Resenha: Uma mulher no escuro

  • 09:00
  • 9 de jul. de 2020
  • Resenha: Uma mulher no escuro

    Raphael Montes é meu deus e nada me faltará. Dito isso, informo que Uma mulher no escuro não foi a leitura que eu esperava. Publicado pela Companhia das Letras e último livro solo lançado pelo autor, juntas-se a Bom dia, Verônica na minha lista de "o que aconteceu aqui, Raphael?".


    Sinopse: Victoria Bravo tinha quatro anos quando um homem invadiu sua casa e matou sua família a facadas, pichando seus rostos com tinta preta. Única sobrevivente, ela agora é uma jovem solitária e tímida, com pesadelos frequentes e sérias dificuldades para se relacionar. Seu refúgio é ficar em casa e observar a vida alheia pelas janelas do apartamento onde mora, na Lapa, Rio de Janeiro. Mas o passado bate à sua porta, e ela não sabe mais em quem pode confiar. Obrigada a enfrentar sua própria tragédia, Victoria embarca em uma jornada de amadurecimento e descoberta que a levará a zonas obscuras, mas também revelará as possibilidades do amor. Um psiquiatra, um amigo feito pela internet e um possível namorado — qual dos três homens está usando tudo o que sabe para aterrorizar a vida de Vic? E o que afinal ele quer com ela? Na literatura nacional, Raphael Montes é unanimidade quando se trata de livros de suspense. Uma Mulher no Escuro traz sua primeira protagonista feminina e confirma o autor como um dos mais originais da atualidade — além de deixar o leitor intrigado do começo ao fim.

    Sou fã do Montes desde a Bienal de 2014 quando conheci ele e quase infartei - veja a foto abaixo neste post -, o que faz dessa resenha algo bem complicado para mim. Esperei mais de três semanas para finalmente vir aqui colocar em palavras como me sinto em relação a esse livro.

    Primeiro de tudo: o livro não é ruim. Eu sei que pelo "drama" acima parece que a leitura foi uma bomba. Não foi. É uma história interessante, de leitura rápida e empolgante e que entrega alguns plot twists típicos do Raphael que - para quem não é acostumado ao autor - vai ser um choque enorme.

    O problema, para mim, reside exatamente aí: eu já sou acostumada. Li todos os livros do Montes, embora fora da ordem cronológica de publicação, e sei muito bem o que esperar dele. Talvez o erro aqui seja que a barra de expectativa esteja muito alta. Ninguém mandou ser tão bom, senhor Raphael.

    Uma mulher no escuro conta a história de Victoria, uma mulher que lida com os traumas de ter presenciado ainda criança o assassinato de sua família. Quebrada, mas tentando seguir em frente, o pouco de estabilidade ao qual conseguiu alcançar começa a se esvair quando um picho em sua casa indica o retorno do assassino.

    Vic é uma personagem instável e de personalidade infantilizada. Em muitos quesitos ficou presa à idade em que a tragédia ocorreu. Uma criança no corpo de uma mulher, lutando para crescer e sobreviver. O livro é uma narrativa bem comum aos thrillers psicológicos, mas também é uma história de descobertas, de crescimento.


    Resenha: Uma mulher no escuro

    Juntam-se a ela personagens como Arroz, um sujeito que ela conheceu online e com quem tem algo semelhante a uma amizade. Seu psiquiatra, que parece ser a única estabilidade na vida da protagonista. Sua tia, última integrante que restou da família. E por fim, Georges, o escritor e cliente do café onde Vic trabalha, que passa a ser seu interesse amoroso.

    É interessante perceber que, apesar de ter um núcleo de personagens relativamente pequenos - estou ignorando aqui os personagens do passado -, não houve uma real conexão com eles. Mesmo quando a história se aprofunda em suas vidas, segredos e traumas, o olhar é o de um espectador distante. Não sei dizer ainda, mesmo depois de três semanas refletindo para vir escrever essa resenha, se isso ocorre por se tratar de personagens rasos ou por pura falta de emoção na narrativa.

    O que me leva a um dos pontos mais importantes para mim: Raphael Montes nunca teve problemas em passar emoção e criar uma conexão com seus personagens, mesmo quando eles eram psicopatas como o Téo em Dias Perfeitos. A outra única vez que tive problemas assim com a escrita dele, foi exatamente em Bom dia, Verônica. E o que esses dois livros têm em comum? Protagonistas mulheres.

