O cálice contaminado é o mais recente título do autor Robert Jackson Bennett aqui no Brasil. Ele já tinha me conquistado com Foundryside, e aqui mostrou mais uma vez maestria em contar uma história carismática e criativa sobre um detetive investigando um assassinato num mundo que vive à sombra de leviatãs e se reinventou através de enxertos e ciência.
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Din é assistente de uma detetive e foi alocado para investigar o local de um crime. Ele tem modificações em seu corpo que o tornam um gravador, capaz de se lembrar de tudo que vir, ouvir e tocar enquanto estiver sob efeito as substâncias químicas certas.
E é numa mansão isolada dentro de uma cidade distante da muralha que protege o mundo dos titãs que ele encontra um homem morto porque uma árvore cresceu dentro do corpo.
A estranha circunstância da morte se torna ainda mais peculiar quando Din e sua detetive responsável, Ana, são alocados para uma cidade à sombra de uma das muralhas. Esse assassinato está conectado a outros tantos parecidos, o que acabou se tornando um cenário de conspiração. Um que parece colocar a segurança do Império em perigo.
Cabe a Din e Ana a difícil tarefa de entender os crimes, como eles se relacionam e, principalmente, se estão sob a sombra do perigo de que continuem se repetindo até que a estação das chuvas traga outro titã para as muralhas.
O cálice contaminado conseguiu a grandiosa tarefa de unir Attack on Titan com Agatha Christie, e entregou um dos melhores mistérios de assassinato que li em muito tempo. Tudo isso num cenário fantástico arrebatador de tão criativo.
A narrativa em primeira pessoa do Din é bem humorada desde o começo, mesclando o cuidado e ingenuidade dele com as malandragens da detetive responsável pelo caso. Ana e Din têm uma das melhores dinâmicas que já tive a alegria de ler. Não apenas pela diferença da idade (sendo ela bem velha e ele muito jovem), mas também pela questão das experiências de vida, pela frieza em encarar absurdos, no coração grandioso para exaltar empatia.
Eu me apaixonei pelo jeitinho apático do Din, principalmente porque todas as emoções estavam dentro da cabeça dele. Ele só não sabia demonstrar. No caso da Ana, é escrachado. Ela não liga para nada nem ninguém, só quer ver esse caso bem resolvido. E a bichinha é inteligente, viu? Gostei das sessões de lógica da personagem, quando ela explicava como estava chegando às conclusões. Sempre um passo à frente do leitor, bem Poirot da parte dela.
- Mas que absurdo! Que porra mais você sabe fazer?
- Parece que estou desenvolvendo um talento para tolerar abusos verbais e perguntas malucas, senhora.
O cenário de O cálice contaminado é de encher os olhos. Não apenas pela criatividade na construção desse mundo regido por um Império de punho de ferro, que controla tudo para que nada saia dos eixos (o que colocaria o mundo em perigo com os titãs), mas também pela questão da mescla entre biologia, ciência e um toque de alquimia.
A natureza passou a ser usada para fortalecer e modificar pessoas, construções, o mundo. Ela se molda a ele através de enxertos e invenções, é parte das paredes das casas, dos olhos e memória das pessoas. E também é responsável por atrocidades, porque quando a humanidade vai longe demais em invencionices, acaba descobrindo coisas com as quais não consegue lidar.
- É a natureza do Império de Khanum, não é? Segurança e proteção em troca de estranheza.
O autor comenta nos agradecimentos como queria que esse livro fosse uma espécie de ode a funcionários públicos e construtores, e sinto que funcionou. A história é regida por pessoas comuns fazendo seus deveres muito bem e colocando a máquina do Império para funcionar. Não é o punho de ferro que faz tudo acontecer, mas a colaboração do coletivo.
Gostei de como ele inseriu o romance queer ali no protagonismo de maneira natural, tratando como parte da história com naturalidade, porque é assim que tem que ser. Não é o foco, mas acontece com o passar das páginas e proximidade dos personagens, o que é lindo de acompanhar!
A questão com os titãs me deixou encafifada por mais. A ameaça deles é a mera possibilidade da sua presença. Quando de fato um deles aparece, é de arrepiar. A imponência e o quanto eles são inevitáveis dá um tom extra de tensão à história. Não é apenas um murder mystery, mas uma espécie de distopia de sobreviventes.
A carcaça do leviatã não estava enterrada na colina. A carcaça do leviatã era a colina.
A edição da Aleph tá linda demais. Eu sou fã da capa brasileira, acho que trouxe personalidade ao livro e conta muito bem a história que se encontra logo na abertura dele. A tradução de Flavia de Lavor também ficou ótima, com uma adaptação excelente e timing cômico maravilhoso.
O cálice contaminado é para quem ama fantasia, para quem ama mistério, e para quem ama um pouco dos dois. Para quem se preocupa com séries, saiba que aqui a história se encerra com resolução e um pequeno gancho para uma próxima aventura.
Sinopse: Em uma opulenta mansão de Daretana, um oficial imperial de alto escalão morre de repente após uma planta enorme florescer de seu corpo. Completamente fora do comum, todos os indícios do caso apontam para um assassinato, até então sem pista alguma. Agora, a população local corre um grande risco — mesmo ali, às margens do império, onde existem preocupações maiores por causa dos temíveis leviatãs que invadem as terras de tempos em tempos. Só uma detetive de carreira respeitável poderia resolver o caso. Entram em cena Ana Dolabra, de mente afiada e atitudes excêntricas, capaz de solucionar os crimes mais diversos sem nem mesmo sair de casa, e seu novo assistente Dinios Kol, dono de uma habilidade de memorização muito conveniente para uma investigação. No entanto, ambos guardam os próprios enigmas à medida que desvendam uma rede que põe em xeque o próprio Império, caso a misteriosa planta não seja contida.
Título original: The Tainted Cup
Autor: Robert Jackson Bennett
Tradução: Flavia de Lavor
Editora: Aleph
Gênero: Fantasia | Suspense
Nota: 5+
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