Resenha: Winter


Alguém me traz um sedativo forte, porque só assim vou conseguir falar de Winter. Foi uma dor boa, amigos. Uma dor de despedida, de um final revolucionário poderoso, um adeus às Crônicas Lunares extremamente bem trabalhado, de deixar todos os queixos no chão. Marissa Meyer encerrou a quadrilogia com maestria, e a resenha de hoje existe para exaltar a existência dessa história.
Sinopse: Depois de Cinder, Scarlet e Cress, inspirados, respectivamente, nas histórias de Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel, Marissa Meyer entrega a eles o último capítulo da série, em que reconta a história de Branca de Neve com tintas distópicas. Na trama, a princesa Winter vive subjugada por sua madrasta, Levana, que inveja sua beleza e não aprova os sentimentos da jovem pelo amigo de infância e belo guarda real Jacin. Mas Winter não é tão frágil quanto parece, e, junto com a ciborgue Cinder e seus aliados, a jovem princesa é capaz de ini¬ciar uma revolução e vencer uma guerra que já está em andamento há muito tempo. Será que Cinder, Scarlet, Cress e Winter podem derrotar Levana e encontrar seus finais felizes?
O final de Cress foi cheio de reviravoltas bombásticas; Scarlet foi levada para Luna e feita prisioneira pela rainha Levana, tornando-se escrava da princesa enlouquecida chamada Winter. Cinder sequestrou o imperador Kai e finalmente provou a verdade a ele, o seu direito sobre Luna, e o grupo bolou um plano: para reconquistar o trono, Cinder precisa levar sua revolução até Luna.



Finais tendem a ser bons demais ou ruins demais. Dificilmente um final vai ficar no meio termo. Winter começou, prosseguiu e terminou impecável. Do começo ao fim, temos uma história revolucionária, uma guerra contra a opressão e a busca pelo famoso "felizes para sempre" que, nas Crônicas Lunares, significa libertar Luna e a Terra do reino de horror instaurado pela rainha má.
- Minha madrasta não é poderosa só porque as pessoas têm medo dela, ela é poderosa porque pode fazer com que as pessoas a amem quando precisa. Nós achamos que, se escolhemos fazer só o bem, somos apenas bons. Podemos fazer as pessoas felizes. Podemos oferecer tranquilidade ou alegria ou amor, e achamos que isso deve ser bom. Nós não vemos a falsidade se tornando um tipo particular de crueldade.
O livro tem um ritmo emocionante, do tipo que te prende por cem, duzentas páginas a ponto de você quase queimar as retinas para não descansar a vista. Começando algumas semanas depois do fim de Cress, acompanhamos o desenvolvimento do plano de Cinder e seus amigos para a invasão a Luna, conquista da confiança do povo e, principalmente, para o estopim da sua rebelião. Afinal de contas, apesar de Levana ser temida, ela também é falsamente adorada. Seus poderes de controle e truques de glamour construíram uma relação de admiração doentia sobre a elite lunar, e temor absoluto sobre o resto do povo. Cinder quer usar exatamente isso contra ela, o fato de ela ser uma tirana escondida sob requintes de boa governante.


- O reinado de Levana está chegando ao fim. Eu voltei para recuperar o que é meu.

