Resenha: Nunca assobie à noite - Queria Estar Lendo

Resenha: Nunca assobie à noite

Publicado em 29 de jul. de 2026

Resenha: Nunca assobie à noite

Recebido em cortesia da editora Darkside, Nunca assobie à noite é uma coletânea que reúne vinte e seis histórias de terror de autores indígenas. Através do sobrenatural e do terror mundano, esses autores exploram os confins de diferentes medos, introduzindo seus costumes e culturas para narrar histórias de arrepiar a espinha.

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Com introdução de Stephen Graham Jones (que se tornou um favorito depois que li Temporada de Caça), onde ele fala sobre a inspiração para criar essa coletânea e o que se esperar dos contos nelas, a obra se inicia com sequências de histórias criativas, ricas em tradição, medo e tensão.

"Aliás, não ouse olhar para trás."

Os autores usam histórias de suas ancestralidades para explorar questões como racismo, misoginia, violência sexual e outros horrores que podem cruzar o caminho de personagens subjugados a um mundo que os maltrata desde que invasores chegaram ao continente. O terror também aparece em forma de monstros nascidos de tramas antigas, terrores sobrenaturais que se conectam a momentos aterrorizantes vividos por personagens vivenciando emoções difíceis de lidar (luto, raiva, medo).

Antes de falar das histórias, no entanto, preciso tirar um espaço dessa resenha para comentar um ponto que eu já havia levantado na resenha de Temporada de Caça: não houve tradutores indígenas envolvidos nesse livro, nem leitores sensíveis, o que se percebe logo de cara quando palavras como "índio" e "tribo".

Tradução e leitura sensível são complementares quando falamos de textos que vêm de vivências tão oprimidas histórica e mercadologicamente. Fiquei bem decepcionada por não ter visto esse cuidado com a edição, considerando o quanto essas histórias são importantes.

Resenha: Nunca assobie à noite

Achei positivo terem chamado uma pessoa indígena para escrever o prefácio e apresentação à edição brasileira, mas fica a crítica, esperando ver profissionais indígenas mais envolvidos em publicações futuras.

Dito isso, eu vou recomendar a leitura tanto de Temporada de Caça quanto de Nunca assobie à noite justamente pela força de histórias como essas no nosso cenário editorial brasileiro. É muito legal fugir do montante repetitivo da ficção que o mainstream tanto alardeia.

"A gente ainda em que ser o caçador se puder evitar de ser a caça."

Esse livro é de uma riqueza de sensações e de informações que ao mesmo tempo em que a escolha editorial para colocar pessoas não indígenas na tradução me deixou com aquela sensação amarga, o conteúdo do livro me deixou eufórica pela grandiosidade das histórias contadas.

Resenha: Nunca assobie à noite

Os contos mesclam vários tipos de medo. Daquele que evoca o desconhecido, o terror que envolve monstros que vêm da cultura, de mitos e histórias de cada povo, passando pelo terror do conhecido, do rotineiro, o medo que está nas ruas junto com você. Cada autor usa seu espaço nessa coletânea para construir atmosfera e tramas que ficam com a gente mesmo quando fechamos o livro.

Vou citar meus cinco contos favoritos aqui só para alardear um pouco mais sobre cada um deles, mas pontuo que cada uma das histórias tem seu peso e fisga pela criatividade e pelo tipo de tensão que traz a quem está lendo. Não teve nenhum conto aqui que tenha me decepcionado ou entediado; todos eles me faziam querer continuar virando as páginas.

"Porque se você ficar encurralado, vai ficar desesperado. E homens desesperados fazem coisas das quais podem se arrepender."

White Hills, de Rebecca Roanhorse, trouxe uma vibe Corra!, construindo desconforto com uma trama envolvendo personagens eugenistas. Sem Asas, de Marcie R. Rendon, explora um pouco de como a crueldade molda as pessoas, principalmente crianças. Antes da minha saída, de Norris Black, fala sobre um luto tão profundo que incita até mesmo a abraçar monstruosidades.

Resenha: Nunca assobie à noite


Por trás dos olhos de Colin, de Shane Hawk, mostra um pai e um filho em uma temporada de caça tendo que encarar o horror que se esconde entre as árvores. E A história mais assustadora de todas, de Richard Van Camp, que usa o título chamativo para surpreender pelo conteúdo da história mais assustadora de todas.

Esses contos me pegaram de jeito pela inventividade em trazer elementos de terror inesperados em cenários de reviravoltas ainda mais inesperadas. Mas, como eu disse, a totalidade de Nunca assobie à noite é de um grande favorito. Eu só abaixei a nota aqui na resenha por causa da questão com a tradução.

Sinopse: UMA COLETÂNEA FANTÁSTICA, OUSADA E SOMBRIA QUE APRESENTA AS VARIADAS FACETAS DO HORROR INDÍGENA NORTE-AMERICANO Muitos povos indígenas acreditam que nunca se deve assobiar à noite. Essa crença assume diversas formas: por exemplo, os nativos havaianos acreditam que isso invoca os Hukai’po, os espíritos de guerreiros antigos, e os nativos mexicanos dizem que isso atrai a Lechuza, uma bruxa capaz de se transformar em coruja. Mas o que todas essas lendas têm em comum é a certeza de que assobiar à noite pode fazer com que espíritos malignos apareçam — e até mesmo sigam você até sua casa. As histórias totalmente originais e arrepiantes desta antologia apresentam aos leitores fantasmas, maldições, criaturas monstruosas, complexos legados familiares, atos desesperados e vinganças de gelar o sangue. São 26 contos de autoras e autores norte-americanos de origem indígena, a maioria jamais publicados no Brasil e outros já conhecidos dos leitores brasileiros.

Título original: Never whistle in the night
Tradução: Fernanda Lizardo, Maritsa Kantikas, Ana S. Cunha Vestergaard, Petê Rissatti, Felipe Ficher
Editora: Darkside
Gênero: Contos | Terror
Nota: 4,5

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