteriótipos e fetichização a respeito do Park. Eu acho uma pena, porque a história da Eleanor é muito bem feita e traz mensagens importantes a respeito de abuso familiar, abandono e gordofobia. Três temáticas pesadas, mas que são sensíveis e equilibradas na narrativa.

    Mas não acho que seja um livro a se louvar e nem indicar. Tem muitos outros títulos sobre gordofobia a serem lidos, histórias que são impecáveis dentro de suas narrativas. Queria muito que a autora tivesse ouvido a comunidade que foi atingida por essas problemáticas e tivesse se retratado e melhorado, mas nunca fez isso - é só olhar comentários nos posts dela, qualquer crítica é completamente ignorada.

    Enfim, não indico. Não comento mais a respeito. E se quiser ler histórias válidas e não-tóxicas sobre garotas gordas se apaixonando e vivendo primeiros amores, procure por Dumplin'Amor Plus Size. Poder Extra G. Leah Fora de Sintonia. I'll be the One (inclusive, escrito por uma coreana e protagonizado por uma personagem coreana!). There's Something About Sweetie. To be Honest.


    Título original: Eleanor & Park
    Autora: Rainbow Rowell
    Tradutora: Lígia Azevedo
    Editora: Seguinte
    Gênero: Romance | YA
    Nota: 2

    1. Eu li esse livro tem também uns 3 anos, eu acho.. na época eu não me toquei muito nesses pontos, mas hoje em dia seria algo que perceberia sim. Como não ando na vibe de histórias do tipo, nem vou perder meu tempo relendo já que sei que iria passar raiva kkk
      Beijos
      Balaio de Babados

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      1. Oi, Lu!
        Não tava nos meus planos essa releitura, mas como a resenha exaltava demais esse livro achei melhor fazer porque definitivamente não bate mais com o que eu penso a respeito. Uma pena porque né, podia ser um YA maravilhoso :/

        Beijos, Nizz.

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    2. Olá, Denise.
      Vim comentar aqui nessa postagem porque a mais recente é sobre musica que não entendo muita coisa e porque fiquei curiosa para saber coo sua opinião sobre o livro tinha mudado hehe. Eu não li o livro nenhuma das duas vezes e agora nem sei se lerei. Como a autora consegue defender uma causa e se mostrar totalmente sem noção em outra no mesmo livro? Deveria pelo menos um capitulo no final dando alguma justificativa.

      Prefácio

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      1. Oi, Sil!
        É basicamente a coisa de querer escrever sobre problemas de uma comunidade da qual ela não faz parte; sem pesquisa minuciosa e sem o olhar sensível de alguém dali, é só um desserviço pra diversidade mesmo T_T
        Uma pena que depois de TODO ESSE TEMPO e tantas críticas ela continue se fazendo de sonsa...

        Beijos, Nizz.

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    3. Oi, Denise!
      Assim como você, não parei para refletir sobre essa problemática na época em que li, porque eu era muito jovem e com uma cabeça bem diferente do que hoje em dia. Ao mesmo tempo em que é uma pena perder o encanto por uma obra, é ótimo ver que aprendemos a reconhecer o que está errado.

      Obrigada por pontuar isso e levantar a importância do debate nessa temática.

      Beijos,
      Fantasma Literário

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