Resenha: Viúva de Ferro - Xiran Jay Zhao - Queria Estar Lendo

Resenha: Viúva de Ferro - Xiran Jay Zhao

Publicado em 1 de mar. de 2022

Resenha: Viúva de Ferro - Xiran Jay Zhao

Viúva de Ferro é um grande hit internacional que chegou aqui no Brasil pela Editora Intrínseca. A ficção científica de Xiran Jay Zhao tinha tudo para me conquistar, mas só me decepcionou.

Inclusive, antes de começar, fica aqui uma pequena crítica à edição. Porque tanto na dedicatória quanto nos agradecimentos foi usado o pronome feminino, e Xiran é uma pessoa não-binária. Os pronomes delu em inglês são they/them. O neutro da língua inglesa. Mas a Intrínseca já se pronunciou sobre esse erro e vai garantir que nas próximas impressões ele seja corrigido.

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Em Huaxia, garotas são selecionadas para servirem como pilotos-concubinas de grandes homens eleitos para o papel de salvador da pátria. Há monstros gigantes atacando seu mundo. E suas crisálidas, robôs gigantes, são a única defesa contra eles. É para isso que os homens treinam. E é para isso que as mulheres são sacrificadas.

Wu Zetian viu sua irmã mais velha ser levada e morta. E viu o mundo pouco se importar com essa tragédia. E ela quer vingança contra o piloto que fez isso.

Eu tinha altas expectativas com essa história porque tem duas das minhas coisas favoritas: robôs gigantes e monstros gigantes. Ela é vendida como um O Círculo de Ferro encontra O Conto da Aia. E sim, eu sei que essas chamadas costumam enganar. Mas a parte dos robôs gigantes vs monstros gigantes realmente bate com O Círculo de Fogo, e aí residia minha esperança.

Quebrei a cara.

Viúva de Ferro tinha muito potencial, mas foi uma bagunça. Eu só consigo definir assim. Não parece ter uma estrutura bem definida, tanto em narrativa quanto construção de mundo. Nem mesmo seus personagens.

Resenha: Viúva de Ferro - Xiran Jay Zhao

Eu gosto de explicações que me façam entender o que está acontecendo na história. Especialmente quando lidamos com ficção científica. Esse é um mundo novo, com mechas gigantescos sendo pilotados por humanos. Monstros terríveis atacando cidades, sistemas políticos diferentes e tudo mais. Eu recebi essas explicações? Não.

O mundo de Viúva de Ferro é muito confuso. Eu não conseguia me situar politicamente, não conseguia entender as motivações da sociedade. O máximo do máximo que deu pra pescar porque era o mais comentado tinha a ver com o patriarcado terrível. e o quanto as mulheres eram subjugadas a papéis domésticos ou sacrificadas nos embates entre robôs e monstros. Mas só isso.

De resto, cenas de ação pareciam vazias porque eu não conseguia entender o que estava acontecendo nelas. Diálogos artificiais demais, discussões infantis e de tom birrento entre personagens que deveriam ter mais controle. Decisões abruptas de personagens a torto e a direito seguidas por arrependimentos que não condiziam com a certeza deles segundos atrás.

Num geral, uma bagunça.

Eu realmente não consegui me situar, me sentir em casa e torcer pelo que estava acontecendo ali. Até agora, não sei se entendi como o sistema dos robôs gigantes funcionava, desde as transformações até os pilotos. E o fato de eu me questionar isso mostra como a narrativa não foi satisfatoriamente clara nesse sentido para mim.

Eu aceito palestrinha em histórias de ficção científica se elas forem me fazer entender todo o contexto geral. Não tem problema colocar um personagem explicando para um novato como tudo funciona, porque o novato não deveria saber mesmo! Mas a nossa protagonista, mesmo tendo sido criada numa vila remota, sem acesso à tecnologia (porque mulheres não podem ficar lidando com isso), de repente sabe de tudo.