Scarlet está presa em Luna, ainda viva por causa da proteção da princesa Winter. Winter que, com um começo simples, acabou se tornando uma peça importante no jogo da rebelião. Ela é louca por suprir os poderes lunares que possui, por ter feito uma promessa de nunca manipular ninguém, e recebe proteção de um dos guardas do palácio, o mesmo que já conhecemos em Cress, chamado Jacin. Os dois têm uma forte relação de amizade e amor profundo, ainda que o amor seja secreto e proibido, já que Levana poderia usar contra os dois. Jacin também tem aquela irritante certeza de que não é o suficiente para uma princesa, e Winter é louca demais para pensar em entregar seu coração ao garoto que ama.
- Você precisa deixar essa forma de pensamento para trás. Somos nós contra ela, Winter. De agora em diante, preciso que você pense como alguém que quer sobreviver.
Uma vez que o plano de Cinder começa a se concretizar, os problemas começam a aparecer. Nada é tão simples em uma revolução, e a ciborgue vai descobrir isso das piores maneiras; separações, sacrifícios e a tensão de que podem ser encontrados a qualquer momento desenvolvem boa parte da trama. O imperador Kai tem um papel chave nessa parte porque nele reside a esperança de enrolar a Levana até que Cinder consiga reconquistar seu direito sobre o governo. Eu amo a dinâmica entre a Cinder e o Kai; uma revolucionária e um verdadeiro governante justo. O amor entre eles é tão forte quanto a confiança, e você sente isso mesmo quando ambos estão distantes. Aquela certeza que o Kai tem de que a Cinder vai triunfar, de que o reino de terror da Levana está com os dias contados, isso o leva a tomar atitudes drásticas mesmo em relação à sua segurança. Ele age total e completamente como um imperador, colocando a vida dos seus súditos acima da dele, e a esperança de toda uma humanidade na garota que se provou uma voz de liberdade.

Ela sentia como se estivesse jogando um daqueles jogos de estratégia de Cress. Todos os peões dela se encontravam em posição, e o ataque final estava prestes a começar.

A coisa mais interessante nisso tudo é que a Cinder está nessa revolução porque acredita na liberdade, na justiça e no direito que os povos têm de escaparem das garras tiranas da rainha má, mas ela nunca desejou o comando. Cinder não é uma líder, mas ela é uma guia. Ela sabe quais caminhos tomar exatamente por ter sido oprimida a sua vida toda. Ela não perde a simplicidade, seus trejeitos e o que faz dela uma personagem tão carismática. Cinder continua a ciborgue mecânica que me conquistou logo no primeiro livro da série, mas todas as provações pelas quais ela passou constroem algo mais.

Junto a Cinder e Kai temos o resto da tripulação da Rampion, nave que se tornou a casa desses jovens. Thorne é o capitão, o Han Solo reimaginado e, portanto, o amor da minha vida. Se você leu meus surtos em Scarlet e Cress sabe o quanto eu amo esse cidadão.
Thorne fez uma expressão de deboche. 
- Cuidado é meu sobrenome. Vem logo depois de Charmoso e Ousado.
Nesse livro, a postura independente e rebelde do Thorne ganha ares mais altruístas e heroicos, uma vez que ele encontrou uma causa em Cinder e um caminho iluminado em Cress. Veja bem, Thorne não é nenhum santo, mas ele escolheu os sacrifícios de continuar na luta pela revolução, escolheu os possíveis horrores que enfrentar a Levana podem trazer, e os motivos guiando esse teimoso capitão são os mais puros e perfeitos de todos. Além do mais, as interações dele com o resto dos personagens são sempre um show à parte; destaque para o bromance com a Cinder. Os dois são irmãos de mães diferentes.


Thorne não se afastou. Ele só passou o braço pelas costas dela, e ali estava a proteção delicada da qual ela se lembrava. A respiração dele estava tão errática quanto a dela. 
- Cress. - Ele disse o nome dela como uma promessa.
Cress, a hacker amedrontada e, por isso, incrivelmente corajosa, é outro destaque dentro da história. Suas provações são sempre carregadas de estopins de bravura, momentos em que ela sussurra para si mesma que é a própria heroína, que é corajosa, que pode se proteger. Eu amo tanto a força dela, sua fragilidade, a presença carismática e a luz que ela carrega. Ela e o Thorne são o meu OTP mais supremo, porque um encontra diferentes forças no outro; eles se entendem a ponto de se amarem em silêncio, sonham com liberdades que, anos atrás, suas vidas não possibilitariam. Cress é tudo de incrível na vida do Thorne e vice-versa, e eu preciso GRITAR O QUANTO O AMOR DELES É DOCE E INCRÍVEL E FEZ DELES UM DOS SHIPS MAIS INESTIMÁVEIS QUE JÁ ENTROU NO MEU CORAÇÃO!



