Por que Nós Odiamos YA?

  • 09:00
  • 27 de jan. de 2020

  • Vira e mexe aparece alguma discussão pelas redes sobre "o que é literatura" e sempre acabamos dividimos entre literatura clássica e a de entretenimento - geralmente com críticas mais pesada em cima da literatura YA. Por isso, a proposta de hoje é discutir por que nós odiamos YA. E quando eu digo nós, me refiro a "sociedade leitora", e não especificamente eu ou quem está lendo esse texto.

    Lembro que a primeira vez que me deparei com preconceito literário, a respeito de gênero/sub-gênero, foi quando comecei a pesquisar sobre literatura para o meu TCC, que não envolvia YA, mas sim chick lit, que é tão menosprezado quanto. Lembro que fiquei irritadíssima com todos esses autores que falavam em Alta Literatura ou Literatura com "L" maiúsculo como se ela fosse a única válida e qualquer leitor de "baixa literatura" ou "literatura com l minúsculo" fosse alienado ou incapaz de pensar.

    E depois, ao apresentar meu TCC, fui surpreendida por um dos professores da banca que se mostrou bastante surpreso com um trabalho desenvolvido em cima de um subgênero tão mal visto, porque ele vinha de uma formação em letras e o que ele aprendeu é que os clássicos eram os únicos que realmente valiam a pena serem lidos - e ali estava eu, falando sobre como Shakespeare era gozado e ridicularizado, dito como literatura inferior e de entretenimento quando estava vivo, e hoje é exaltado como literatura clássica nas universidades.

    Esse professor me deu nota 10 em todos os quesitos do TCC e elogiou como uma pesquisa séria, interessante e condizente com a comunicação social.

    E foi ali que eu percebi que essa discussão, embora interessante, aliena muito quem não está disposto a mostrá-la ou compreendê-a em toda sua complexidade. Eu compreendo o que os teóricos adeptos da "alta literatura" querem dizer ao falar de roteiros prontos de best-seller, fáceis de serem compreendidos, com fórmulas prontas e repetitivas. Eu não precisei ir muito longe para perceber isso em alguns livros que eu amo - como os de Dan Brown ou Agatha Christie, que trazem sim um roteiro parecido entre si para a construção e desenvolvimento da história.

    Mas acredito que essa discussão é muito mais complexa, e não só porque vejo livros "de fácil compreensão" como porta de entrada para leitores, mas porque por mais simples e direta que seja a história, a forma como ela será lida, interpretada e absorvida é mais importante do que metáforas complicadas, escrita rebuscada ou grandes filosofias de vida. Especialmente porque duas pessoas nunca leem a mesma história, todo mundo se relaciona com elas de uma forma diferente.

    Porém, quanto mais eu avancei nas minhas pesquisas a respeito de YA, mais percebi que não é apenas porque consideramos essas obras com "roteiro pronto" ou "conteúdo mastigado" que as dispensamos como algo que não faz pensar. Além de tudo isso, o YA ainda carrega o estigma de "ser feito para adolescente", que carrega um peso muito parecido com o "ser feito para mulher".

    Porque socialmente falando, a voz dos adolescentes não é tida como importante, relevante ou válida. É só ver a forma como tratamos os adolescentes: eles são barulhentos demais, dramáticos demais, seus problemas não são de verdade, eles tem "vida fácil". 

    Nós construímos um estereótipo adolescente na nossa mente que automaticamente transforma a literatura feita para - e protagonizada por - eles seja descartada como boba, melodramática ou que nada tem para agregar aos leitores.

    E quando esse adolescente é uma garota, a crítica é ainda mais pesada. Não faz muito tempo que a internet viveu todo um burburinho de bandas menosprezando sua fanbase constituída por garotas adolescentes, como se só fossem considerados músicos de verdade a partir do momentos que sua fanbase consistisse em pessoas mais velhas - em especial homens.

    Falam das garotas adolescentes - e não só na música, mas em tudo - como criaturas descompensadas que não podem ter um gosto relevante ou crítico ou entender o que escutam, leem e assistem. São apenas mentes vazias gritando por garotos bonitos - ou sonhando com romances bobos em livros. E aí, quando a gente associa o estereótipo do "literatura para mulheres" com o estereótipo de "garotas adolescentes", temos um subgênero subestimado por todo mundo.

    É muito comum ver "leitores de verdade" (aqueles que adoram cagar regra desde como você deve marcar a página do seu livro até os critérios que usa para escolher sua próxima leitura) rolarem os olhinhos quando alguém elogia um YA ou propõe um debate sobre o tema desse YA ou, ainda, deus me livre, indique esse YA para leitura!

    A visão é tão estreita que as pessoas rapidamente assumem que, se é YA, não vai tratar de assuntos sérios ou temas relevantes ou ter uma narrativa forte e uma voz própria. E é um erro tão grande que eu queria que o meu Fale! tivesse 800 páginas, só para que eu pudesse jogar ele na cabeça das pessoas e fazer doer muito.


