Resenha: Na hora da virada

  • 09:00
  • 6 de nov. de 2019
  • Resenha: Na hora da virada

    Na Hora da Virada é o segundo título da premiada e maravilhosa autora Angie Thomas, que também entregou ao mundo a obra prima que é O ódio que você semeia. O livro, lançado aqui pela Galera Record - que cedeu este exemplar em cortesia - é uma história de empoderamento e resistência, principalmente.

    Sinopse: Bri é uma jovem de dezesseis anos que sonha se tornar uma das maiores rappers de todos os tempos. Ou, pelo menos, ganhar sua primeira batalha. Filha de uma lenda do hip-hop underground que teve o sucesso interrompido pela morte prematura, Bri carrega o peso dessa herança. Mas é difícil ter a segurança de estrear quando se é hostilizada na escola e, desde que sua mãe perdeu o emprego, os armários e a geladeira estão vazios. Então, Bri transforma toda sua ira em uma primeira canção que viraliza... pelos piores motivos! No centro de uma controvérsia, a menina é reportada pela mídia como uma grande ameaça à sociedade. Mas com uma ordem de despejo ameaçando sua família, ela não tem outra escolha a não ser assumir os rótulos que a opinião pública lhe impôs. Na Hora da Virada dá aos leitores de Angie Thomas outra protagonista pela qual torcer. É uma história sobre lutar por seus sonhos e também sobre a dificuldade de ser quem você é, não quem as pessoas querem que você seja.

    A história acompanha Bri, uma aspirante a rapper que está tentando conciliar seus estudos com seu sonho de compor e se tornar uma cantora famosa. A vida em casa tem sido difícil por causa das contas e dos problemas financeiros, a vida nas ruas é perigosa porque a polícia mais ameaça do que protege, e o mundo não parece querer saber muito dos seus problemas.

    Quando Bri compõe uma música em resposta a muitos absurdos que acontecem no seu dia a dia e essa música viraliza, o estouro vem para o bem e para complicar ainda mais sua vida. Com a fama, vem a visibilidade - mas, com a visibilidade, vem a cobrança e os problemas. O bairro parece tão feliz quanto perturbado pela sua escolha de palavras, e agora Bri precisa lidar com as consequências e, principalmente, resistir para que o mundo entenda o que estava querendo dizer.

    Querer fazer uma coisa é diferente de achar que é possível. O rap é meu sonho desde sempre, mas sonhos não são reais. Ou a gente acorda ou a realidade faz com que pareçam idiotas.

    Pense num livro difícil de resenhar por ser tão grandioso e impactante. Angie nos mostra, mais uma vez, que veio para esse mundo para fazer História com as suas histórias; sua narrativa é de um impacto absurdo, suas personagens são extremamente bem desenvolvidas e representadas e toda a carga emocional que essa trama carrega é difícil de descrever.


    Resenha: Na hora da virada

    Bri é uma protagonista carismática, cheia de energia e de presença. Ela carrega esse escudo moldado em palavras e atitudes certeiras que é visto por muitas pessoas como uma resposta "ácida" para o mundo. É o básico de se julgar alguém por uma reação quando não se conhece o background da vida dessa pessoa, e o mundo sabe como oferecer julgamento - especialmente para uma menina negra, pertencente a uma comunidade carente. O fato de ela não levar desaforo para casa é motivo para suspensão e advertência na escola, diferente das colegas brancas que fazem mais e sofrem muito menos.

    "Agressiva" é usada para me descrever com muita frequência. Deveria significar ameaçadora, mas nunca ameacei ninguém.

    A rotina de Bri é marcada por pequenas e grandes problemáticas sobre como a sociedade a vê e resolve responder a ela e isso cresce em revolta e indignação, emoções bastante coerentes mas que, mais uma vez, quando colocados em uma garota negra geram repercussão negativa; a narrativa aponta justamente para isso, para como todo mundo está pronto para julgá-la por estar com raiva, sem realmente prestar atenção no motivo para essa raiva.