Lobo passa boa parte da história sofrendo com as consequências da sua insurreição, ao mesmo tempo em que se sente grato por ter escolhido abandonar a monstruosidade inserida artificialmente nele para lutar por uma causa justa. Ele confronta seu lado monstro diversas vezes na narrativa, e a Marissa acaba transformando a luta dele em uma aceitação bastante poderosa. Nem sempre o que o faz parecer um monstro para as outras pessoas realmente o transforma nisso.


Ela queria vingá-lo. Tirá-lo daquele lugar horrível, coberto de poeira. Oferecer a ele o céu azul, tomates e paz.
Scarlet está ali para provar tal fato; ela é a trilha do Lobo, sua alfa, a garota a quem ele entregou o coração. Scarlet é muito forte, inquebrável, independente de estar sob risco de morte no covil da rainha má. Ela é toda sarcasmo, do tipo que bate de frente mesmo ao maior sinal de perigo. Enquanto Lobo sofre com a distância e depois sofre com as consequências de um reencontro, Scarlet encontra motivos para continuar lutando mesmo nas situações mais desesperadoras. O amor entre eles é uma coisa mais sólida, mais conformada, uma coisa que existe e é tão importante quanto o ar que eles respiram.


- Scarlet. Estou tão cansado do gosto de sangue.

Ponto extra que eu preciso comentar é a amizade inesperada entre a Scarlet e a Winter. Tem toda uma questão de empoderamento e confiança que nasce entre as duas e é tão incrível como a história trabalha o desenvolvimento dessa relação. No início, Scarlet quer mais é que a princesa maluca se exploda, e no fim ela está explodindo pessoas pela Winter.

Winter e Jacin, como dito antes, formam uma força tarefa silenciosa na construção da revolução. Winter é a Branca de Neve relida, uma garota lidando com a insanidade e com a solidão e com a ameaça da madrasta invejosa. Jacin é o seu protetor, um guarda-costas determinado, um soldado obediente que está disposto a enfrentar a morte para que sua princesa fique à salvo. Eu amo o amor dos dois; amo como a Winter sempre foi quebrável, uma donzela em perigo que acabava salvando a si mesma. O que Jacin sente por ela é uma devoção pura, aquela ideia de que ele não necessariamente precisa protegê-la, mas que precisa estar ali por ela como sempre esteve. A amizade entre eles existe desde a sua infância, e o tempo só consolidou os sentimentos profundos que existem entre os dois.
Jacin deu um passo para trás e apertou a ponte do nariz. Ele falou um palavrão. 
- Princesa, você tem que parar de colecionar esses rebeldes.
Destaque para a sensibilidade com que a Marissa tratou o problema mental da Winter. Sua loucura é desenvolvida com sutileza, criando um cenário obscuro para a princesa, mas também um cenário que ela pode acabar encontrando salvação.
- Jacin. - disse, com um sorriso trêmulo. - Você deve saber. Não consigo me lembrar de uma época em que não amava você. Acho que essa época nunca existiu.
Tal como o sapatinho da Cinderela, o lobo mau e o chapeuzinho vermelho e as tranças da Rapunzel, aqui você encontra muitos elementos do conto original, até mesmo o caixão de vidro e a bruxa disfarçada. A genialidade com que a Marissa transforma o conto de fada em um cenário distópico futurista continua me surpreendendo e me deixando no chão enquanto aplaudo a construção dessa história.



Por fim, mas não menos importante, Iko, a androide-acompanhante melhor amiga de Cinder tem seus melhores momentos nessa obra. A presença dela é um alívio cômico bem-vindo, mas também vem carregada de coragem para lutar pelos seus amigos. Ela pode ser uma androide, mas ela sente tanto quanto os humanos. As cenas que a Iko divide com cada tripulante da nave, e até além disso, são carregadas de crescimento e de carisma. Ela é o tipo de personagem preciosa que você quer proteger a todos os custos, tal como a Cress e a Winter - e arrisco dizer, o Kai principalmente.