Aproveitando a deixa para falar sobre personagens. Wu Zetian não me ganhou como deveria. Em partes pela personalidade confusa, em partes porque quando dizia uma coisa, fazia outra. Quando pensava de um jeito, imediatamente mudava de ideia pra mudar dessa ideia pra outra mais pra frente. Eu esperava uma anti-heroína, uma antagonista, mas só ganhei isso lá nas páginas finais e de um jeito pra lá de abrupto e sem emoção.

E como eu estava sedenta por uma antagonista bem escrita. Desde a Adelina, em Jovens de Elite, que não tenho isso. Mas aqui foi só decepção.

Nem mesmo sua primeira motivação é emotiva o suficiente. Ela quer vingança pela irmã, ok. Mas não temos tempo para conhecer a irmã. Nem ao menos sabemos quem ou como era essa irmã. Não tem um vínculo entre leitor e personagem, nem mesmo entre leitor e lembrança de personagem, pra gente sentir essa ânsia de justiça, sabe?

Resenha: Viúva de Ferro - Xiran Jay Zhao

Seus pares na história, porque aqui estamos lidando com um trisal (minha maior esperança pro livro!) foram vazios pra mim. Li Shimin me ganhou nas primeiras aparições, mas acabou se tornando o estereótipo do coitado. Ele podia ter sido tão mais, mas, de novo, as cenas em que sua personalidade desabrochava eram muito corridas. O livro não me dava tempo de sentir o que ele estava sentindo. Porque era tudo apressado, tudo jogado na minha cara.

E o outro moço, Yizhi, é o calmo e contido que poderia ter sido o perfeito friends to lovers se o livro desenvolvesse a parte emocional direito. E tem uma atitude dele lá pro final do livro que simplesmente não faz o menor sentido com tudo que a história tinha estabelecido da postura do personagem até então. A coisa mais "ué?" de toda a trama.

Viúva de Ferro teve o problema do "show, don't tell" porque muito me contava e pouco me mostrava. Não deu pra ver o romance nascendo entre o trisal. Ele estalou e estava ali. Não deu pra ver a fúria nascendo na personagem de maneira gradual, de repente ela odiava todo o sistema sem nem ter tido contato com a totalidade dele.

É a diferença de uma Katniss pra uma insta-revolucionária, sabe? Dê tempo pra ela querer queimar tudo. E, quando ela quiser, não fique fazendo ela mudar de ideia a cada cinco páginas.

E, desculpa, mas história feminista? Com a protagonista que odeia absolutamente todas as mulheres ao seu redor? Da chamada para esse livro, essa é a mais mentirosa. Sim, é um mundo misógino e terrível; sim, é um mundo que maltrata e sacrifica suas mulheres a torto e a direito; sim, é uma protagonista motivada por vingança. Mas acaba aí.

Em nenhum momento Zetian está fazendo o que faz pelas mulheres. Ela destila misoginia. E se fosse algo a ser trabalhado, tudo bem, ótimo! A sociedade impôs isso sobre ela. Mas não. Até o fim, nada do que a protagonista faz é feminista.

Tem só outras duas personagens femininas, além da mãe e da avó da protagonista, e uma delas é tratada como uma lixo quando as motivações dela são... compreensíveis. Porque ela, assim como a Zetian, foi criada sob essa doutrina. E ela, diferente da Zetian, nunca conseguiu questionar porque nunca soube que podia questionar.

Ela tem "ideais feministas" que foram tirados do absolutamente nada. Porque não tem como ela ter se questionado sobre isso quando nunca foi apresentada a isso. Até aí ok, eu poderia ter dado o braço a torcer pra esse detalhe. Mas Zetian não faz as coisas nem mesmo por ela, quando paro para analisar friamente. Suas maiores ações foram motivadas por e para homens.

Por fim, eu puxo esses últimos parágrafos para dizer que não odiei tudo e absolutamente cada página do livro. Ele foi ruim pra mim por causa dos motivos acima. Mas ainda é uma história criativa, carregada em pesquisa cultural e que traduz muito bem os costumes e essa releitura da cultura chinesa nesse novo mundo.

