A Polícia da Memória foi a nossa leitura de ficção científica do Clube do Livro do Queria Estar Lendo. A história de Yoko Ogawa imagina um lugar onde as memórias desaparecem da noite para o dia, levando com elas tudo o que uma palavra significava na vida das pessoas.
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Nossa protagonista é uma escritora conformada com o dia a dia na ilha. Ela é amiga de um velho balseiro que perdeu seu emprego quando a memória das balsas deixou de existir. De vez em quando, outra memória desaparece, levando com ela tudo o que uma palavra significava.
A polícia da memória existe para garantir que ninguém guarde recordações e que aqueles que se lembram sejam levados embora. A mãe da protagonista, uma escultura, parecia se lembrar das coisas mesmo depois do seu sumiço. Por isso, ela foi levada embora.
Aos poucos, a rotina na ilha muda. Mais desaparecimentos acontecem. E uma pessoa importante para a escritora se revela alguém que se lembra, o que o coloca no caminho da polícia da memória.
Eu tinha altas expectativas com esse livro pelo tanto que ouvi influenciadores literários em quem eu confio falando muito bem dele. E cada pedacinho de expectativa foi superada com essa leitura.
A Polícia da Memória é um baita livro de ficção científica que se apoia num conceito básico de não explicar muito. Não há por quê, não há quando, não há quem. E eu acho que o peso do livro está justamente nesse vazio.
Lembro-me de já ter ouvido a seguinte frase: "Pessoas que queimam livros, um dia queimarão pessoas."
Os moradores da ilha, salvo alguns, se acostumaram com os sumiços. A protagonista também. Não há questionamentos quanto a eles. Por que as coisas somem? Como elas somem? Quem está fazendo com que suma? Nada disso é explicado. A situação que o livro aborda é justamente a da isenção de grandes revoluções. É uma história que se apoia nas pequenas rebeldias, mas principalmente na conformidade.
A escritora não questiona. O balseiro não questiona. A sociedade não questiona. Os que questionam são levados embora ou precisam se esconder. É uma alegoria tão forte a regimes ditatoriais quanto poderia ser. O governo não explica o que faz e nem por que faz. Ele simplesmente faz. A população tem que baixar a cabeça ou vai ser punida por isso.
Eu senti muitas semelhanças entre os sumiços das coisas com o que vivenciamos na ditadura militar no Brasil, por exemplo. Pessoas sendo levadas sem maiores explicações, tornando-se meras lembranças na vida daqueles que ousavam resistir e se lembrar. Quase como o tom do livro Ainda estou aqui, ainda que usando os elementos de uma distopia.
E é importante pontuar que A Polícia da Memória não deixa de ser uma ficção científica distópica só porque não te explica as coisas. Ela imagina essa ilha onde memórias desaparecem e são resguardadas por poucos que se rebelam contra o sistema; ela constrói essa sociedade onde o governo deleta coisas banais e, aos poucos, essenciais da população.
Quando você tira o significado de uma coisa, você tira a importância dela. Despir algo do seu significado é torná-lo vazio. Ela passa a ser descartável. Se uma rosa ou uma balsa podem ser descartáveis, pessoas eventualmente também podem ser. Lembranças são importantes porque contam uma história, mesmo que a mais banal das histórias.
A história me deu a mesma sensação que ler notícias sobre a Palestina está me causando. A desolação de ver tudo se apagando aos poucos, sem poder fazer nada, enquanto a tirania e a opressão devastam o que tem em seu caminho. Aqui, é mais sutil do que o genocídio palestino, mas igualmente desolador. Algumas pessoas só querem ver o mundo queimar. Alguns governos só querem ver tudo se apagar.
A edição da Estação Liberdade conta com uma boa tradução de Andrei Cunha. O texto é bem simples; personagens não têm nomes, mas designações. O mais próximo que chegamos de um nome é justamente em um personagem que se rebela, lembrando de tudo que se foi. Desafiando o sistema ao não apenas entender a importância das memórias, mas também por tentar estender essa importância à protagonista.
A Polícia da Memória foi uma baita leitura que utiliza a narrativa simples e direta para expressar o poder que as lembranças guardam. Sem elas, quaisquer elas que sejam, de flores a animais a objetos e pessoas, para que existir? Sem elas, não somos nada.
Sinopse: A polícia da memória, publicado originalmente em 1994, chega ao Brasil pela Estação Liberdade. O livro, finalista do International Booke Prize 2020, e do National Book Awards 2019, foi traduzido em diversos idiomas e, mais uma vez, marca o talento da escritora contemporânea Yoko Ogawa. Em narrativa melancólica, o leitor é conduzido ao submundo das memórias perdidas. Em tom de ficção cientifica, uma ilha governada por policiais que buscam vestígios de lembranças. Na ilha, os objetos, casas, e famílias inteiras somem sem deixar vestígios. Sem que as pessoas sequer se atentem, e notem os desaparecimentos, pois as lembranças furtivamente também já se foram. Na trama, uma escritora tenta manter intactos resquícios de histórias, de algo que possa permanecer. Não é fácil, já que tudo ao redor desaparece, e ela não pode contar sequer com a própria memória. O leitor é convidado, instintivamente, a acessar o seu próprio arcabouço de lembranças, e percorre uma jornada de memórias que gostaria de preservar. Acessar as memórias é acessar, também, o que criamos e o que se mistura ao real. Ler A polícia da memória é embarcar no mais profundo do ser. Há uma pergunta que circunda toda a narrativa: Se pudesse, o que você preservaria intacto, e não perderia da memória?
Título original: Hisoyaka na Kessho
Autoria: Yoko Ogawa
Tradução: Andrei Cunha
Editora: Estação Liberdade
Gênero: Ficção científica
Nota: 5

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