    Bom dia,Verônica deixa muito clara a desconexão da narrativa com a personagem, a ponto de tornar a leitura enfadonha e desgostosa em alguns pontos. Ainda que Uma mulher no escuro melhore a narrativa em relação a Verônica, ela não chega nem perto do que são as outras obras do autor. O texto é seco e raso, sem peso, de uma maneira que nem seus famosos plottwists conseguem ter o efeito desejado.

    O final de Bom dia,Verônica, por exemplo, poderia ter sido grandioso. Aqui, apesar das reviravoltas interessantes nas páginas finais - bem finais, diga-se de passagem -, algumas das grandes revelações ficam claras desde a metade do livro ou até mesmo antes. Não dá para apostar no choque se você for fazer um foreshadowing dessa forma, Raphael. 

    Mas, de novo, se alguém me perguntar se é um bom livro vou responder que "provavelmente sim". Porque os elementos estão ali, grande parte das resenhas do Skoob apontam para surpresas e reviravoltas emocionantes. E é uma pena que essa não tenha sido a minha leitura. 

    Para mim foi um três estrelas e meia, teriam sido três se não fosse livro de um autor favorito. Ao mesmo tempo se não fosse do Montes, e eu não tivesse tantas expectativas, talvez seria quatro estrelas. Por via das dúvidas, fico na média.

    Uma mulher no escuro é um thriller que trata de temas pesados, com altas doses de violência - principalmente sexual - e que eu recomendo com cuidado. Indico também que leiam algumas das resenhas do Skoob, para opiniões menos influenciadas do que a minha nesse tópico.

    Título original: Uma mulher no escuro
    Autor: Raphael Montes
    Editora: Companhia das Letras
    Gênero: Thriller
    Nota: 3,5

    1. Oie,
      Que pena que sua experiência não tenha sido tão boa, especialmente com um autor que você gosta tanto :( é muito chato quando isso acontece, mas concordo que as expectativas altas realmente fazem isso com a gente.
      Ainda não conheço o trabalho dele, mas tenho muito interesse, ainda mais com resenhas tão verdadeiras quanto essa!
      Espero que os futuros sejam melhores sempre haha

      Beijos,
      Fantasma Literário

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      1. Oi Carol, antes de tudo: obrigada pelo comentário!
        Super recomendo a leitura de Dias Perfeitos e de Jantar Secreto. E, se você curtir um pouco de terror, O Vilarejo é um livro com contos sensacionais.Eu não curto terror e nem contos, e ainda assim fiquei viciada na escrita dele naquele livro.
        Prometo que vale a pena!

        beijos

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    2. Meu Deus eu to rindo muito do personagem chamado Arroz hahhahahhaa
      Enfim... eu só li O Vilarejo do Raphael e, apesar dele ser bem elogiado e eu ter gostado desse livro, nunca mais bateu aquela vontadinha de ler algo dele sabe...
      Beijos
      Balaio de Babados

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      1. Ai Lu, nesse sentido não tem nem como defender hahaha também não soube lidar com ele chamar Arroz... mas o que eu posso dizer, em Jantar Secreto um dos personagens chamava Leitão, fazer o que né
        Putz, pena que tu nunca mais teve vontade de ler algo dele, porque eu indico MUITO Dias Perfeitos e Jantar Secreto, acho a escrita do Raphael nesses livros algo digno de colocar MUITOS autores bestsellers gringos no chinelo!

        beijos

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    3. Oi, Duda
      É uma pena que a obra não tenha sido tudo aquilo que você estava pensando. Talvez esse problema com a protagonista seja porque é um homem que esteja escrevendo do ponto de vista dela, e faltou essa emoção. Sei lá haha nunca li as obras do Montes então não tenho com o que comparar. Infelizmente não curto thrillers então não me interesso por esse tipo de leitura, mas sempre deixo a mente aberta.
      Beijo!
      http://www.capitulotreze.com.br/

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    4. Oi Eduarda,

      Primeira vez aqui no seu blog <3

      Eu to com esse livro na espera para ser lido e foi por conta da Bel Rodrigues que eu adquiri ele. Esse post deu uma baixada na minha expectativa e isso é bom, como é o meu primeiro do Autor, é bom ir com calma pra ser surprendida pelas reviravoltas.

      Apesar do Caos

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