    Por que Nós Odiamos YA?

    Acho que já ficou mais do que claro, especialmente de 2010 pra cá, que YA não é uma coisa boba e que os sentimentos de garotas adolescentes não são irrelevantes - elas também não são burras, fúteis ou vazias.

    Já perdi a conta de quantos YA discutiam assuntos extremamente essenciais para a nossa formação e rejeito muito fortemente a ideia de que ele é um subgênero "mastigado" porque é destinado a "mentes que ainda estão em formação". Não é necessário uma longa jornada metafórica para nos fazer pensar, embora obras do tipo sejam desafiadoras - e eu realmente encorajo as pessoas a saírem de suas zonas de conforto e tentarem ler coisas diferentes. Mas é muito importante que a gente pare de subestimar leituras juvenis.

    Porque elas comunicam verdades, fatos e realidades importantes, de forma descontraída, com uma roupagem inventiva que atrai a atenção dos adolescentes e pré-adolescentes, e esse sempre vai ser o foco da literatura: envolver.

    É, ainda, um preconceito muito forte que temos - embora muitas pessoas acreditem que "apenas não gostam" de YA - assim como temos preconceito com obras escritas por mulheres e pessoas não brancas, e outras minorias. E é um preconceito que muitas vezes não é escancarado. Ele se esconde de tantas formas que é difícil colocar o dedo e dizer "é ali que está!"

    Hoje em dia, principalmente, vivemos uma fase muito boa para os YA, que estão cada vez mais abordando temas atuais e relevantes, dando voz a minorias histórica e sistematicamente oprimidas, como O Ódio que Você Semeia, Poeta X, Apenas uma Garota, Mil Palavras, Simon vs. a Agenda Homo Sapiens e tantos outros que trazem discussões sobre racismo sistemático, cultura do estupro, relacionamentos abusivos, identidade, orientação sexual, preconceito, direitos das mulheres...

    Os YA estão cada vez mais ocupando espaço e mostrando ao que realmente vieram, batendo o pé e deixando claro que eles tem algo a dizer - algo importante, grande e transformador. O que faz com que eu me questione:  por que odiamos YA?

    1. Olá...
      Acho que estávamos mesmo precisando de um post desse... Aliás, quero lhe parabenizar por trazer esse post!
      Primeiramente, queria dizer que a "Diane Leitora" lê de tudo, leio tanto clássicos, como Machado de Assis e Graciliano Ramos, sendo que esse último tem um papel muito importante na minha vida de leituras. Por outro lado, eu amo young adults e amo ainda mais chick lits, e consigo combinar os clássicos com esses livros perfeitamente bem!
      Acho esse preconceito extremamente ridículo, ainda mais vindo de pessoas que se consideram "cultas"! Literatura, pra mim são livros e livros servem para te levar para outros mundos, para te ensinar, para desligar sua mente e muitas outras coisas. Sendo assim, não importa se você lê Hamlet ou se lê A Culpa é das Estrelas, o mais importante é se entregar para a leitura, pois, os benefícios serão sempre os mesmos.
      Além disso, acho os young adults muito importantes, pois, eles trazem questões tão importantes e talvez alguns jovens se sintam até reconfortados os lendo, como é o caso de "Por Lugares Incríveis", que fala sobre depressão e suicídio, "O Ódio que Você Semeia", que fala sobre racismo, "Amor Amargo", que fala sobre relacionamentos abusivos, "Céu sem Estrelas", que fala sobre gordofobia e "Garotas de Vidro", que fala sobre anorexia e bulimia e a busca pelo corpo perfeito.
      Enfim, poderia ficar aqui a tarde toda debatendo sobre esse assunto, mas, a mensagem principal que devemos sempre espalhar por aí é LEIA O QUE TE FAÇA FELIZ!

      Beijos e parabéns pelo post!

      http://coisasdediane.blogspot.com/

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      1. Oi, Diane!
        Que bom que você gostou 💖
        Eu não consigo nem começar a dizer a importância de certos livros YA em me ajudar a colocar em palavras e compreender situações e sentimentos. Sem contar aqueles que me fizeram entender traumas e descobrir como encontrar ajuda.
        Todo tipo de leitura é literatura e eu me recuso a ceder a esse tipo de ignorância que quer criar regras preconceituosas...

        Bjs

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    2. Olá, Bianca.
      Eu ainda não tinha percebido esse ódio com os YA especificamente. Já vi muito sim leitores de clássicos desprezando literatura contemporânea e até já arrumei confusão uma vez porque disse que não gostava de ler poesias e a pessoa não gostou e deu a entender que eu era menos inteligente por isso. No momento meu foco não está em YAs, mas já li muito e por muito tempo foram meus favoritos.

      Prefácio

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      1. Oi, Sil!

