A Espada de Kaigen é o mais recente título da M.L. Wang publicado aqui no Brasil. Quem trouxe pra cá foi a Editora Aleph, que cedeu este exemplar em cortesia. A história acompanha mãe e filho vivendo às sombras de um império militarizado, isolados do resto do mundo num território considerado o coração onde os maiores guerreiros são criados.
Se gostou dessa história, vai curtir:
Misaki costumava ser uma grande guerreira, mas seus dias de luta e rebeldia ficaram para trás quando se casou com Takeru, um dos herdeiros da casa Matsuda. Agora, ela é a mãe de quatro garotos, vivendo sua pacata vida no território de Kaigen.
O lugar é considerado o coração do império. Ali são criados os maiores guerreiros, e a família Matsuda tem fama extra por ser capaz de controlar a Lâmina Sibilante, uma habilidade que cria espadas inquebráveis através da dobra de gelo.
Do outro lado da história temos Mamoru, filho mais velho de Misaki. A expectativa sobre ele é grandiosa, sendo o primogênito da família, mas ele ainda não conseguiu controlar a Lâmina Sibilante, o que coloca pressão extra sobre o garoto. Ele está sendo criado para ser uma das espadas de Kaigen. Tem um pai exigente a honrar.
Quando informações de fora do território começam a chegar, e a ameaça de uma guerra se aproxima, Mamoru passa a questionar a soberania do império, enquanto Misaki luta consigo mesma sobre a verdade que quer entregar ao filho e a expectativa de ser uma dona de casa quieta e complacente.
A Espada de Kaigen foi tudo isso mesmo que falam, e mais. Eu já sabia que amaria essa leitura, mas não imaginava o quanto ela iria me destruir emocionalmente.
M.L. Wang já fez isso comigo quando escreveu Sangue sobre Bright Haven, e repetiu a dose mais uma vez. A autora volta a discutir questões sobre controle de informações, prosperidade às custas de mentiras e corrupção de poder e o papel da mulher na sociedade, e aqui faz num cenário que lembra muito a animação de Avatar - A Lenda de Aang (mas muito mais próximo de A Lenda de Korra, porque a política e questões sociais são ainda mais intensas na trama).
A dualidade da personagem Misaki foi uma das coisas mais poderosas da história. Enquanto mãe e dona de casa, a complacência obrigatória a colocava em posições que odiava, e sabíamos disso acompanhando seus pontos de vista. Porque, em seu coração, Misaki sempre foi e sempre seria uma grande guerreira. Uma garota e mulher rebelde.
O jeito com que a história entrelaça essa rebeldia silenciada da Misaki com a rebeldia iniciada em seu filho é muito instigante. Você teme pelo que pode acontecer, mas quer muito conhecer um Mamoru capaz de questionar.
A Espada de Kaigen trabalha muito a ideia de isolamento, colocando os habitantes daquele lugar à disposição de um imperador que sequer desvia o olhar em sua direção. Eles são a espada, o coração do império, o baluarte entre o resto do país e qualquer invasão que tente passar por seu território; e, ainda assim, dá para ter certeza de que tem algo de muito errado com o império.
O espectro político do livro é muito forte e bem desenvolvido pela autora. Tanto nas questões de dominação e doutrinação, com o povo de Kaigen sendo forçado a servir o império sem questionar (e muitos deles dispostos a dar a própria vida pelo império, para cumprir o seu dever) quanto em personagens que ousam questionar; a Misaki é uma delas.
Os pontos de vista do Mamoru partiram meu coração e me deram sopros de esperança justamente por ele também ter esse princípio de rebeldia. Enquanto a mãe não tinha permissão de questionar, mas faz isso de maneira discreta, ele se vê cada vez mais obrigado a fazer isso. E se torna tão parecido com ela por causa disso!
O sistema de magia do livro também é muito interessante. Como eu mencionei, lembra muito Avatar, com as divisões entre controle de elementos relegadas a cada canto do mundo. Os inimigos de Kaigen controlam o ar, aliados temporários controlam o fogo; e Kaigen é a terra dos controladores de água e gelo, a depender do poder manipulado.
O pai do Mamoru, por exemplo, é um dos guerreiros mais mortíferos de Kaigen, mas a frieza e apatia dele equivalem a um iceberg. Misaki, por outro lado, se molda como a água. Quando precisa, é complacente; mas, quando a situação exige mais dela, ela se torna uma lâmina. Que mulher incrível! Que desenvolvimento de personagem. Rebelde, guerreira, mãe. Tudo junto.
Esse livro é perfeito para encarar a esfera política que se estende pelo mundo atualmente. Uma grande concentração de poder e recurso nas mãos de um império que não olha para aqueles que devia proteger. É o povo pelo povo. Quem realmente protege e luta é quem está nas trincheiras, não quem comanda. O poder é do povo. E é muito impactante como, aos poucos, essa concepção vai se espalhando entre os moradores de Kaigen.
A edição da Aleph ficou maravilhosa, como sempre. A tradução da Beatriz D'Oliveira está excelente, com um ótimo trabalho de texto, cuidado com os termos originais (que contam com glossário no fim do livro, para se situar caso queira). Eu também amo a capa brasileira!
Falar mais sobre A Espada de Kaigen tira um pouco do impacto do que é essa história. Tudo que eu posso garantir a vocês é muita emoção. De todos os tipos mesmo. Vai te fazer chorar, vai te emocionar, vai te devastar e trazer esperança; é um livro completo em todos os sentidos. Cenas de ação de encher os olhos, magia criativa, política e desenvolvimento de personagens no ponto.
Sinopse: Uma obra-prima da fantasia épica militar e drama familiar. No topo de uma montanha isolada, na beira de uma península congelada, vivem os guerreiros mais poderosos do mundo. Capazes de erguer o mar e empunhar lâminas de gelo através, eles são conhecidos como a “Espada de Kaigen”: a lendária e implacável linha de frente que protege o Império de qualquer invasão estrangeira. Entre eles está Matsuda Mamoru, um jovem prodígio de 14 anos que passou a vida inteira treinando para dominar a técnica da Lâmina Sibilante e honrar o peso das expectativas ancestrais de sua família. Ali também vive sua mãe, Misaki, que luta diariamente para enterrar um passado de liberdade e seus dias como uma temida lutadora em um país distante para se submeter à vida tradicional de esposa e dona de casa. A suposta era de paz do Império começa a desmoronar quando um forasteiro chega com revelações perturbadoras. Quando Mamoru passa a questionar as verdades que moldaram sua existência, o horizonte se torna vermelho sangue. O sussurro da guerra se transforma em um rugido avassalador e uma invasão iminente ameaça destruir tudo o que eles conhecem. Diante do caos, os Matsuda precisarão decidir pelo que realmente vale a pena lutar. Quando o aço corta o gelo e o passado se recusa a permanecer morto, eles descobrirão que a verdadeira força não reside na lâmina, mas no coração — e que a honra tem um preço que poucos estão dispostos a pagar.
Título original: A Espada de Kaigen
Autoria: M.L. Wang
Editora: Aleph
Tradução: Beatriz D'Oliveira
Gênero: Fantasia
Nota: 5
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