Resenha: Vale da Estranheza - Fernanda Carvalho - Queria Estar Lendo

Resenha: Vale da Estranheza - Fernanda Carvalho

Publicado em 28 de jan. de 2026

Resenha: Vale da Estranheza - Fernanda Carvalho

Vale da Estranheza é uma ficção científica que explora os confins do que significa ser humano em meio a uma crise diplomática catastrófica. Cedido em cortesia pela autora Fernanda Carvalho, aborda o assassinato de uma autoridade japonesa em solo americano, intrincando esse mistério a desenrolares surpreendentes.

A detetive Ellen é alocada para investigar o assassinato de uma autoridade japonesa em solo americano. Junto ao seu companheiro de investigações, o androide Alex, ela acaba se envolvendo em uma trama que vai além do simples por que e como. Questões diplomáticas parecem estar por um fio, mas o verdadeiro problema se desdobra a partir disso, seguindo rumos inesperados.

A leitura de Vale da Estranheza me remeteu a muitas coisas. Da minha parte, ainda que não seja o que livro realmente aborda (porque não tem a questão do punk, por exemplo, e nem da atmosfera), me lembrou muito de Blade Runner (por causa do probleminha com as corporações) com Eu, Robô (o filme mesmo. Por mais pavoroso como adaptação que seja, as interações entre a Ellen e o Alex, humana e androide me levaram justamente à relação do filme).

Além dele, também queria apontar que um sentimento que me veio foi em relação ao jogo Detroit: Become Human. A história segue jornada pelas psiquê das suas personagens e explora de maneira curiosa questões com os androides; liberdade, existência, vida. Tem espaço para isso quando se trata deles? Como a gente lida com a inteligência artificial que, aqui, está num patamar que, para nós, ainda não alcançamos (mas quem sabe se não vamos)?

O tom sombrio e misterioso dessas obras referenciadas é o que mais me atraiu a elas, e foi o que Vale da Estranheza me passou. O que começa como um assassinato, um dia comum para uma investigadora, se decodifica aos poucos em um cenário muito mais caótico e perturbador, com consequências que colocam principalmente as relações entre personagens e sociedade em cheque.

Resenha: Vale da Estranheza - Fernanda Carvalho

O meu único grande problema com a história e, portanto, um problema que persistiu pelo livro todo, foi o tamanho dele. Apesar de interessante, alguns momentos do livro me apresentaram um marasmo que acabavam desviando a minha atenção da trama principal. Não senti que as mais de 800 páginas fossem absolutamente necessárias; para o meu olhar de leitora, metade disso teria sido suficiente, sem perder a essência e os grandes momentos de personagens principais e secundários.

Uma preparação de texto mais pontual poderia ter apontado cortes e cenas que, ainda que interessantes, não serviram tanto à narrativa quanto deveriam, mais enchendo a história do que de fato funcionando nela.

A relação entre a Ellen e Alex, o companheiro androide, foi minha parte favorita de Vale da Estranheza. Eu gosto demais quando a ficção científica brinca com personalidades humanas x de inteligência artificial (realmente inteligente). Traz bons conflitos, mesmo em personagens que já se conhecem de longa data, como é o caso deles, e ainda acrescenta questões a se pensar.

A autora faz muito bem em usar capítulos com foco na Ellen e capítulos com foco no Alex, mantendo o mistério de um ao outro em relação ao que estão vivenciando naqueles momentos. Ao invés de se prender ao narrador onisciente, ela escolhe nos colocar para acompanhar o ponto de vista específico de cada um deles em pontos específicos da história, contribuindo para o vaivém de análises: quando estamos com a Ellen, temos piadocas fora de hora (típica de humanos lidando com estresse), inteligência emocional e uma boa relação com o seu parceiro cara de lata. Quando estamos com Alex, o texto é mais sucinto, analítico, focado.

Não que isso signifique que eles permanecem no mesmo tom até o fim, mas significa que o que nos é apresentado é aquela diferença gritante na relação entre humano e máquina. Aos poucos, no entanto, as personalidades até então marcadas dos protagonistas passam a crescer junto com a trama. Mudam, se adaptam. Questionam. Principalmente com os perrengues que os dois confrontam.

Também tem espaço para outros personagens ganharem destaque com seus próprios pontos de vista em capítulos, alguns mais do que outros a depender do seu peso narrativo. Lilly, especialista em dados, de uma personalidade simpática e exaltada, divide com a Ellen uma relação meio Leon Kennedy e Hannigan em Resident Evil.

Jake não me chamou tanto a atenção quanto poderia. A subtrama que nasce com personagens como Nowak e Ezra trouxe tons interessantes à trama principal, especialmente se combinada com a presença enigmática dos dois. Denny é um nome que eu deixo aqui porque tudo a respeito dele merece ser uma surpresa (uma grata surpresa) como foi para mim!

Enquanto alguns tiveram bons momentos no desenvolvimento do livro todo (como foi o caso da Lilly e da participação cada vez mais ativa dela e do Denny que, por si só, rouba a cena sem que você perceba, especialmente do meio para o fim), outros acabaram não se destacando.


Talvez eu tivesse participado mais ativamente de tudo, sofrido mais, ficado mais tensa, se o livro fosse menor. Sinto que a extensão da obra fez perder um pouco do nervosismo que ela podia produzir. Isso acabou se estendendo até os coadjuvantes e mesmo ao plot principal.

A trama em si, como eu comentei, ganha novos ares a partir da investigação, reviravoltas que levam a novos caminhos e respostas que se desdobram em novos enigmas. Tudo que envolve as inteligências artificiais é muito interessante, ainda mais pelo caminho que algumas percorrem nessas páginas.  A autora usa muito bem tanto a questão do suspense quanto a da ficção científica.

Sinto que falar mais da trama como um todo pode estragar a experiência de quem vai ler. A graça de Vale da Estranheza está justamente em como a trama vai dessa simples investigação até questionamentos sobre existência e o perigo do poder de mega corporações num futuro que espelha muito da nossa relação atual com a tecnologia, cuidando sempre de apontar as maravilhas que avanços tecnológicos podem trazer, assim como os terrores.

Para quem busca uma história de ficção científica que mescla muito bem elementos de um suspense investigativo com debates sobre existência e relações humanas (mesmo aquelas que têm androides no meio), Vale da Estranheza é uma leitura mais que recomendada.

Como eu mencionei, apesar de o tamanho do livro ter sido um problema para mim, em momento algum me fez desistir de continuar entendendo esse mundo, personagens e desdobramentos que uma investigação poderia levar.

É uma recomendação para quem busca por uma leitura que fisga pelo simples e mantém você vidrado até o fim pelas relações entre personagens e pelos mistérios.

Sinopse: Quando a fatídica morte de uma autoridade japonesa em solo americano chama a atenção da polícia, a detetive Ellen Hayes é escalada para lidar com o caso. Acompanhada do seu sempre presente parceiro, o androide Alex, ela percebe que a investigação esconde um mistério que vai muito além de problemas corriqueiros de uma diplomacia há anos fragilizada entre os dois países: não só o destino da humanidade estava em jogo, mas também o que verdadeiramente significava ser humano.

Título original: Vale da Estranheza
Autoria: Fernanda Carvalho
Editora: Independente
Gênero: Ficção científica
Nota: 4

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