        Nossa, vira e mexe rola treta por causa de YA, sempre menosprezado. Mas acho que é uma reflexão válida pra literatura de entretenimento como um todo. Não precisa ser o favorito, mas precisamos sempre respeitar, ne? Sem contar que todo livro que desperte o interesse na leitura e cative o leitor é válido.
        E eu né canso muito dessa discussão ridícula de o que é literatura ou não. É ignorante, elitista, preconceituosa e prejudicial para o índice geral de leitura...

        Terrível ver pessoas pensando assim, ne?

        Bjs

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    3. Oi Bibs!
      A sensatez em pessoa, maravilhosa, CONCEITO, COESÃO E ACLAMAÇÃO!!!
      Eu achei ridículo o posicionamento da menina, principalmente pelo fato de vir de uma "estudante de letras". É triste compartilhar meu diploma com pessoas assim. Jamais que a literatura iria se resumir a cânone literário. São só rótulos. Essa ideia de que livro YA é feito pra vender não cola. Qual livro não foi feito pra vender? Me diz? Machado ia morrer de fome se não vendesse as obras dele. É um produto e assim como outros são feitos para vender. Agora ce pega um livro como Percy Jackson, que faz uma baita releitura de clássicos de mitologia, ce pega O Ódio que Você Semeia, Dois Garotos se Beijando e tantos outros e diz que não é literatura. Pelo amor de Deus, é o cúmulo da ignorancia.

      Abraços
      Emerson
      http://territoriogeeknerd.blogspot.com/

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      1. Oi! Que bom que você gostou 💖 o que mais me irrita nessa história toda, foi a pessoa se justificar dizendo que é estudante de letras. Porque se fosse ler sobre crítica literária teria visto que não existe consenso a respeito do que é literatura e exemplos de livros considerados eruditos hoje, que eram considerados lixo em sua época de criação. É no mínimo algo para se pensar, refletir e discutir.
        Mas naaao, vamos cagar umas regras aqui. 😒 É triste, muito triste.
        Aliás, esse lance de livro comercial... deve ter saído do mesmo buraco da menina que disse que autor não tinha que ganhar dinheiro vendendo seus livros e deveria ficar muito grato que as pessoas lessem seus livros, mesmo sendo PDF pirata. ??????? Autor tem que morrer de fome e escrever só o que eles querem? Nunca entendo.

        Mas fico feliz de ver tanta gente pronta para defender!

        Bjs

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    4. Oi, Bibs!
      Apenas digitando com os pés pois as mãos estão ocupadas aplaudindo esse hino de texto! Sem palavras... apenas sem palavras...
      Beijos
      Balaio de Babados
      Participe do sorteio Rumo aos 4K no instagram

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    5. Oi Bia, tudo bem? Eu não tenho problemas com gênero YA, eu tenho problemas com personagens chatos e infelizmente, a quantidade de adolescentes chatos na literatura é bem grande, mas não é exclusivo do YA. Acho que o problema é a gente ficar generalizando!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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      1. Oi, Mi!

        Claro que sempre vai ter protagonista chato, ne? Quem nunca. Meu grande problema é desmerecer todo um subgênero por preconceitos, sabe? Por estereótipos. e desmerecer as pessoas por isso. E querer ditar regras sobre o que é ou não literatura. Se nem a academia entrou em consenso, quem a gente pensa que é pra apontar o dedo e dizer o que é ou não literatura? O que é arte e o que é lixo, sabe?
        Me deixa irritadissima hahahahhaha aí saí os textões.

        Bjs

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    6. Oi Bianca,

      Eu concordo que os YA estão cada vez mais ocupando espaço e mostrando histórias incríveis e maravilhosas.
      É uma pena que exista um grande preconceito em cima disso. Acho que toda leitura é valida, independente do que você leia.

      Bjs e uma boa semana!
      Diário dos Livros
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      1. Oi, Jéssica!

        Acho que quanto mais espaço exigirmos de own voices, mais livros YA incríveis vamos receber. Só tem a crescer em significância e material! 💖

        Bjs

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    7. Que postagem incrível Bianca... muito bem clara e que todo mundo deveria ler...
      Na minha opinião, preconceito, de qualquer tipo, só emburrece o ser humano, e esse tal de Não Leio YA, não leio isso, só leio aquilo, só aquilo é bom e o resto não presta, mas principalmente pessoas que como voce muito bem disse, cagam regras, estão perdendo uma excelente oportunidade de se atualizar, de conhecerem historias incríveis sim do mundo YA.

      Eu amo ler, tudo, manual, bula de remédio, livro clássico, blogs inteligentes e por ai vai... vou aprendendo e descobrindo cada dia mais novos universos, e quem ganha com isso, eu claro, que leio cada dia mais materias lindas como a sua..

      Parabens
      Abração
      Ana Paula
      Blog Paixão por Leituras

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