A revolução ganha mais e mais emoção conforme você vê o cerco se fechando no reinado da cruel Levana. Toda a história de horror e de controle que ela criou sobre Luna, estendendo até a Terra, se abala conforme Cinder clama pelo que lhe é de direito. Levana é um monstro escondido atrás do glamour, de uma beleza angelical falsificada. Ela tem sombras a esconder, e nenhum véu vai ser capaz de ocultar sua monstruosidade com as verdades a serem reveladas. Ela vai confrontar mais do que o passado, mas a glória de um futuro livre. E a voz do povo vai se erguer contra a tirania da rainha má.


Ela teve esperança de que o incidente fosse passar despercebido. Mas devia ter sabido. A esperança era a ferramenta do tolo.
De uma simples releitura dos famosos contos de fadas até uma história sobre guerras, segredos e conspirações políticas, As Crônicas Lunares se tornou, definitivamente, uma das séries mais inesquecíveis que já tive o prazer de ler. Vou sentir muita falta dos personagens, dos ships e de todo o sofrimento que acompanhava amá-los tão fervorosamente, mas fico feliz em me despedir no que foi, sem sombra de dúvidas, um dos melhores livros que já li na vida.


Título original: Winter
Autora: Marissa Meyer
Editora: Rocco
Gênero: Ficção científica / Contos de fadas
Nota: 5 +

Saiba Mais: Skoob | Saraiva | Buscapé

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COMENTÁRIOS

4 comentários:

  1. Oi, Denise!
    Meu maior desejo no momento é começar a ler essa série, só leio ótimos comentários a respeito, é muito bom quando os personagens e história se torna inesquecível!
    Parabéns pela resenha!

    Beijos,
    Eli - Leitura Entre Amigas
    http://www.leituraentreamigas.com.br/

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    1. Oi Eli!
      Essa série é MARAVILHOSA. O que é facada nela é o preço </3 mas black friday ajuda muito. Vale super a pena, sério. Uma das melhores coisas que já li em toda a minha vida!
      Obrigada pela visita.

      Beijos.

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  2. Super concordo com você. Com a exceção de que meu OTP supremo na verdade é o Kai e a Cinder. Eles são maravilhosos tanto juntos quanto separados! Vomito arco-íris com eles desde o primeiro livro. Em seguida as personagens mais incríveis na minha opinião são a Cress, que sempre me impressiona com a inteligência e a coragem dela, e a Iko. Inclusive eu percebi desde o primeiro instante a indicação do romance da Iko com o Kinney, e fiquei bem decepcionada quando não vi se concretizando no restante do livro e pensando que imaginei a coisa toda. Mas a decepção passou quando eu vi que a Marissa Meyer lançaria um spin-off da série que irá focar justamente nos dois, e agora estou ansiosíssima e com as expectativas lá no alto. Também mal posso esperar pelo lançamento de Stars Above aqui, já que não sou muito fluente no inglês :(

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    Respostas
    1. Oi Isis!
      Adoro Kai e Cinder também, acho o romance deles tão empoderador! Além do fato de ter nascido de uma amizade fofa, a confiança que existe entre os dois é muito incrível - especialmente pela questão da identidade da Cinder e toda a tensão dos livros anteriores. Cress é minha bebezinha mais preciosa, não canso de exaltá-la.
      A IKO TEVE UM CRESCIMENTO ABSURDAMENTE MARAVILHOSO. Eu tinha esse feeling de que ela estava ali pra ganhar um arco ótimo, mas fiquei de queixo caído com a qualidade da história dela. Só que esse spin-off vai ser em forma de HQ né? Não que seja um problema, EU AMO HQ's, mas acho que a Iko merecia uma série só dela. ATÉ PORQUE aí dá pra me dar todo o fanservice mostrando os casais felizes para sempre *-*
      Espero que a Rocco não demore com Stars Above </3 eu até achei em inglês, mas a preguiça tá forte, confesso.
      Muito obrigada pela visita!

      Beijos,
      Denise Flaibam.

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