Resenha: Um lugar bem longe daqui

  • 09:00
  • 21 de dez. de 2020
  • Resenha: Um lugar bem longe daqui

    Um lugar bem longe daqui é um premiado romance da autora Delia Owens, lançado aqui pela Editora Intrínseca, e foi nosso escolhido para a última Leitura Coletiva do ano. A história acompanha a solidão de uma garota até sua vida adulta, com a companhia de um brejo que nunca vai deixá-la como as pessoas deixaram.

    Sinopse: Por anos, boatos sobre Kya Clark, a “Menina do Brejo”, assombraram Barkley Cove, uma calma cidade costeira da Carolina do Norte. Ela, no entanto, não é o que todos dizem. Sensata e inteligente, Kya sobreviveu por anos sozinha no pântano que chama de lar, tendo as gaivotas como amigas e a areia como professora. Abandonada pela mãe, que não conseguiu suportar o marido abusivo e alcoólatra, e depois pelos irmãos, a menina viveu algum tempo na companhia negligente e por vezes brutal do pai, que acabou também por deixá-la. Anos depois, quando dois jovens da cidade ficam intrigados com sua beleza selvagem, Kya se permite experimentar uma nova vida — até que o impensável acontece e um deles é encontrado morto. Ao mesmo tempo uma ode à natureza, um emocionante romance de formação e uma surpreendente história de mistério, Um Lugar Bem Longe Daqui relembra que somos moldados pela criança que fomos um dia e que estamos todos sujeitos à beleza e à violência dos segredos que a natureza guarda.

    Kya tem seis anos quando sua mãe deixa a cabana onde moram no brejo - com as semanas, os irmãos mais velhos de Kya se vão também. Jodie é o último a partir, e promete voltar por ela em algum momento. Naquele, no entanto, ele não aguenta mais viver sob o mesmo teto que o pai - um alcóolatra violento e conturbado. Com o adeus, todos se vão, menos a pequena Kya.

    Relegada a viver e sobreviver sozinha, uma vez que o pai não faz nem o mínimo para ajudá-la, Kya aprende com o brejo a como fazer isso. Os anos se passam e seu conhecimento sobre aquele pedaço da natureza se expande, mas o brejo não pode protegê-la do mundo para sempre.

    Resenha: Um lugar bem longe daqui

    Um lugar bem longe daqui foi uma experiência de leitura inesperada por carregar tanta melancolia de maneira medida e bem feita. A narrativa da Delia Owens é poética, triste e solitária, assim como a Kya.

    Por que a parte ferida e ainda sangrando deveria arcar com o ônibus do perdão?

    Enquanto a gente lia em conjunto, o surto geral era "nossa mas como essa garota SOFRE" e também sobre a força que ela desenvolveu por todos esses abandonos. Kya não se submeteu à vida e ao medo como muitos teriam feito em seu lugar; mesmo tão nova, ela aprendeu com a vida. Aprendeu com a natureza. Se permitiu sentir terror e incerteza, mas não se dobrou a eles.

    Para a cidade próxima dali, ela se tornou a Menina do Brejo. O preconceito que varre aquele cantinho do mundo - ambientado nos anos 60 pra 70 - é desesperador. E realista; não apenas com a Kya, com sua vivência distante da "civilização", mas também com as pessoas negras. O racismo presente na narrativa é sempre visto pelo olhar ingênuo e distante da protagonista, mas está ali escrachado para a gente entender - os negros têm que viver num canto afastado do resto da cidade, não podem entrar em estabelecimentos, não são tratados da mesma maneira. Enfim, o racismo.

    Alguém sabia seu nome. Ela ficou assustada. Sentiu-se ancorada a alguma coisa e livre de outra.

    O preconceito que Kya sofre é diferente; vem de sua origem e dos seus trejeitos e é esse tratamento absurdo que a afasta das poucas tentativas que fez de tentar viver em sociedade. Com exceção de Pulinho, dono de um posto de abastecimento, e sua esposa Mabel, Kya não conhece nada além de olhares ranzinzas e comentários perturbadores de quem vive ali.