    É frustrante e irritante acompanhar a indiferença das pessoas da escola, o abuso de poder de seguranças e policiais, os dedos apontados de mães brancas que se sentem ameaçadas pelas palavras do rap dela. Você quer que alguma coisa mude, que uma solução mágica apareça para desfazer a injustiça da situação, mas é um livro cru e real e não é assim que a banda toca. O racismo impera mesmo nas atitudes mais banais e é de fazer chorar e gritar o quanto isso demora a reverter, mesmo que mimicamente.

    Diferente de O ódio que você semeia, aqui Angie Thomas não fala sobre violência policial e crimes raciais - ainda que dê espaço para ser abordado - mas sim sobre realidades distintas, sobre o quanto problemas financeiros e sociais afetam a vida das pessoas, especialmente as marginalizadas por motivos óbvios.

    Que se foda essa Emily. É, eu disse. Que se foda. Ela não sabe nada sobre mim, mas quer usar uma música para me fazer parecer uma vilã malvada que está influenciando seu precioso filho. Que Deus não permita que ele escute sobre o que gente como eu tem que enfrentar diariamente. Deve ser bom entrar em pânico por causa de umas palavras, por são só isso. Palavras.

    E quando Bri estoura, usando sua raiva para compor sua arte, é compreensível o quanto ela se frustra e o quanto fica ainda mais irritada pelo modo com que as pessoas a julgam. A arte fala por ela, mas precisa de tradução para aqueles que não compreendem a sua realidade - a disparidade cria essa ponte difícil de cruzar.

    - Podem dizer o que quiserem. Porra, derrubem a música se quiserem. Mas vocês nunca vão me silenciar. Eu tenho coisas demais pra falar.

    Toda a jornada da Bri é uma das melhores que já li na vida. Ela é uma protagonista impactante e eu não consigo expressar o quanto ri do seu bom humor, me emocionei com a sua fragilidade e torci pelo seu sucesso, porque ela é brilhante - já que não dá pra escrever BRILHANTE sem Bri.


    Resenha: Na hora da virada

    Os coadjuvantes ao seu redor enriquecem ainda mais a trama, com destaque para sua mãe, Jay, e para sua tia, Pooh. As duas carregam traumas e lembranças poderosas do que escolhas erradas podem fazer com a sua vida, mas cada uma seguiu um caminho diferente depois de enfrentar o pior; Jay é tudo sobre superação, enquanto Pooh é muito sobre vingança e retribuição. São mulheres fortes, mas carregadas em fraqueza e humanidade igualmente.

    Sonny, Malik, Curtis e tantos outros nomes enchem a narrativa e tornam essa uma história carismática e importante de se acompanhar. Há espaço para falar sobre amizade e confiança, sobre família e lar e sobre legado - o quanto é importante e o quanto é prejudicial se apoiar nele.

    Angie Thomas entrega outra obra prima para o mundo, mostrando que suas histórias têm muito a falar e ser ouvidas - que ninguém vai calá-las.

    Título original: On the come up
    Autora: Angie Thomas
    Editora: Galera Record
    Tradução: Regiane Winarski
    Gênero: YA
    Nota: 5+
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    1. Oi, Nizz!
      Ainda não li essa obra-prima, mas pretendo. Depois de THUG, eu leio até a lista de supermercado da Angie.
      Beijos
      Balaio de Babados

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    2. Olá, Denise.
      Estou com esse livro aqui para ler e depois dessa resenha é impossível não se animar. Infelizmente o racismo ainda é algo que estamos falando depois de tantos anos depois dos escravos serem libertos. Era para ser algo que nem precisasse mencionar. Não sei se você acompanha a Malhação, eles estão falando sobre isso e tem coisas que até eu nunca tinha parado para reparar, mas que acontece o tempo todo.

      Prefácio

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