Xiran Jay Zhao fez um trabalho extraordinário quando falamos sobre vestimentas, a aparência dos robôs gigantes, inspiradas em figuras míticas e o jeito como a sociedade é regida. Para mim, só faltou... O mais importante, que é polir melhor as coisas que tornam uma ficção científica tão importante.

Eu queria muito ter me apaixonado por Viúva de Ferro, mas não rolou. Senti falta de uma narrativa mais descritiva, mais organizada, e de um universo que fizesse sentido. Aquele plot twist lá na última página simplesmente não vou nem reagir. Mas acho a leitura válida pra todo mundo porque o que não funcionou pra mim pode funcionar pra você.

Sinopse: Em Huaxia, a maior honra concedida a uma garota é sua escolha para a função de piloto-concubina, servas conectadas a pilotos homens para juntos fornecerem energia vital às crisálidas — máquinas de guerra gigantes que protegem a humanidade dos alienígenas além da Grande Muralha. Essa conexão mental tão intensa e poderosa entre piloto e concubina com frequência leva as jovens à morte, garantindo à família delas uma recompensa financeira do Estado. Aos dezoito anos, Wu Zetian se alista como concubina com apenas um objetivo em mente: vingança. Seu plano é matar o piloto que tirou a vida de sua irmã, mas a situação toma um rumo brutal e inesperado, e Zetian recebe um título muito temido: Viúva de Ferro, uma mulher que, ao contrário do esperado, suga a energia dos homens nas crisálidas e os leva à morte. Numa tentativa de minar suas habilidades mentais extremamente poderosas, o exército a pareia com Li Shimin, o piloto mais forte e controverso de Huaxia, um guerreiro que nunca erra seu alvo. Mas agora que Zetian sabe do que é capaz, não vai recuar tão facilmente, usando todas as suas armas para sobreviver e destruir de uma vez por todas um sistema que despreza a vida de meninas e mulheres.

Título original: Iron Widow
Autore: Xiran Jay Zhao
Editora: Intrínseca
Tradução: Caroline Chang
Gênero: Ficção científica | YA +14
Nota: 2


7 comentários:

  1. Oi Deniseeeeee! Será que vai se lembrar de mim? hahaha Depois de mais de um ano sumida desse mundo literário, volteeei!

    Se tem algo que amo em suas resenhas (e no QEL de modo geral) é a sinceridade! Achei a capa do livro lindíssima e ainda não tinha ouvido falar dele. A história realmente parecia ter um premissa bacana, mas é ruim quando o autor acaba pecando na hora de construir tudo :(

     Os Delírios Literários de Lex

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  2. Oi De, tudo bem? Nossa que baita decepção, hein? Estou vendo muita gente lendo esse livro e e capa é maravilhosa, mas ficção uma bagunça não dá. E de fato a premissa é boa, que pena

    Bjs, Mi

    Na Nossa Estante

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  3. Que pena que tu não curtiu, mulher :( eu vou ler esse mês e já vou com tuas considerações em mente
    Beijos
    Balaio de Babados

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  4. Eu tive a mesma sensação que você. Pra mim o livro seria um prato cheio, estava até mesmo me sentindo culpada por não estar gostando, mas depois vi que não era só eu. Que livro caótico foi esse?

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    1. Sim! O potencial estava forte ali na premissa, mas na hora de desenvolver... Não teve uma pessoa pra pegar na mão delu e falar 'olha, tá faltando umas explicações aqui', sabe? Frustrante demais.

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  5. Essa resenha é ótima porque me poupa de gastar dinheiro com esse livro heuheuheuhe
    E que heresia dizer que esse livro é o novo "O conto da Aia", no geral eu não gosto nadinha dessas comparações que fazem, me afasta da leitura.
    Ass: Natália do @lendocomnatalia

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  6. Me identifiquei com algumas coisas que você não curtiu, apesar disso não adquiri esse ranço todo como você. Achei ok, é uma leitura rápida.

    Também me incomodou DEMAIS o lance do “ideias feministas” como você apontou, tiradas do NADA. Me incomodou num nível que aquilo não saia da minha cabeça durante todo o livro, latejando incessantemente aguardando por uma explicação que não veio.

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