    Resenha: Um lugar bem longe daqui

    Com Pulinho e Mabel, no entanto, ela encontra uma segunda família. Os dois fazem parte da sociedade excluída pelo resto da cidade, e oferecem a Kya o que jamais encontraram em vizinhos e conhecidos - gentileza, empatia e amizade.

    Kya se enterrou mais fundo no silêncio do mundo natural. A natureza parecia ser a única pedra que não iria escorregar no meio da correnteza.

    Enquanto sua infância mostra a pouca confiança que consegue evocar e manter, a juventude e enfim idade adulta trazem a turbulência das mudanças. Kya conhece o amor através de um jovem apaixonado pela natureza chamado Tate - e também conhece as dores que amar pode trazer. Conhece a dependência emotiva através de um babaca chamado Chase - e também o que o abuso pode fazer com a sua consciência. Um abuso bem mais silencioso, a princípio, do que aquele que sua mãe vivia com o pai alcóolatra, mas que se desenvolve na mesma carreira que relacionamentos abusivos têm a oferecer.

    Ela riu para agradá-lo, algo que nunca tinha feito. Cedendo mais um pedacinho de si só para ter alguém.

    Eu gostei muito de como a autora explorou o crescimento e amadurecimento da Kya. Suas escolhas, seus medos e o quanto isso afetava os passos que estava para dar. Uma menina simples, que se tornou parte da natureza para sobreviver, e que encontrou ali seu sustento e sua vida. Ela é uma personagem muito forte por ser tão real.

    Sua ligação com o brejo, com os detalhes dele, as mínimas diferenças que fazem do mundo natural um lar para Kya, crescem junto com ela. Mesmo instruída e mais entendida da vida, já adulta, ela ainda se entrega ao brejo para ficar bem, para seguir em frente, para ter forças para tudo que vem enfrentando. O mundo não oferece nada a ela além de julgamento e maldade. É entre os lagostins e as árvores altas e o mar que Kya tem tranquilidade.

    Resenha: Um lugar bem longe daqui

    Do meio para o fim o livro se torna impossível de largar. Tem um determinado acontecimento que move a narrativa no presente que é DESESPERADOR de tão tenso e bem resolvido, usando o tempo certo para explicar porque está ali e como vai se encerrar. E tanto seu desenvolvimento quanto resolução são de cair o c* da bunda.

    Com esse livro, a autora mostra a vida e todos os percalços de uma garota esquecida pelo mundo, vivendo e sobrevivendo em sua solidão. É uma história intensa, melancólica e impactante que merece estar nas estantes de todo mundo.

    Título original: Where the crawdads sing
    Autora: Delia Owens
    Editora: Intrínseca
    Tradução: Fernanda Abreu
    Gênero: Drama
    Nota: 5

    1. Olá, como vão as coisas nesse fim de ano?

      Achei a edição dessa obra muito linda. Eu jurava que se tratava de um livro de romance clichê, mas, depois de ler sua resenha, percebi que é uma obra forte e impactante. Fiquei muito curioso para saber mais sobre ela em sua integralidade. Acho que adicionarei em minha lista de leituras futuras. Obrigado pela dica.

      Abraços e bom fim de ano!
      Jurista Geek

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    2. Gostei bastante do artigo, muito bom mesmo! Estou amando ler seus artigos e compartilhar com os amigos!


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    3. Só sei que eu no lugar da Kya eu sentava e chorava eternamente!!!!
      Beijos
      Balaio de Babados

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    4. Oi!

      Adoro livros que acompanham o crescimento dos personagens. Acho isso tão difícil de fazer de forma certa (sem ficar corrido ou estranho). Vou ver se coloco esse livro na minha lista ;)

      Até!
      https://nsmoraes.com.br/

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    5. Oi Denise, tudo bem? Nossa, a Intrínseca lançou tanta coisa boa ano passado que infelizmente não dei conta rsrsrsrs mas só li resenhas positivas desse livro, quero muito conferir!

      Bjs, Mi

      O que tem na nossa estante

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